Fury tale

Nós tínhamos inventado uma coisa ao lado da qual a guerra vinha a ser limpa e pura, alguma coisa a que muitos já buscavam escapar refugiando-se nas certezas elementares da guerra e do front. Até mesmo as carnificinas dementes da Grande Guerra, vividas pelos nossos pais ou alguns dos nossos oficiais mais velhos, pareciam quase limpas e justas ao lado do que havíamos trazido ao mundo. Eu achava isso extraordinário. Pressentia algo de crucial que, se eu conseguisse compreender, então compreenderia tudo e poderia finalmente descansar. Mas eu não conseguia pensar, meus pensamentos chocavam-se, reverberavam-se na minha cabeça como o estrondo dos vagões de metrô passando nas estações um depois do outro, em todas as direções e em todos os níveis. Em todo caso, ninguém suspeitava dos meus pensamentos. Nosso sistema, nosso Estado, zombava profundamente dos pensamentos dos seus servidores. Era-lhe indiferente que matássemos os judeus porque os odiávamos ou porque queríamos ser promovidos ou mesmo, em certa escala, porque tínhamos prazer naquilo. Assimo como lhe era indiferente que odiássemos os judeus, os ciganos e os russos que matávamos e que ninguém sentisse prazer em matá-los, absolutamente nenhum prazer. Era-lhes inclusive indiferente, no fundo, que nos recusássemos a matá-los, nenhuma punição seria decretada, pois ele sabia muito bem que o manancial de matadores disponíveis era inesgotável, que ele podia pescar homens à vontade, e que poderíamos ser igualmente destinados a outras tarefas, mais coadunadas com nossos talentos. Schulz, por exemplo, o Kommander do Ek 5 que pedira para ser substituído após ter recebido o Führerbefehl, fora finalmente exonerado e diziam que conseguira um bom posto em Berlim, na Staatspolizei. Eu também poderia ter pedido para ir embora, inclusive teria certamente recebido uma recomendação positiva de Blobel ou do Dr. Rasch. Ora, por que eu não fazia isso? Provavelmente ainda não tinha compreendido o que queria compreender. Compreenderia algum dia? Nada era menos certo. Uma frase de Chesterton galopava na minha cabeça: Eu nunca disse que era errado entrar no reino das fadas. Disse apenas que era perigoso. Então era isso a guerra, um reino das fadas pervertido, quintal para as brincadeiras de uma criança demente que quebra seus brinquedos às gargalhadas, que atira inconseqüentemente a louça pela janela?

Jonathan Littell, As benevolentes

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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