Não-ficção/Perfil

O último cacique

Orlando, Leonardo e Cláudio Villas-Bôas

Acabei de ver Xingu, de Cao Hamburger, belo filme sobre a odisseia de três irmãos rumo ao Brasil Profundo. A produção tem alguns esquematismos, certa solenidade e peca um pouco nos diálogos, mas os atores são convincentes, a fotografia é excepcional e a narrativa emociona em vários momentos – como no primeiro contato dos Villas Bôas com os indígenas e na emblemática cena final. Pena que o filme esteja indo mal das bilheterias, porque é muito mais criativo – e necessário – que boa parte das produções em cartaz. À saída, lembrei que fiz, para a revista MIT, a última entrevista com o líder do trio, Orlando Villas Bôas, que aos 88 anos escrevia sua autobiografia. A história de um homem que viveu um dos últimos descobrimentos do Brasil: o do índio

Você tem 30 anos e um emprego bem mais ou menos numa multinacional. Divide um quarto de pensão com os irmãos que, como você, vindos do interior paulista, não se acostumaram a morar encaixotados na capital. A Segunda Guerra está quase no fim; a Europa, destruída, não sopra para você o menor glamour; os EUA se tornam a maior potência do Ocidente e voltam seus olhos gulosos para o mundo inteiro – inclusive para o Brasil, cheio de áreas ainda não exploradas. Por aqui, o país vive uma febre desenvolvimentista.

Mas você não está interessado em subir na vida, não quer saber de progresso, não está nem aí para a civilização, para mulheres, iates, automóveis. Procura o que, em 1943, ainda não era artigo raro: aventura. Fica sabendo que há uma expedição chamada Roncador-Xingu, que pretende conquistar o Brasil Central. Você sonhava em ser um herói. Mas não sabia ainda de que tipo.

Quando os jornais anunciaram que estava sendo organizada uma expedição ao Xingu, me apresentei ao coronel Vanique e disse que gostaria de participar”, conta Orlando Villas Bôas, 88, paulista de Santa Cruz do Rio Pardo, à Mitsubishi Revista. Lentamente, às vezes parando para ganhar fôlego – acaba de passar por delicada cirurgia –, ele relata: “O coronel disse que não queria gente da cidade. ‘Analfabeto tem mais resistência’, falou. Mesmo assim, deixamos nossos empregos: eu trabalhava na Esso; o Cláudio na telefônica e o Leonardo em uma importadora. Deixamos crescer também a barba, praticamos bastante falar errado e fomos para Barra do Garça, margens do Araguaia, Goiás, onde nos apresentamos como analfabetos. Fomos contratados na hora, como peões. Tudo estava numa bananosa, ninguém organizava nada. Um dia um piloto atolou o avião no campo e nos chamou para ajudar. Conversa vai, atola, desatola, viram que não éramos analfabetos. No dia seguinte virei secretário da base, Cláudio chefe do pessoal e Leonardo chefe do almoxarifado.

A MAJESTADE DO XINGU

Aweti, ikpeng, juruna, kalapalo, kamayurá, kayabi, kayapó, kuikuro, matipu, mehinaku, nahukwá, suyá, trumai, waurá, yawalapiti. Antes dos irmãos Villas Bôas, esses nomes não significavam nada. Ao contrário: as tribos do Xingu simbolizavam obstáculos ao progresso pretendido pelo governo Vargas. A expedição Roncador-Xingu, de cunho militar, propunha ganhar toda aquela área – nem que na marra. Quando nota que os militares forçariam a barra – cada soldado levava um mosquetão de 50 tiros, para limpar o caminho –, Orlando escreve ao Marechal Rondon expondo a doutrina Villas Bôas: se o índio não poderia ser integrado, ser desintegrado era um absurdo. Rondon, ele próprio descendente de índios terenos, mexe seus pauzinhos, e logo os Villas Bôas são destacados comandantes da missão Xingu.

Breve, os índios começam a ser conhecidos de verdade. “Não como os comanches de filme, não os índios dos blocos de carnaval, não os comportados índios que aparecem no quadro da primeira missa” – conforme escreve Moacyr Scliar em seu A Majestade do Xingu: “nus, o corpo pintado, penas de pássaro e batoques atravessados nas orelhas, no nariz, nos beiços, são criaturas da natureza, em harmonia com o cenário”.

Por 32 anos, os irmãos irão demonstrar que, se alguém ali destoa do cenário, são os brancos. Assim é que eles ensinam os rudes sertanejos, cooptados do garimpo para a empreitada – alguns com 15 mortes nas costas – a abaixarem armas e até mesmo correrem risco de vida para demarcarem as terras indígenas. (Na época, muitos grileiros espalhavam roupas contaminadas com varíola para erradicar os índios mais rápido.) Antes mesmo do primeiro contato com seus anfitriões, os Villas Bôas intuem que estão em propriedade particular. Este respeito ao espaço territorial nativo é que fará o sucesso da expedição, conforme Orlando conta, em tantas histórias.

Em 1953, voltamos a procurar os hostis txukarramães. Fomos encontrá-los à margem esquerda do Xingu, uns quatrocentos. Levamos presentes, mas poucos para as mulheres – raramente participam do primeiro contato. Como não trouxemos muitos presentes para elas, brigaram com os maridos e foram para a mata. Os homens ficaram nervosos e pediram que chamássemos as mulheres. À noite, sob violento temporal, começaram a gritar. Vinte txukarramães apareceram com bordunas amarradas às costas, sérios, pintados de preto, para a guerra. Cerca de cem homens com tochas acesas nas mãos. Disseram que as mulheres estavam bravas e tinham ido embora, ordenaram que fôssemos chamá-las. Um deles me enfiou uma borduna na barriga e gritou: ‘Kubenkridi abakobim’ (‘Matem os brancos’)…

Comecei a gritar na língua txukarramãe: ‘Mulheres voltem. Não somos bravos. Trazemos presentes’ (‘Menire memboi. Kubencrid maitire’). De repente, chegou uma velha. Silêncio. Os índios guardaram as bordunas e abriram o círculo, alguém acendeu o fogo. A velha cuspiu na mão e passou no meu rosto, para espantar maus espíritos. Aí, afastou-se, voltou com as mulheres, 228 ao todo, que exigiram que nos soltassem. Só voltamos à aldeia três meses depois. E, desta vez, levamos muitos presentes para elas. Com mulher txukarramãe não se brinca”.

BANQUETE SERTANEJO

A cada 150 quilômetros devem se abertos campos de pouso para os aviões. São mais de 3 mil quilômetros pelo sertão, até o sul do Pará. Uma picada na serra do Roncador leva 11 meses para ser aberta. “Andar três quilômetros por dia já era excelente. Os xavantes hostilizavam a tropa, espantavam os burros… Tivemos 18 escaramuças com os xavantes, os mais bravos. Nos livramos bem, não demos um tiro. Quando a coisa era séria, atirávamos para cima.” Comem peixe e caça: anta, capivara, porco do mato. “Éramos uma expedição muito pobre. Um dia os homens não quiseram sair da rede, estavam com saudade de arroz – há dias que só comíamos macaco.

Durante a expedição que criou 65 cidades e travou contato com mais de 100 tribos, apoiados pelo antropólogo Darcy Ribeiro e o sanitarista Noel Nutels (que erradicou dali a varíola), os irmãos fundam a Funai e o Parque Nacional do Xingu, preservando culturas antigas. São indicados ao prêmio Nobel da Paz, em 1971 e 1976: mais que impedir que a civilização engolisse a culturas indígena, pacificaram as nações em guerra há dezenas de anos.

O Parque do Xingu hoje abrange mais de 2,8 milhões de hectares – França e Inglaterra juntas – e localiza-se no norte do Mato Grosso, numa região de transição entre o Planalto Central e a Amazônia. Em suas terras vivem 17 nações, quatro mil pessoas. A proposta dos Villas Bôas proporcionou aos índios a possibilidade de se preparem adequadamente para um processo que nunca deixou de ser visto como inevitável – a integração.

QUARUP

Depois de 32 anos na selva, fluente em sete línguas e quatro dialetos indígenas, Orlando volta a São Paulo para colocar na escola os filhos Orlando Filho, advogado, 30, e o filósofo Noel, 26 (homenagem ao sanitarista Noel Nutels, protagonista do livro de Scliar). Só retorna ao Xingu em 1998, para assistir ao Quarup – cerimônia da passagem deste mundo para a “aldeia das estrelas” –, feito em homenagem a Cláudio, falecido em 1998, e Álvaro (ex-presidente da Funai), em 1996 (Leonardo havia morrido em 1961). “Cláudio e Álvaro eram mais jovens, não deveriam ter morrido antes de mim”, lamentou ele durante o maior Quarup já realizado para brancos, contando com a presença de 3 mil índios de 13 diferentes tribos.

Hoje, em sua casa no Alto da Lapa, em São Paulo, recuperando-se de uma internação em fevereiro de 2002, Orlando acompanha firme as discussões em torno da ocupação da Amazônia, como conta sua esposa Marina Villas Bôas, 64, companheira desde quando foi, aos 26, ser enfermeira no Xingu: “Essa casa nunca pára, o telefone toca o dia inteiro”. Para Orlando, “a onda do politicamente ecológico é piada. Não existe exploração de madeira da Amazônia mediante contratos de risco. Se o Brasil não abrir os olhos, vão desmatar tudo”, adverte, exaltado, para arrematar, sempre apaixonado: “Por que essa concorrência desenfreada com os primeiros donos da terra?”.

UM HERÓI BRASILEIRO

Para um homem que sempre foi um aventureiro brigador, como é se aposentar deste mundo que desaparece – o mundo dos descobridores? “Vontade de voltar ao Xingu não falta. Mas tenho muito cansaço, isso me aborrece. Os médicos dizem que passa… Sempre fui tão ativo. Hoje sou um velho de 88 anos com uma saudade imensa do sertão. Só espero chegar à idade avançada sem ficar senil. Entre os índios não há velhos caducos: quando eles percebem que a degradação se aproxima e vão depender de alguém, abreviam a morte. Ainda não desisti. Só me aborrece não ter implantado uma política para proteger o índio.

O fotógrafo Pedro Martinelli, que clicou a expedição no início dos 70, o vê como “um herói brasileiro”. De certa forma, Orlando personifica o ideal brasileiro de heroísmo: cordial, o cara que resolve as paradas na conversa, sem precisar atirar. Atualmente ele resume as lembranças de mais de meio século de aventuras em uma autobiografia – mais um livro para fazer companhia aos outros 12 que publicou, em parceria com Cláudio. Recentemente, Orlando teve a idéia de se lançar à Academia Brasileira de Letras. No entanto, com a saúde um pouco mais frágil – não se esqueça de que esse homem venceu 287 malárias –, teve de se candidatar a uma vaga na UTI do Incor, deixando a ABL para lá.

A imortalidade dos brancos pode esperar. Para os índios, você, Orlando, já é eterno.

2 comentários sobre “O último cacique

  1. Maravilha, Bressane! Sou fã dos irmãos e certamente terei o filme na minha coleção. Um livro sobre a Roncador-Xingu está na minha lista para ser devorado em breve.
    Pedro Martinelli é um dos meus ídolos. Meu filho tem esse nome em homenagem aos Pedros que admiro, entre eles o Martinelli com destaque.
    Grande abraço

    Cobi

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