O cemitério aéreo.

Pensei que, de certa forma, estava à sua espera, embora, claro, ele não viesse, e pedi um chope, que veio aguado e quente. Tomava o vento na cara em baldes. Uma mulher se insinuou em frente, de costas a mim, se encostou morna no poste enferrujado, enchendo a cara do sol que se banharia no rio, beira do cais. Seu vestido era velho, vermelho, atravessado pela luz do dia que caía, e vi suas grossas coxas morenas nos intervalos aos banhos de vento. Vez em quando, a curva de um seio. Uma mulher, enfim. De que eu precisava? Nada poderia fazer. Talvez nem tentar algo coisa com ela, pois, afinal, não foi pra isso que tinha vindo. Esta não é uma viagem de férias, embora no céu os pássaros cantem. O chope termina e peço outro, enquanto caio os olhos nos pés da mulher se cruzando no chão, sandálias chutadas. O ar agitado, me fixo à espiral das minhas memórias. Tantas que nem saberia por onde. Penso em comer peixe. Empinar papagaio. Dirigir. Fumar cachimbo. Ganhar ovo de Páscoa. Vestir paletó. Mas já visto um, negro, elegante como os que ele tinha. Pássaros. Procuro um cigarro no bolso, enquanto a mulher acende o dela. A fumaça sobe, junto meu olhar – minúsculos pontos negros no céu se aglutinam, pequenas nuvens.

Tinha chegado quase no fim da tarde deste domingo de Páscoa à cidade de onde ele já havia se ausentado, e desde então procurava nela algum símbolo de sua passagem. As ruas eram as mesmas, os vendedores de tranqueiras, os mototáxis, aquela gente parda sem rosto nem ressurreição. Casarões de tempos quase gloriosos – a cidade um cárcere de lembranças esburacadas. Sempre tinha pensado nessa cidade como uma prisão para ele, pois assim a sentia para mim. E a gente era muito parecido. Caminhei tropeçando em pedregulhos e me sujando de suor e pó vermelho e não podia deixar de pensar em como ele deveria ter se sentido um traste num lugar desses. Por isso mesmo, não poderia fazer nada que estivesse à sua altura. Nascera pra reinar – mas nunca adivinhara que jamais houvesse sido, realmente, um rei. Seu rei estava na barriga – e o câncer nela lhe comera todo, das veias aos cabelos. Nem bonita essa cidade era. Terra de mísera passagem. Próxima demais dos limites do paraíso. Nada em suas alamedas enlameadas lhe lembrava as aristocráticas rugas. Assim, do lado do rio Paraguai, vim me sentar debaixo dum guarda-sol vulgar – até o céu deste lugar se imprimia grosseiro. Um azul insuportável, brotava brotoejas da testa, pássaros do ar.

Em volta de mim muitas pessoas se sentam, todas de frente pro ocaso, laranja, rubi, violeta, bola de fogo dois passos do caos. O céu escurece rápido, embora se pressinta uma claridade profusa. O sol, vuduzado por alfinetes pretos – mínimas névoas se movem. Pássaros. Pássaros. Milhares. Anônimos. É: não conheço seus nomes. Ele conhecia – todos os pássaros, plantas, flores, animais. Por isso nunca me preocupei em saber seus nomes: já havia quem o fizesse por mim. Então todos os nomes dos pássaros, plantas, flores, animais, se perderam no nada – é isso que quer dizer? É assim? As pessoas falando cada vez mais alto. Como é linda a maneira como ela segura o cigarro e estica seu queixo para cima, de lado se sugerindo seu perfil de chocolate, fumaça pro alto, um recado aos pássaros solares. Como se os chamasse. O que ele teria visto, na hora final? Qual a última mensagem?

Ele amava os pássaros. Talvez já nem pensasse mais neles. Quando tudo ao redor ruía doloroso, se cavando devagar – e neste céu, cavam-se abismos ondulantes em forma de v –, ele só pensaria mesmo em amar o fim: estaria já apaixonado pela própria morte. Murmúrios e risos. A morena desliza devagar pelo poste até se sentar no chão, suave, uma perna sobre a outra, aninhada – uma mão pensa no tronco de madeira, o braço circulando o poste, aos poucos. Seus cabelos pretos refletem longamente as luzes noturnas. E logo as vozes do alto se agitam – asas, asas, gritos: são milhares, milhares de pássaros, aos bandos, despencando desde a estratosfera em volutas suicidas até chegar ao rio, às vezes mergulhando e emergindo, um peixe no bico, algumas voltam aos céus, temerosas da terra firme, vêm se largando duma árvore a outra, as árvores se desmanchando, balanços criando fúria entre galhos e folhas, árvores vergadas pelo peso da leveza que eram tantos – tudo pássaros, todos os lados, nos guarda-sóis, telhados, carros, balaustradas, sacadas, postes, muros, portões, calçadas, nas copas das árvores desta praça, pássaros pássaros pássaros, absolutos reis desta cidade-ave do esquecido Oeste, reis distantes e famintos por um lugar, extenuados da viagem antiga, apenas guiados pelo desejo de permanência, enchendo a cidade de canto, agitação e cheiro de merda, a cidade inteira está cagada, chove, as ruas estão brancas, neva. Névoas. A mulher sumiu.

Peço outro chope, nervoso, coração apertado, fascinado pelo medo, surpresa, falta de sentido. Espantos, pântanos adentro. Para isso eu tinha vindo? A mulher foi na fumaça – mas deve ser assim, todos vêm a esta cidade para se tornar fantasmas, os pássaros já estarão mortos noutro continente, todos estão mortos nesta cidade e este é um cemitério de pássaros. O garçom, tropicando nas aves que vagueiam, leva uma cagada bem no cocuruto, e sorri sem graça para mim: – dá sorte. Maldito o lugar em que as pessoas abençoam uma cagada na cabeça.

Você nunca tinha visto isso, né? uma voz me diz. É a mulher, morena ao meu lado, surgindo de dentro da fumaça de seu cigarro. Se sentou perto sem que eu percebesse. Nunca, não, tento articular. Como se chamam?, pergunto, achando um pouco de graça nessa aproximação, um pouco de graça em seu jeito delicado de ave, mas um olhar tenso, de gavião. Vêm pra cá nessa época, ela desenvolve, voz mole de lacunas, vêm dos Estados Unidos, atravessam o continente até o Pantanal, sempre em março e abril. Vêm em busca do verão, que aqui é eterno. Não sei como voltam… tudo que vem pra cá não volta nunca, ela derrama, e sorri triste, olhos no rio. O chope queima na garganta, o sol uma mancha marrom. Você não é daqui, não é?

Sim – só poderia ser por esta razão que ele quis que eu viesse. Para ver isto. E nem você, devolvo. Você sabe o nome destes pássaros?, quero saber, preciso. Nas orelhas, pequenas argolas de prata. Você tem um cigarro?, pede ela. Acendo dois cigarros. Nós também não temos nomes, como os pássaros. Ele queria que eu visse isto. Um último jogo, um último presente de Páscoa. O pai agora está sob a grande sombra de um ipê-roxo, envolvido em uma manta alada. Em todas árvores os pássaros se aquietam, e o sol se afunda no rio. Vou te contar uma história sobre pássaros, a mulher sopra, junto da fumaça azul. No céu escuro, cicatriz de luz, a lua ganha a forma da espada.

>Escrito em Cáceres [MT], outono, 1996; publicado em Céu de Lúcifer [Azougue, 2003].

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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