Lista é coisa de mané

O Sérgio Rodrigues me convidou, mas, por total falta de tempo, temperada por certeiro desinteresse, acabei me esquecendo de responder a seu elegante convite. Desculpae, Sérgio. É que lista é coisa que não uso nem quando vou ao supermercado. Escolher um entre todos os livros brasileiros que li nos últimos 25 anos para indicá-lo como O Livro é, com o perdão da má palavra, coisa de – e para – mané. Acho que o único cara que conseguiu dar alguma graça pra esse negócio de listas foi o Nick Hornby, no Alta fidelidade.

É um tipo de jornalismo de boteco que, apesar de amar botecos, não me fala ao pau. Se estou na mesa com compadres e alguém solta “Qual foi o gol mais bonito que você já viu no Pacaembu?”, “Qual a mulher mais gostosa que você já comeu?”, “Qual o chope mais delicioso que existe?”, a gente vai ter assunto pra beber noite adentro. Passada a régua e finda a ressaca, vamos pra vida – esse lugar estranho que até parece o paraíso quando se toma um chope ralo com uma mulher mais ou menos interessante enquanto se conta a ela como testemunhar debaixo de chuva o Timão tomar um gol pode ser uma experiência epifânica.

A vida não é só feita de Dom Quixote, de Grande Sertão: Veredas, de Finnegans Wake. Não quero fazer aqui o elogio do meia-boca, mas jamais incitarei à defesa incondicional do fucking number one. Nuances, paradoxos, bizarrices e extraordinariedades nunca cabem em listas de topten. Literatura não é corrida de cavalos. Não vou nem falar da famosa ‘lista dos que não entraram’, que aparece em qualquer votação [Sérgio lembra que ninguém votou em Marçal Aquino nem Bernardo Carvalho; poderia adicionar ao time de excluídos Valêncio Xavier, Manoel Carlos Karam, João Gilberto Noll, e, porra, se não me engano, Hilda Hilst cometeu alguma obra-prima no período]. “Ah, mas Borges nunca ganhou o Nobel… Welles jamais pegou numa estatueta dourada… Bressane não foi convidado pro Amores Expressos…” Puta preguiça alimentar esse tipo de coisa!

O jornalismo do número 1 incentiva ao coitadismo cultural. Eu adoro ficar falando “esse é o melhor do ano”, “fulano é o mais fudido de todos os tempos” justamente porque não levo a sério essas merdas. Tempos atrás inventei o Prêmio Jaburu pra tirar onda do Jabuti [venceram, na ordem, Patrícia Melo, Fernanda Young e Paulo Coelho]. O Marcelino replicou a idéia em seu blog e o prêmio desandou em baixaria [Freire até retirou os comentários abertos por causa disso]. Ano depois, o autor de Contos negreiros levaria o Jabuti… “Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha e se esculhamba”, analisaria o sábio Luz Vermelha.

E tem outra coisa. Se votação realmente prestasse pra algo, teríamos um Congresso de notáveis, um prefeito coerente e o melhor presidente da história desse país habitando o Planalto. Viva o povo brasileiro é o melhor livro publicado em 25 anos? “Hic“, devolveria Ubaldo. Voto é pra zé-povinho que curte Big Brother. Me inclua fora dessa, Sérgio. E chama mais uma!

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

9 pensamentos

  1. Bressa, você falou tudo que eu queria falar e não tive saco. E tem mais: pra você (e só pra você) eu conto que um dos autores que votou em si próprio fui eu. Sim, senhores. Esse foi o jeito que encontrei pra manifestar minha raiva e minha indignação, não só com esse tipo de lista, mas também com a idiotice do meio onde estamos metidos. Você não acha que eu tô certa? Beijos

  2. Eu não. Aquele mineiro-que-pensa-que-é-carioca e usa brinquinho que faz auto-promoção (apesar de condenar a auto-promoção alheia) e que incentiva autores “medíocres” na tv a deixarem o riscado pra quem entende merece chupar o meu pau.
    Pensando bem, não merece não.

  3. Concordo. Acho que tem haver também com aquele papo de “alta literatura” e coisa e tal. Quem precisa dessas listas são as pessoas que compram livro pra deixar na mesa de centro.
    Forte Abraço.

  4. Sensacional o texto, apesar de eu ser um compulsivo por listas (só que concordo com a real utilidade delas, em boteco).

    Mineiro que pensa que é carioca me parece pleonasmo, mas como não sei quem é o cara, sei lá.

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