El caó venció por KO

“Movimento literário” reúne autores que se inspiram na tradição oral dos habitantes da fronteira entre Brasil e Paraguai

“Portunhol selvagem” contrapõe-se ao “idioma” criado por turistas argentinos e brasileiros que tentam se virar ao viajar

SYLVIA COLOMBO [FOLHA DE S.PAULO]
DA REPORTAGEM LOCAL

Brasileiro chega a uma lanchonete de Buenos Aires e dispara: “Por fabor, me bê una Cueca-Cuela?”. Quando se fala no portunhol, é numa cena assim que todo mundo pensa.
Mas eis que agora surge um “movimento literário” que é contra essa versão “turística” da mescla entre o português e o espanhol -geralmente carregada de espírito de porco, preconceito e certa ignorância.
Trata-se de um grupo de escritores do Brasil, do Paraguai e da Argentina, que lançou uma espécie de manifesto em defesa do “portunhol salbaje”.
A idéia é promover experimentações literárias a partir da linguagem oral da fronteira entre o Brasil e o Paraguai e da mistura da linguagem urbana com a tradição nordestina, influenciada pelo romanceiro luso-espanhol da Idade Média.
Douglas Diegues, carioca criado em Ponta Porã (MS), agora radicado na capital do Paraguai; Joca Reiners Terrón, mato-grossense que vive em São Paulo; e Xico Sá, jornalista cearense também enraizado na capital paulista, são os principais nomes desse grupo.
Em setembro, eles apresentaram sua “proposta” na Festa Literária Internacional de Porto (Puerto?) de Galinhas (veja no YouTube em busca por “portuñol” e “fliporto”).
E, entre os dias 6 e 9/12, promoverão em Assunção o 1º Encontro Interfronteiras do Portunhol Selvagem, com a presença de Ronaldo Bressane, Aurora Bernardini, Bruno Torturra, Washington Cucurto, Santiago Llach e Fabián Casas.
Toda essa agitação vem marcada por muito bom humor. O que faz lembrar a trinca Los Tres Amigos, formada por Angeli, Laerte e Glauco -depois reforçada por Adão Iturrusgarai, autor da charge acima. Nos anos 80, o grupo reanimou o cartum brasileiro de humor, com piadas em portunhol.
Diegues explica o idioma que ajudou a criar: “U portunhol salbaje es la língua falada en la frontera du Brasil com u Paraguai por la gente simples. Es la lengua de las putas que de noite vendem seus sexos en la linha de la fronteira. Es una lengua bizarra, transfronteriza, rupestre, feia, bella, diferente”.
Depois do elogiado “Dá Gusto Andar Desnudo por Estas Selvas – Sonetos Salvajes” (Travessa dos Editores), lançado em 2003, Diegues se instalou no país vizinho para pesquisar a linguagem oral dos habitantes da fronteira e lançar seus livros caseiros, editados com capas de papelão. O escritor também traduz textos de prosa e poesia do português e de outras línguas para o portunhol.
Para Joca Reiners Terrón, o portunhol selvagem é interessante enquanto permanecer informal. “Acho absurdo querer fixar, pois não há padronização possível”, diz.
Diegues concorda. “La gramatificacione servirá para matar los deslimites de la liberdade di lenguaje. Lo mais importante es non fixar nim museificar, mas deixá-lo errante caubói rollingstones, epifania sem nome 3 kilômetros por segundo al rededor del sol entre Sampi y Paraguay y el resto de la Gluebolândia.”

Preconceito
Para além da literatura, Terrón acha que o portunhol selvagem pode ser um instrumento para que os brasileiros reflitam sobre como vêem os hermanos latino-americanos. “Aqui há preconceito com os hispano-hablantes. Relacionamos o seu sotaque, quando tentam falar português, a trambique. A Globo, por exemplo, quando coloca um personagem latino nas novelas, faz o cara enrouquecer a voz e parecer picareta.”
Inevitável lembrar aquele célebre comercial de televisores que reforçava esse estereótipo. Trazia um paraguaio, muito suspeito, afirmando: “La garantia soy yo”, para certificar um desconfiado cliente de que o aparelho que estava vendendo não era falso, por supuesto…

Portunhol questiona estereótipos

Para especialistas, invenção não tem fôlego para virar idioma, mas dá dinâmica ao português e reflete sobre tradições

Moacyr Scliar, membro da ABL, valoriza conotação emocional dessa variação, por tratar-se de uma aproximação entre povos

DA REPORTAGEM LOCAL

Ainda é muito cedo para considerar o portunhol uma língua à parte, um novo idioma ou sequer um dialeto. Essa é a avaliação de escritores e críticos literários ouvidos pela Folha.
A maioria concorda, porém, que a brincadeira é válida, pois mostra certo dinamismo da língua portuguesa e questiona alguns estereótipos.
Nas palavras de Cristóvão Tezza, trata-se de “um modismo inconsistente”. O escritor catarinense considera que o portunhol não vai se impor como idioma por razões políticas. “Imaginar que alguma região de fronteira do Brasil comece a defender de fato uma língua nova é algo delirante.”
Porém, Tezza considera a defesa dessa variedade uma novidade curiosa. “O Brasil não costuma ter movimentos de autonomia lingüística. Não há uma defesa do dialeto caipira ou do gauchês, ou a exigência de jornais e rádios nessas variedades, como acontece na Europa.”
O gaúcho Moacyr Scliar, colunista da Folha e membro da Academia Brasileira de Letras, acredita que ainda não dá para elevar o portunhol a língua ou dialeto. “Para isto seria preciso seu uso de forma consistente e continuada por um grupo humano durante um tempo razoavelmente longo”. Do modo como é hoje, diz, corresponde mais a uma necessidade prática de comunicação. “Mas isso não impede seu uso literário, uma vez que, sendo resultado da aproximação entre povos, tem uma conotação emocional e estética que não é pequena.”
Já o lingüista Carlos Alberto Faraco, da Universidade Federal do Paraná, acha que é preciso distinguir situações. Para ele, o portunhol do brasileiro que acha que fala espanhol só por mudar algumas palavras ou sua entonação não tem representação cultural significativa.
Faraco menciona um exemplo que considera mais relevante. No norte do Uruguai, numa região que era no passado parte do Brasil, fala-se algo que se chama de “interlíngua”.
“Lá o português era a língua original, e o espanhol veio depois. Hoje, está bem descrito e fixado gramaticalmente. É diferente dos contatos de fronteira, que se baseiam na experiência cotidiana”.
Mas Faraco acha interessante que o portunhol se preste a um exercício literário que mimetize a realidade. “Somos um país que não gosta de aceitar sua variedade lingüística, quando isso acontece, é por meio do estereótipo e, às vezes, do preconceito”, diz.
O lingüista acha que o portunhol pode questionar certa tradição de engessamento do nosso português. “Somos herdeiros de dois desejos. O primeiro vem do século 19 e expressa a vontade daquela sociedade de ser reconhecida como branca e européia. O outro vem do Estado Novo, que buscou homogeneizar diferenças. Os meios de comunicação, hoje, refletem as conseqüências desses desejos.”
A artista plástica argentina Ivana Villoro, que estuda o portunhol desde 2004 e finaliza o documentário “Portuñol/Portunhol”, diz que os argentinos não entendem quando os brasileiros tiram uma onda com o espanhol. “Não compreendemos por que vocês acham tão engraçado dizer palavras erradas com “ue”, como “pueco” ou “socuerro”, ou com “on”, como “bandidón” etc.”
Será que o portunhol selvagem ajuda a explicar?

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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