Caos

Vida longa, Cucurto

Não vou mentir, não vou pronunciar a palavra amor porque seria pouco. Ela emparedou meu coração, como as tábuas entulhadas de um barraco.

Meu coração parecia um ninho de corujas cheio de bolas de golfe; deixei sua saliva salvadora penetrar na minha corrente sangüínea, para sempre entre os meus dentes, nas cáries – santo remédio que alivia!

Tenha paciência se me confundo um pouco, sabe como é a linguagem é um contra-senso; lingüística – é o nome que dão agora às palavras. E eu não passo de um negro que adora a cumbia e gosta de tirar as minas pra dançar. Este é o horizonte da minha vida.

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Apalpei-lhe a bunda, e ela apalpou a minha por baixo do pano da calça. Usou os dedos, penetrantes. Apertei suas duas nádegas, duras como melancias, tentando abarcar o mais possível; mas nem se eu tivesse quatro mãos. Era muita areia pra mim. Um exagero. O amor é isso: exagero total. Velocidade pura, um automóvel à toda sem nenhum obstáculo à frente, e a gente com tanto medo de se arrebentar que nem consegue dormir, merda de medo de se arrebentar, esse medo bruxo dizendo que a qualquer momento, quando menos se espera, um obstáculo vai sugir, e aí plaft!, lá vamos nós ao encontro de Gardel.

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Com uma super-Condorina estupidamente gelada eu viro Gardel, meu caro garçom. Quando ergo o copo e o levo à boca, o mundo pára. Com minha supercerva na mão, eu sou capaz de atravessar a Cordilheira.

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Trechos de Coisa de negros, sensacional romancito de Washington Cucurto, pseudônimo de Santiago Vega, um negão argentino de verdade [não, não mataram todos, sobraram alguns] que é o heróico fundador da Eloisa Cartonera, mãe das editoras Yiyi Jambo e Dulcinéia Catadora. A excelente tradução [André Pereira da Costa transpõe o ambiente ficcional da cumbia pro nosso bem conhecido universo do funk carioca] sugere um escritor dionisíaco como Arlt e Puig, avesso a literatices borgianas [nada contra o racista Borges, tudo contra os epígonos]. Cucurto vem ao Brasil 23 de abril, informa a Maria Alzira, para palestrar no Cervantes. Fique esperto.

Um pensamento sobre “Vida longa, Cucurto

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