Esconde-esconde

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Acho espantoso que um ator inteligente como o Pedro Cardoso solte um manifesto tão ingênuo contra o que chama de pornografia – pelo seu texto, muito bem escrito aliás, a definição é bastante confusa; lendo sua tese, me pareceu que até a moça acima mereça ser incluída na putaria generalizada enxergada pelo ator no cinema, nas artes, na imprensa e, se pá, na vida ao vivo.

Bom, todo mundo tem direito à inocência, até mesmo os bebês. Isso fica evidente em parágrafos como:

“[No filme Todo mundo tem problemas sexuais, de Domingos de Oliveira, protagonizado por Pedro] não há intenção de provocar excitação sexual, como há na pornografia. Acredito que a dramaturgia, que é arte de contar histórias, busca oferecer ao público um pensamento, e não uma sensação. Esta pertence à vida. É na vida que sentimos frio e fome; na arte, falamos do frio e da fome, se possível com alguma inspiração

De qualquer modo, ainda que aplicando um reducionismo infeliz para falar de arte – quantas vezes não choramos, rimos, ficamos aterrorizados, com fome ou com tesão lendo, vendo, assistindo a alguma obra… -, ao expôr sua indignação com o que chama de aviltamento da profissão de ator por conta de diretores e produtores de cinema safados, maquiavélicos e cafajestes, o Bilu de Vamos gozar outra vez [Ivan Cardoso, 1985] escancarou uma excelente discussão.

Curioso que, convidado a ser entrevistado pela Playboy para expôr sua tese, ele tenha declinado – mesmo após propor o criativo artifício de entrevistar a repórter e o editor como garantia de publicação de sua entrevista -, o que não deixaria de ser interessante: teria a chance de dispor, dentro da própria Playboy , de um espaço para acusá-la de pornógrafa [isso se hipoteticamente a revista tivesse a coragem de publicar a tese]. Ele mesmo conta essa história em seu blog – que, embora escrita por um brilhante comediante, me pareceu um primor do humor involuntário.

Descendo a pentelhésimos detalhes, Pedro publica o manifesto, o pedido de entrevista da revista, a entrevista feita com a repórter e com o editor [aliás cheia de verve], e, ao emputecer-se com o suposto [só suponho, porque o ator jamais diz o nome das pessoas] e bem-humorado convite do editor para que sua namorada saísse nua na revista, descreve minuciosamente o palavrório dirigido ao jornalista, coisas como ‘passei a dizer que eu não o havia autorizado a falar de terceiros na nossa conversa, que eu não sou pessoa a quem se diga gracinhas, que eu não trabalhei seriamente 30 anos para ouvir gracinhas de um proxeneta, e disse que ele era um idiota’.

Poxa – não quero corporativamente defender o jornalista, nem sei quem é; mas se a gente não pode dizer gracinhas pra um comediante, vai falar pra quem? Pro Dado Dolabella? Na boa, esse texto soou tipo um ‘sabe com quem está falando?’.

Como todo mundo já sabe, Pedro enciumou-se ao ver a namorada Graziella Moretto ao natural em Feliz Natal, primeiro filme dirigido pelo ator Selton Mello. O manifesto não o nomeia explicitamente, e Selton, em sua réplica, não passou recibo. Ou seja, tudo tem sido tratado na entrelinha; assunto de cavalheiros: os tais produtores e diretores canalhas morrem no genérico. E a suposta vítima, a atriz Graziella – que, creio, não deve ter atuado com um revólver na cabeça -, sempre deu respostas evasivas sobre a tal polêmica.

[Só espero que tudo isso não seja um viral pra divulgar ambos os filmes… jornalistas vivem caindo nessa…]

Esconde-esconde
Logo após o contramanifesto, chamado a escrever um perfil de Selton em certa revista mensal, sugeri que a editora o convidasse a posar nu. Não era pra ser um “ensaio sensual” à G Magazine; poderia ser uma coisa engraçada, provocadora: uma chance de discutir o assunto. Selton não topou – direito seu -, e, lotado de compromissos, acabou nem tendo tempo para a entrevista. Acontece.

Claro que esse jogo de esconde-esconde, tão velho quanto a folha de parreira de Eva, demonstra um jogo de poder. Entrevistei trocentos atores e atrizes, alguns magistrais, outros pseudos [minha primeira entrevista, há uns 20 anos, foi justamente com Paulo Autran]. Faz parte do meu trampo como jornalista – e também do de escritor. Desde que li uma frase de Paul Auster em que ele sugeria-se mais um ator criado por si mesmo, atuando sob uma história que ele mesmo inventava, do que propriamente um escritor – ou seja, assumindo a primeira pessoa oculta sob a carapuça da terceira -, passei a olhar de outro modo esses espécimes que vivem de dar a cara a tapa [quando não a bunda. Opa! É só uma piada, amigo, amigo…].

[Ao caçar agora a citação exata do Auster, encontrei outra, fodaça, do Rod Sterling, roteirista de Além de imaginação: “Todo escritor é um ator frustrado que recita suas linhas para um auditório escondido em sua caveira“.]

Invertendo essa equação austeriana, e baseando-me nas últimas entrevistas que tenho feito, percebo que os atores vêm cada vez mais freaking out por conta da crescente perda do domínio de sua imagem. Na era das hipercelebridades, deixaram de ser narradores de sua carreira – até mesmo de sua história pessoal. É evidente que Pedro deve ter se aperreado quando viu, na web, algo tipo “Grazielle pelada no filme do Selton clicaki”. Dá pra entender – uma coisa é ver sua gata no filme, comportada dentro de uma fruição estética; outra é vê-la picotada para uso, hum, extático [calma, Pedro…], num laptop no escurinho de um quarto adolescente. Você se sente usado, editado; tem assaltado o comando da própria edição.

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Lady Godiva is not dead
Há pouco tempo, entrevistei a Claudia Abreu para a Tpm. Achei-a encantadora e perspicaz – impressão que murchou durante o processo da edição. Inúmeras vezes a assessora da atriz pediu à editora da revista que o perfil fosse lido antes de ser publicado, algo impensável dentro do jornalismo minimamente profissional. Estava preocupada com a menção à nudez total de Claudia no filme Desafinados, de Walter Lima Jr.; não gostaria que o assunto fosse ressaltado na matéria. Sutilmente, era sugerido que a atriz deveria dirigir o tom do perfil. Claro que a revista não lhe enviou o texto, publicado exatamente como escrevi.

Revista na banca, parece que a atriz ficou insatisfeita com a matéria, pelo fato de eu dar espaço demasiado ao nu total. Uma pena, porque no filme está linda e a cena guarda impacto dramático; a única realmente memorável num longa – para ser gentil – apenas mediano. Durante a conversa, falamos longamente sobre o assédio que os pobres globais sofrem dos paparazzi – fenômeno que tangencia as fronteiras do bizarro, como se pode ler na ótima reportagem da Cristina Tardáguila na Piauí.

Não só os paparazzi: com a infestação de câmeras celulares, todos parecem ter se convertido em paparazzi. Uma visão imprevista de um ator famoso pode virar um troco para o mané que flagrá-lo. As revistas de celebridades pagam qualquer coisa pra publicar uma imagem “exclusiva“. Quanto mais íntimo, mais exclusivo – e, por suposto, mais público. “Some of them want to use you/ some of them want to get used by you”…

Às vezes penso que esse incômodo é simplesmente uma questão de não poder mais escolher onde e quando aparecer – porque, invertendo o dito do Zé do Caixão, quem desaparece está sempre morto [e isso ator nenhum quer]. Andréia Horta, a pequena notável da minissérie Alice, me ponderou [na próxima Tpm] que jamais faria um ensaio na Playboy. “Já estou tão exposta na TV, apareço pelada, trepando… pra quê?”. Debora Bloch, nesta que está nas bancas, me disse algo parecido – mas em relação a ser perseguida pelas revistas de celebridades: “Se eu não resguardar nenhum mistério do público, o que vai sobrar pra mim?”.

Os atores moram justamente nessa terra de ninguém entre arte e comércio. Eletronicamente multiplicados milhões de vezes, expostos às vísceras, perdem cada vez mais o direito ao próprio corpo. Estão cegos na linha de tiro da dissolução entre público e privado. Tendo esse ambiente como cenário para a discussão aberta por Pedro, compreende-se o mal-estar dos artistas destituídos do direito de gerir a própria imagem – como se o jogo de sedução praticado pelo ator tivesse perdido sua razão de ser e caído na gratuidade, se banalizado a ponto de ser obrigatório que uma atriz se dispa em cena, por razões comerciais ou para ocultar um roteiro fraco; ou que, pelo mesmo motivo, esteja sempre acessível ao público, a qualquer hora, em qualquer lugar.

Daí confundirem noções de erotismo X pornografia, público X privado, arte X mercado, palco X imprensa. As fronteiras entre esses conceitos estão cada vez mais dissolvidas [quase escrevi dissolutas]. Contudo, não creio que seja com manifestos carolas que se possa trazer profundidade e novidade a tais paradoxos. Uma, porque quem está na chuva é pra se queimar. Outra, porque sempre se pode usar um guarda-chuva – pra furar o olho de algum xereta. Ou até pra se proteger, como sugeriu há pouco tempo o João Moreira na Salles na Bravo!:

“Acho filmes como Tropa de Elite importantes. Minha questão é que o cinema brasileiro não pode ser feito apenas de filmes sobre violência. De modo geral, o cinema brasileiro é barulhento, enquanto o cinema argentino fala aos sussurros. Gostaria que o cinema brasileiro sussurrasse um pouco mais”

Se não agüenta, pra que veio? O jogo é jogado, e essas são as regras em 2008. Não quer ouvir buzina, usa um fone de ouvido. Não gosta da nudez, procura a penumbra. Só existe “ditadura da pornografia” pra quem abaixa a cabeça. Contra a canelada, não adianta reclamar com o juiz – é mais esperto driblar o zagueiro e partir pro gol. Silenciosamente.

E tudo isso já tinha sido demonstrado pelo Fellini no fim de La dolce vita, quando um Mastroianni fascinado pelos olhões da arraia morta na praia manda: “E ainda assim, não pára de olhar”. É o nosso destino de bichos visuais, Pedro. Uma alternativa talvez seja usar burcas. Mas isso também não tem mais graça nenhuma.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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