Pequeno grande homem


Perfilzinho do protagonista do recém-oscarizado Man on Wire, para a Vida Simples

Há 35 anos um francês de estatura mediana cometeu o maior crime artístico do século 20: atravessou o espaço entre as torres do World Trade Center caminhando sobre um cabo de aço, sem proteção e sem autorização. O documentário Man on wire, que estréia no Brasil este semestre, relembra o feito de Philippe Petit

Passo 1: o crime
“Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”, cantava Chico Science. Uns vinte passos e Philippe Petit mudou não só o seu lugar na história, como também realizou um ato que mudou a história de lugar. Às sete da manhã de 7 de agosto de 1974, aos 24 anos, o funâmbulo francês atravessou as torres do World Trade Center. Fez isso sem rede de proteção nem autorização, pegando todo mundo de surpresa – seu ato é considerado o maior “crime artístico” do século 20. Pelo fato de ter realizado a performance somente uma vez, e principalmente pelo fato de o lugar em que a perpretou ter desaparecido 27 anos depois, por obra de um criminoso metido a artista – Osama Bin Laden – , Petit criou uma peça de arte imaterial que desafia qualquer explicação teórica.

Uma criação cuja poesia e força existe por si mesma, resistindo ao tempo: vá até o Ground Zero, espaço vazio onde as torres desapareceram, e eleve seu olhar 440 metros… com um pouco de imaginação, você poderá ver, entre nuvens, a suprema audácia do equilíbrio humano, o fabuloso deboche em relação ao abismo, à rotina e à autoridade. Quando naquela manhã a cidade de Nova York foi pega de surpresa pelos passos no ar de uma figurinha vestida de preto, cada um de seus habitantes certamente se imaginou em seu lugar, como quem dissesse, à Obama: “Sim, nós podemos”. A história desse crime artístico ganhou a película no docudrama Man on wire, do inglês James Marsh, que venceu os principais prêmios no Festival de Sundance em 2008 e está prometido para chegar às telas brasileiras no primeiro semestre de 2009, depois de ter feito sucesso no É Tudo Verdade ano passado e levado o Oscar no começo do ano.

Passo 2: o WTC
Até o passeio de Petit, o WTC era malvisto pelos novaiorquinos. Desenhado por Minoru Yamasaki, foi inaugurado em 1973, desbancando o querido e bem mais elegante Empire State Building. Era tido como feio, monstruoso, fora de escala; por outro lado, muitos críticos elogiavam a sua frieza gótico-minimalista – além de ser uma rima arquitetônica perfeita. Oito anos antes de sua finalização, ao ver o sketch numa revista, Petit, então um artista de rua em Paris, distraído, riscou uma linha de uma torre à outra.
Na primeira vez que conseguiu subir ao último andar, rabiscou na porta de incêndio a Notre Dame de Paris, cujas torres ele também havia atravessado pela corda bamba, e a Ponte de Sidney. Embaixo, desenhou as torres gêmeas e assinou Philippe Petit. Seus traços singelos foram algumas das muitas obras de arte que desapareceram na manhã de 11 de setembro de 2001.

Em Man on wire não há uma única citação ao ataque terrorista: “É óbvio: isso não é o mais importante. Minha história tem a ver com a vida das torres. A morte dessas gloriosas torres não tem um lugar na minha história, não seria certo tocar nesse assunto”, explica Petit.

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Passo 3: funambular
É uma brincadeira antiga – se você foi criança e se equilibrou em um meio-fio, imagine como seria historiar o ato de andar sobre uma corda bamba… É arte milenar consagrada em circos, da Europa Oriental ao Japão. Um de seus grandes mestres é Antoine Rigot, que, mesmo após grave acidente que o fez perder boa parte da mobilidade, criou o espetáculo Vide, em que equilibristas encenam sua tragédia com humor e graça. Em julho de 1962, Rudy Omankowsky, o mestre de Philippe Petit, atravessou o lago de Gérardmer, em Vosges, sobre um cabo de 1250 metros, a 200 metros de altura. Porém, quando soube que Petit iria realizar sua travessia sobre o WTC sem uma corda atada à cintura e ao cabo, silenciou. Em seguida, disse: “Entendi. Você quer fazer algo… realmente bonito”.

O psicanalista e ensaísta argentino Arnaldo Rascovsky, que estabeleceu relações entre Freud e o circo, sugere que o equilibrista tende a demonstrar que a gravidade deixa de reger ou que pode vencer a oposição gravitacional, para retornar assim às condições vigentes na vida intrauterina com todo significado implícito nas piruetas. A corda bamba, para Rascovsky, é “o apoio do equilibrista, e suas evoluções e saltos ao redor da corda, como em sua vida intrauterina também há uma corda arcaica, o cordão umbilical, de que depende para viver. Sobre o feto, pairam duas ameaças: a de que a corda se parta, como a realidade o demonstra, e o abismo que existe fora da confortável caverna materna”.

O que Petit sentiu quando fez isso? “Muitas coisas. Uma profunda alegria de estar finalmente ali, sustentando minha vida através da corda. Na primeira travessia foi difícil porque não tínhamos checado o ponto de ancoragem – não pude estar em ambas as torres. Eu estava tremendo, mas depois do terceiro passo me senti tão bem que você pode me ver sorrindo em todas as fotos. Mas é algo que pede total concentração e foco. Preciso ficar atento a diversas coisas. Há perigos, há o vento, a umidade no ar. Não posso receber essas coisas como surpresas: tenho de senti-las chegando e agir de acordo. Minha concentração é tão imensa e ao mesmo tempo tenho total consciência do mundo – e não do mundo lá embaixo. Quando os policiais gritavam comigo, eu nem ouvia. Tenho um jeito de fazer repelir certos fatos e ações, ou mesmo pensamentos. Não deixo que coisas negativas me atinjam, pode ser muito perigoso.”

Passo 4: os amigos
Nada pode parecer mais solitário do que caminhar numa corda bamba – talvez nem mesmo a mais solitária das artes, a literatura. A concentração de Petit é tamanha que é possível notar seus músculos retesados – ele somente sorri abertamente depois do terceiro passo. Mas como chegou lá? No documentário, são convocados seus amigos à época, que nos oferecem diferentes versões às evidentemente ególatras declarações de Petit. Se a obsessão e o gesto foi obra de um só homem, a equipe de apoio não foi menos importante para seu sucesso. Um amigo desvendou como mandar o cabo de uma torre à outra: amarrando-o em uma corda mais leve, e atando esta a uma flecha – que, segundo Petit, caiu a 1 milímetro da beirada.

Levar os mais de 200 quilos de aço e demais equipamentos, contornar os guardas, criar crachás falsos para poder vasculhar o WTC e documentá-lo, abrigar Petit durante os 10 meses de preparação, além, claro, de fornecer apoio psicológico e o necessário contrapeso de lucidez e bom senso à tenacidade suicida do artista – sem o trio de franceses, um australiano e dois americanos que lhe deram apoio, nada seria possível. Fatalmente, a singular proeza, se não lhe trouxe fortuna (Petit jamais aceitou participar de publicidade ou cinema, nem receber qualquer proposta financeira ligada ao WTC), deu-lhe enorme fama, que acabou por afastá-lo dos amigos. Conforme conta sua ex-namorada: “Depois que passamos nossa primeira noite depois da travessia, vi em seus olhos que ele já não era o mesmo, já não estava mais entre nós – vivia em um outro patamar”.

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Passo 5: arte = vida = crime
Quando o prendeu, um policial lhe perguntou por que diabos tinha feito aquilo. “Faço algo magnífico e misterioso e tudo o que consigo é um prático ‘por quê?’ O belo é que não há porquê!”, exclamava Petit. “Se vejo três laranjas, vejo um malabarismo; se vejo duas torres, vejo uma corda bamba”, resumiu. Petit é um radical defensor da inutilidade da arte. Até a travessia, ganhava a vida como mágico de rua, monociclista e clown. Sua idéia é que arte e vida sejam a mesma e simultânea coisa.

Perguntado sobre o que faz para relaxar, manda: “Detesto relaxar. Nunca saio de férias. Viajo pela vida, com desejo de viver. Não tiro fotos da vida, como a maioria das pessoas: prefiro desenhar. Tenho um livro de rascunhos, estou terminando meu sétimo livro, faço palestras sobre criatividade pelo mundo. Construí meu próprio celeiro, e lá dentro fiz o menor teatro do mundo. E continuo fazendo malabarismo na rua. Semanas atrás eu estava passando meu chapéu nas ruas de Nova York, fazendo uma fortuna. Não gosto de não fazer nada. Quando vou para uma praia, detesto ficar tomando sol… meu negócio é aproveitar a vida”, ensina.

Dançar a noite inteira nos caixas eletrônicos dos bancos. Arrombar apartamentos, mas, em vez de roubar, deixar objetos Poético-Terroristas. Escolher alguém ao acaso & o convencer de que é herdeiro de uma enorme, inútil & impressionante fortuna. Mais tarde, esta pessoa perceberá que por alguns momentos acreditou em algo extraordinário & talvez se sinta motivada a procurar um modo mais interessante de viver. Ficar nu para simbolizar algo. Organizar uma greve em protesto por não satisfazerem sua necessidade de indolência & beleza espiritual. […]”

“Para que funcione, o Terrorismo Poético deve afastar-se de forma categórica de todas as estruturas tradicionais para o consumo de arte (galerias, publicações, mídia). Autores de um ato consciente de uma vida deliberadamente bela, os Terroristas-Poéticos comportam-se como trapaceiros totalmente confiantes, cujo objetivo não é o dinheiro, mas TRANSFORMAÇÃO”, escreve Hakim Bey em Caos (Conrad), clássico sobre o terrorismo poético – gênero sob o qual, com sua arte desautorizada, tanto grafiteiros britânicos como Banksy quanto funâmbulos como Petit se filiam.

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Passo 7: o passeio
Não era um pássaro, não era o Homem-Aranha, nem o Batman ou o Superman. Era um maluco andando sobre um fio, da Torre Sul à Torre Norte do World Trade Center, em Nova York. Um cara flutuando a 440 metros de altura; nem mesmo uma corda o amarrava ao cabo. Ele foi e voltou de uma torre à outra oito vezes, 43 metros. Deu dois passos, certificou-se que não era sonho, abriu um sorriso, caminhou até a outra borda, voltou, depois correu, aí dançou, e então, por longos segundos, descansou a vara de contrapeso sobre o peito e se deitou na corda bamba. No térreo, a multidão que acompanhava sua proeza ria, chorava, se abraçava. “Andar na corda bamba não é uma arte da morte, mas uma arte da vida – e a vida levada ao seu extremo”, anotou Paul Auster no perfil de Petit no livro A Arte da fome [José Olympio, esgotado]. Graças a Auster, o francês conseguiu, após 35 negativas, finalmente publicar sua versão dos fatos, To reach the clouds (Faber & Faber).

Deitar-se era muito doloroso”, diz Petit no filme. “Seu corpo inteiro está pressionando um pequeno espaço… todo seu balanço fica invertido. Mas eu pratiquei isso intensamente por semanas, e tinha feito o mesmo em Notre Dame e na Ponte Harbor. Desde o WTC, é algo que sempre faço: minha assinatura. Gosto da figura, porque isso inspira as pessoas… é como se você estivesse caindo no sono no céu. E também é encarar o céu e convidar a um diálogo com os pássaros e se maravilhar com as nuvens.”

Quando completaria 45 minutos de traquinagens no céu – pense em todo um tempo de jogo de futebol –, ouviu gritos de policiais ameaçando puxar o cabo de ferro. Então, como um camponês voltando para casa depois de um dia de trabalho que joga a trouxa nas costas, equilibrou o a vara sobre um dos ombros, deu mais alguns passos – e pousou do outro lado, aplaudido por 100 mil pessoas. Foi no ato rendido por seguranças, que prontamente o algemaram. Na delegacia, enquanto os policiais discutiam o que fazer com ele, Petit espertamente retirou as próprias algemas e passou a equilibrar um quepe da NYPD no nariz. Foi solto dias depois, se tornando um herói da cidade.

“Hoje estou dez vezes melhor do que há 35 anos”, diz Petit. “Adquiri sabedoria e conhecimento em conhecer a mim mesmo, em conhecer a corda, e em saber manter-se sobre a corda. E me tornei um engenheiro de meus projetos. Talento que não tinha quando era um tolo de 18 anos. Continuo arrogante, mas não sou mais tão tolo [risos]. Mas jamais faria aquilo de novo. Todas as minhas performances são únicas. Pessoalmente, não vejo aquilo como algo miraculoso. Mas se for, você precisa saber que um milagre não acontece duas vezes na sua vida.”

Passo 7: próximos passos
“Tenho alguns sonhos. Penso em fazer uma travessia entre as Pirâmides… e também tenho um projeto para a Ilha de Páscoa. Penso em ir andando de um moai até o topo de um vulcão. Acho que poderia ser uma caminhada misteriosa para compartilhar com o mundo”, sugere o artista.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

2 thoughts

  1. Para mim, Philippe Petit é o “retrato” do que chamo foco, objetivo e esforço pessoal. Busca superação é
    talvez um estrelato merecido. Admiro-o imensamente e aplaudo de pé!

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