Crítica

Ácida & sulfúrica

Em seu novo romance, Como Se Estivéssemos Em Palimpsesto de Putas, a escritora carioca Elvira Vigna exercita sua verve demoníaca ao esquadrinhar a vida de um dependente de garotas de programa

Vigna no clique de Renato Parada

Vigna no clique de Renato Parada

Elvira Vigna é daquele tipo de escritora que, como Lydia Davis ou André Sant’Anna, tem um estilo tão marcante que faz com que o leitor passe a ver o mundo com a sintaxe e a perspectiva do livro que acabou de ler. Ao terminar este Como Se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas (Companhia das Letras, 216 páginas), os olhos do leitor estarão chorando com o colírio venenoso despejado a conta-gotas pela escritora carioca de 69 anos, pródiga em frases e parágrafos curtos, afiados como estiletes.

Conforme demonstrou em livros anteriores como O Que Deu Para Escrever em Matéria de História de Amor, Por Escrito ou Nada a Dizer, Vigna se debruça sobre relações entre homens e mulheres sem um pingo de sentimentalismo. Seu método, na linguagem, procura enfocar a migalha do relacionamento, em vez de se preocupar com o sabor ou o mofo do pão de cada dia amoroso. O troco, o miúdo e o mesquinho ganham sua fôrma com uma pontuação em pizzicato: pontos e vírgulas que esmiuçam períodos reunindo a narrativa em síncopes e soquinhos, trancos e barrancos.

Não é agradável.
Mas Elvira Vigna não quer ser agradável.
Ela quer é enfiar um cisco no seu olho.

Talvez sua linguagem nunca tenha se aproximado tanto de seu tema quanto neste Palimpsesto. “Aquilo que se raspa para escrever de novo”, o palimpsesto designa um tipo de papiro ou pergaminho usado na Idade Média que permitia ser reutilizado após lavado ou raspado com pedra-pomes. Muitos textos clássicos foram perdidos por causa deste método; mas tecnologias avançadas conseguem hoje recuperar os textos que estavam escritos sob aqueles que lhe tomaram lugar.

Do mesmo modo, a linguagem de Vigna vai raspando o que estava escrito antes para melhor recombinar a narrativa. E a narrativa é sempre a mesma: os encontros de João com prostitutas — um exercício quase mecânico que vai aos poucos perdendo o sentido, uma vez que João nunca se sacia nem satisfaz o interesse da narradora do livro. Tudo começa quando dois estranhos por acaso se encontram num escritório atulhado de livros, no arrasador verão carioca: ela é uma designer em busca de trabalho, ele foi contratado para informatizar uma editora em estado falimentar. Nesta espécie de limbo, todo dia ele rememora a ela seus encontros com garotas de programa quando era jovem.

“João entra em um dos cubículos, afastando uma aba do plástico azul que, essa, não está presa em nada, descendo solta da estrutura de alumínio. É uma abertura à guisa de porta. Os cubículos não têm propriamente porta. Não têm teto e também não têm paredes. O que seriam as divisões entre eles é o mesmo plástico azul meio solto, meio preso, que pousa no chão, mas não muito. Então não é o caso de se encostar em nada porque a pessoa pode acabar encostando, sem querer, em alguém que está fazendo a mesma coisa no cubículo ao lado.
A garota diz para João deixar os sapatos do lado de fora.
João acha, num primeiro momento, que sapatos do lado de fora são uma preocupação com higiene. Depois percebe que é uma maneira, talvez a única, além da auditiva, a indicar que o cubículo em questão está ocupado.
Depois, um colchão no chão.”

É desse jeito mequetrefe que João começa a praticar sua arte: transas furtivas com moças desgraciosas, pagas com cachês irrisórios em troca de ejaculações precoces em cafofos de edifícios decadentes (a de cima é uma das “saunas pobres” que existem depois que as repartições públicas de Brasília fecham, às seis da tarde, uma sacada hilária). A obsessão sexual de João é totalmente desglamurizada por Vigna, em sua linguagem seca, direta, objetiva e sublinhada por um humor oblíquo ao mesmo tempo cruel e compassivo: as muitas repetições são dissipadas pelas contínuas piscadas de olho ao leitor. Os intercursos que se sucedem quase idênticos seriam deprimentes não fosse o humor de Vigna.

Em um livro antisentimental, cada personagem tem sua psicologia esquadrinhada por lupa feito um rato em um laboratório-labirinto. Tal como na guerra conjugal de Dalton Trevisan, tudo é típico no mundo de Elvira Vigna — mas até mesmo os tipos têm suas idiossincrasias. Representante comercial da Xerox (daí nascerá seu impulso ao sexo copiado em série?), o carioca João viaja pelo Brasil enquanto sua esposinha Lola, uma ex-praticante de nado sincronizado, trabalha como corretora imobiliária e fica bonitinha esperando o maridinho voltar. O maridinho aproveita as viagens para ocupar as noites vazias com as garotas de programa. As visitas são para João um tempero ficcional, uma forma de se transformar em outro homem, de escapar para um mundo de fantasia — ainda que seja o mesmo insosso mundo toda noite. A própria repetição deste gesto fascina a narradora, e, por consequência, o leitor.

A narradora é um caso à parte. Ela vai sendo introduzida aos poucos no romance à medida em que nos perguntamos quem seria afinal a pessoa que arranca e comenta as proezas tesas de João. A Sheherazade talvez seja a própria Vigna, então uma designer que compartilha um escritório em Botafogo com João — agora um alto executivo de uma grande editora —, onde bebem uísque em copinhos de plástico enquanto ele desfia suas presepadas. Na época ela divide um apartamento com Mariana, uma prostituta que tem um filho, Gael, por quem às vezes demonstra “uma saudade absurda”, raro resquício de ternura. Por sua inexpressividade, Mariana simboliza o tipo de garota de programa por que João procurava:

“‘Uma garota novinha, tesudinha.’
E descrevia mais ou menos uma mariana.
Por muito tempo achei que ser novinha era uma fixação mais para a pedofilia da parte dele. Independente se era ou não, acho que também queria dizer que as garotas não tinham marcas. Eram novinhas no sentido do que não tinham marcas, gestos, expressões, coisas que as individualizassem. De algumas, ele lembrava alguma coisa, um nariz um pouco maior, um jeito mais sacana de rir inflando as narinas ou franzindo o nariz. Ou era ele que punha, nelas, características, lembranças e ilações que nelas não havia. Da maior parte das garotas, nada ou quase nada ficou para ele.”

Vigna é uma narradora não-confiável, posto que o tempo todo deixa claro que preenche as lacunas das histórias de João com suas ilações e juízos. Ouvir João é um mode de ouvir, pelo avesso, Mariana, e, por que não, Lola. É um modo de reindividualizar mulheres que não têm peso nem serventia para o mundo, de reinvindicar personalidades a estas bonecas inanimadas. A estrutura do romance, por sua vez, construído em fugas, do tempo presente ao passado e daí ao pretérito imperfeito de cada personagem, em si é uma metáfora da impossibilidade de João se estabelecer como um porto seguro. João é o que foge, de uma mulher para outra, sempre voltando para Lola. Daí então o ponto de fuga de todo o romance residir na ambígua psicologia da mulher de João.

“Porque quero contar, eu, o que é de outra autoria. E não estou falando de João.
Porque é isso o que faço agora: estabeleço uma autoria. Não a minha. Nem a de João.
De Lola, a grande ausente, a de quem não falávamos. A que estava fora de tudo.
É sobre ela, isso.”

Assim, outra camada narrativa deste Palimpsesto refere-se não só às escapadas de João, ou às tentativas de Vigna representar essas escapadas, mas ao universo de Lola, de quem João escapa, porém nunca escapa. Um retrato de Lola, a enganada, seria o grande objeto do romance. No entanto, ela também escapa o tempo todo — até sua impressionante virada de jogo ao final, depois que se separa de João, ao pegá-lo no pulo.

Como o romance, de certa forma, nasceu dentro de uma editora — entre as estantes de livros do escritório em que ambos jogam conversa fora —, Vigna faz questão de mostrar-lhe suas estruturas, alicerces e convenções. E o que sustenta a trama são os jogos de poder do pequeno mundo de João. Como espertamente Oscar Wilde, “qualquer coisa no mundo trata de sexo, menos o sexo em si; o sexo trata de poder”. João justifica à narradora que procura garotas de programa “para ter uma transgressão na vida”, mas também para alimentar uma velha fantasia de infância: “o garoto pobre em frente à loja de doces”.

De cronologia ziguezagueante, estruturada em idas e vindas ao passado — mas sempre narrada no presente —, o livro se complica com a entrada em cena de outros personagens. Há o Arquiteto, um empreendedor com quem a narradora planeja comprar apartamentos velhos, reformá-los e então vendê-los a um alto preço. Um desses apartamentos é comprado pela narradora, que por coincidência passa a ser vizinha de João. Há também Lurien, uma travesti vizinha ao apartamento da narradora e de João. A princípio antagonistas, João e Lurien acabam se tornando amigos. E há, sobretudo, Cuíca, colega de firma de João com quem ele costuma ir a puteiros famosos, tais como o nostálgico castelinho da Kilt na Praça Roosevelt, em São Paulo. Em outra sequência engraçadíssima, Cuíca convida João e coleguinhas para um gang-bang com uma garota em um hotel — mas João “amarela”.

“Garota de programa é uma coisa, assim, de meninos”, João analisa. “Meninos, apenas, que não sabem o que fazer, o dinheirinho na mão, na frente da vitrine de doces da padaria. Só isso.” Para confrontar sua tese de que só vai atrás de garotas de programa como um exercício imaginário de poder, a narradora diz a João: “Para mim, vender a buceta ou o bíceps é exatamente a mesma coisa”. João se esquece de que, em uma transação comercial, o poder nem sempre está com quem compra — talvez, sobretudo, com quem vende. “João e seus colegas buscam um gozo sob controle. Pagam, controlam. Buscam também, e é engraçado pensar isso assim junto com a necessidade de controle, estar livre de regras e controles. E buscam, além disso, a sensação de que são superiores aos outros, embora estejam fazendo exatamente a mesma coisa, todos.”

A comédia de erros deste Palimpsesto soluciona-se quando as camadas narrativas de João, Lola, Lurien, Cuíca, o Arquiteto e da narradora — deliciada com o caótico caminhar dos fatos — se sobrepõem e se interpenetram, dando origem a surpreendentes ocorrências. Uma verdadeira suruba, de que o leitor participa como um animado voyeur? Não vou aqui estragar a experiência do leitor com o desfecho inquietante — um final que nem mesmo a narradora tem certeza se aconteceu de verdade. Uma vingança, uma derrota, uma amargura? O divertido romance de Elvira Vigna sublinha o que já desconfiávamos: nada é muito real no que acontece com um homem e uma mulher entre quatro paredes.

[originalmente publicado na revista Cult de outubro/2016]

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