I believe in iGod

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MC Escher, Circle Limit IV

Na Sexta-feira Santa, ele liga o carro e o iPod, sempre no shuffle. Vila Madalena, “Sympathy for the Devil”, Stones. 6’27” depois, está na porta do Inferno, Augusta. Os Stones silenciam. Daqui a pouco começa o show da Vanguart.
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“O bom senso diz que computadores devem ser usados para gerar números aleatórios. São capazes de produzir enorme quantidade de números em meras frações de segundo. Contudo, há um empecilho. Uma das grandes vantagens de computadores eletrônicos – a habilidade de, sem esforço, executar instruções predeterminadas repetidas vezes – se revela uma devastadora desvantagem quando se trata da geração de seqüência de números aleatórios. Começando com um número qualquer, computadores sempre calcularão o próximo número com base no valor antecedente. Isso significa que, em uma seqüência de números aleatórios gerados por computador, surgem padrões e cada número pode, em princípio, ser previsto. A fórmula usada para gerar números “aleatórios” pode ser complexa e o padrão pode ser complexo, mas, apesar de tudo, sempre existe um padrão. Com razão, números aleatórios gerados por computador são chamados de números pseudo-aleatórios ou pseudo-randômicos. Mesmo que passem por testes de aleatoriedade, não são verdadeiramente aleatórios.”

George G. Szpiro, no excelente A vida secreta dos números [Difel, 2008].
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Fim do show. Outra vez, perfeito. Ele liga o carro e o iPod, sempre no shuffle.
“Hoje é terça-feira…”
– Haha, não acredito – sorri a moça elegante. – Mas já ouvimos isso demais, né? Posso mudar?
– Claro… – e ela gira a roleta-russa do monolito negro.
Nas lentes de seus óculos, o logo em neon da Inferno tremula, duplo. Seu vestido reproduz padrões infinitos de Escher. A visão dele se turva.
“Please allow me to introduce myself…”
– Haha, não acredito – ele ri.
– O quê?
– Nada… é que…
“Please to meet you/ Hope you guess my name/ But what’s puzzling you is the/ Nature of my game.”
– Posso te pedir uma coisa?
– Sim?
– Me deixa em casa?
– Claro… – e ele gira o volante para a esquerda.
6’27”, a canção termina, eles estão na porta da casa da moça.
– Você vai ficar chateado se não subir? É que… minha irmã está em casa…
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“O padrão pode ser complexo, mas, apesar de tudo, sempre existe um padrão.”
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Felizmente, o acaso tem uma memória: “Hoje é terça-feira/…/E o céu se põe debaixo do tapete/ Um tesouro/ Eu não acredito…/ Só acredito no semáforo/ só acredito no avião/ Eu acredito no relógio”.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

2 pensamentos

  1. Cito, de novo, meu filósofo holandês favorito, o Johan Cruijff: “o acaso é lógico” (“Toeval is logisch”)… o cara sabia das coisas.

    E fica a velha questão: será a vida um ipod shuffle com a bateria fraca, ou uma vitrola com a correia frouxa e a agulha meio zoada?

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