Cruel

Jennifer Egan em 1977. O tempo não foi cruel com ela

Jovens, envelheçam!

No virtuosístico A Visita Cruel do Tempo, em que lança mão de múltiplos narradores, a norte-americana Jennifer Egan faz um deslumbrante caleidoscópio da cultura pop dos últimos 20 e dos próximos 20 anos. Comentário escrito para a revista Bravo! de fevereiro.

Cruel, torcida brasileira: Jennifer Egan é cruel. Escreve tão bem que chega a irritar; seu A Visita Cruel do Tempo dá vontade de esfregar nas fuças da crítica que, vez em quando, decreta preguiçosamente o “fim do romance”. Miss Egan, 49 anos, jornalista especializada em música, colaboradora de The New York Times Magazine e New Yorker, prova ser possível reinventar o gênero, oxigenando-o com temas novos (os personagens secundários da música pop) e adicionando altas octanagens de ironia e melancolia – ao mesmo tempo em que mostra um tarantinesco senso de construção de cena, personagem e diálogo. Para aspirar à condição de clássico contemporâneo, o livro remete à tradição. Afinal, relê muito peculiarmente Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, e seu tópico principal é mais velho do que a literatura: a passagem do tempo.

“Jovens, envelheçam” – eis um possível mote rodrigueano para o livro, que levou o Pulitzer de 2011, entre outros prêmios. Egan constrói a narrativa entre a São Francisco de 1970 e a Nova York dos anos 2010 e 2020, ao redor da ascensão e queda da fictícia banda punk The Conduits. Sempre de uma perspectiva lateral, de olho nos personagens menores e suas aventuras e desventuras à medida em que trocam sonhos, loucuras, cabelos longos e guitarras por rugas, carecas, panças, desastres e leitos de hospital. The Conduits teriam feito sucesso há uns 20 anos; hoje seus integrantes são decadentes ou morreram.

O virtuosismo de Egan vai e volta no tempo mudando a cada um dos 13 capítulos o foco sobre dado personagem (a própria autora já chamou o romance de “ciclo de contos”, no que lembra a construção de obras polifônicas como Três Tristes Tigres, de Cabrera Infante, ou Os Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño). Narra na primeira pessoa, na terceira, na dificílima segunda (!), quase sempre lançando mão do flaubertiano estilo transitivo indireto livre (em que o narrador observa as ações da personagem “por cima do ombro”, sem no entanto se confundir com ele). Egan chega a usar um divertido esquema de PowerPoint para devassar a mente de uma menina de 12 anos. Porém, ao contrário do que pode parecer, essa verdadeira máquina de pinball narrativa nunca cansa o leitor – por conta do amor com que Egan magnetiza suas tragicômicas personagens.

O painel é formado por Sasha, a cleptomaníaca assessora de Bennie, um inseguro superprodutor de música pop, responsável por descobrir os Conduits; a turma de Bennie, Scotty, Alice, Jocelyn e Rhea, músicos e fãs de música que orbitam Lou, um figurão da indústria pop dos anos 70, pai de seis filhos, sempre às voltas com namoradas pós-adolescentes; os filhos e namoradas de Lou, seduzidos/massacrados por seu lifestyle hollywoodiano; o jornalista Jules, cunhado de Bennie, responsável por um dos momentos mais engraçados do livro (vai entrevistar a starlet Kitty Jackson e tenta estuprá-la no Central Park; a narração emula um perfil de revista de celebridade); Dolly, a assessora de imprensa de Kitty e de um general genocida; Lulu, sua esquisita filha, que num futuro próximo seduzirá Alex, um ex-caso de Sasha…

Enfim: fama e obscuridade, efemeridade e permanência, princípios motores da cultura pop, são as forças que agitam esse caleidoscópio dos anos 1970-2020. Ao fim da leitura, como todo clássico pop, A Visita Cruel do Tempo tem o misterioso condão que nos faz pedir e pedir: de novo.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

5 thoughts

  1. Não me arrependi, Ronaldo. Fiquei um pouco confusa com a montanha de personagens no livro. E me confesso preguiçosa para voltar as páginas para procurá-los e situá-los. Valeu a leitura e a indicação, embora não considere o livro assim tão maravilhoso a ponto de receber um Pullitzer. Enfim, sou uma simples e ávida leitora.

    Até qualquer dia!

    P.S.: Fiquei encantada com a forma de se comunicar da filha da Sasha e só o filho ser considerado autista.

  2. Oi Ronaldo, acabei de ler o livro e, embora concorde com muito do que vc diz, achei que, no último capítulo, a autora perdeu a força. Não gostei do tom futurista, das invenções, da história do show e dos “papagaios”. Meio bobo. Imagino que deva ser mesmo muito difícil terminar uma narrativa tão multifacetada mas… não sei… não gostei do desfecho. Abs

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