Uma das manifestações de rua mais legais que já rolaram em SP aconteceu neste sábado. Estávamos eu e Lorenzo no calorento Trovão Verde indo pra Paulista, em busca de um cinema, quando surgiu isto na nossa frente

Fomos ver qual era. Descobrimos a tal Pedalada Pelada: 800 bikers querendo chamar atenção pro eterno problema da voracidade automobilística sobre as pobres magrelas – que há poucos meses matou a biker Marcia Regina de Andrade Prado na mesma Paulista

Fastflashback: quando cheguei em Bogotá, 5-2, estava rolando o décimo Día Sin Carros. Era uma quinta-feira – há 10 anos o governo PROÍBE os cerca de 1,4 milhão de automóveis transitarem pela cidade de 7 milhões de habitantes [em SP a proporção é 6 para 12]. Só rolava buseta, buso e o famoso Transmilenio, o ônibus articulado de dois vagões que é orgulho local e transita em um corredor de 4 vias [aqui em SP, articulados de três vagões zanzam por ruelas]. Lá o rodízio funciona em dois dias da semana e quem o fura toma uma multa de US$ 110. E sabem quantas bicis rodaram neste dia nos belos 347 quilômetros de ciclovias bogotanas? CEM MIL. Pois é. Depois dizem que a Colômbia é atrasada

Acompanhamos os bikers da Paulista ao Ibira e de volta à Paulista por 2 horas. Pelo menos 40 motoqueiros da nossa gloriosa Polícia Militar – que não tinha nada melhor pra fazer naquele sábado quente – foram escalados para a Paulista; um truculento PM ameaçou multar o Trovão Verde porque teimávamos em escoltar a cicleata. Os bikers interrompiam o tráfego, abaixavam a cueca, gritavam palavras de ordem e zuavam dos motoristas, que, sem humor, os fechavam na maior, como este busão

O pacífico e galhofeiro movimento deu a à fragmentada São Paulo ares de uma cidade de verdade, em que o povo politizado inventa uma moda e a põe em prática sem precisar que algum ‘líder’ o convoque. O mix de carnaval e política – algo como uma anarquia organizada, se isso é possível – fez lembrar a velha tese do Hermano Vianna; os brasileiros são os maiores especialistas em festa no planeta. Quando essa especialização se politizar, ninguém nos segura. E teremos algo parecido com isto

, isso

ou aquilo

Infelizmente, a alegre cicleata pecou por excesso de bundalelês peludos – “Mas não tem mulher pelada, pai?”, estupefazia-se Lorenzo. Pois é – quem sabe na próxima surjam mais Bikers Godivas

Anyway, foi tão divertido quanto emocionante acompanhar nossa versão da World Naked Bike Ride [aqui tem um ótimo relato sobre sábado]. Sensacional ver a alegre cara de espanto infantil nos passantes, motoristas, passageiros ou pedestres, ao assistirem cidadãos tomando sua cidade de volta, despidos de senso de ridículo e sem vergonha de expor seu senso cívico

Se esse tipo de manifestação vai dar certo, abrir o olho de nossos legisladores e governantes para deter o imbecil progresso dos carros sobre as calçadas e ciclovias, duvido muito. Mas só pelo belo sábado de caos promovido pelos bikers, a Pedalada já valeu. À saída do filme [Coraline em 3D; lindo, mas água-com-açúcar e meio chato], Lorenzo pedia: “Vamos voltar pra Pedalada”?

Se a preguiça deixar, quem sabe ano que vem o Trovão fica na garagem…
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