“Não vou dizer traficante, vou dizer comerciante. O cara é um comerciante como outro qualquer.
Os caras da Ambev, da 51, não vão pra cadeia. Toma 4 garrafas de cerveja pra você ver, cê vira o Superhomem na Marginal. Não vão pra cadeia porque não são pretos.
Hoje cê é jornalista, tá legal, amanhã cê num sabe. Pode estar no beco dos tristes também. Pra que condenar? Prefiro ouvir o que os caras tão pensando.
Hoje eu já não penso que o cara tem que protestar sempre no rap. Também precisa garantir o dele. O que um garoto que tá começando, escrevendo dentro do quarto dele, vai falar da vida, dos problemas sociais? É um fardo de 200 kg nas costas dele.
O CEU é um castelo. É o que eu descrevo no Domingo no Parque. A Marta perdeu a eleição porque descasou, casou de novo com um argentino, as pessoas pensaram muito nisso. Agora, se vai dar resultado a gente vai ver daqui a 20 anos, se vai sair um Beethoven de lá.
As contradições só acabam quando a gente morre.”
Essas são algumas das pérolas soltadas ontem pelo Pedro Paulo no centro do Roda Viva, na TV Cultura [tiradas do blog da Paula Ordonhes porque o blogueiro aqui ficou com preguiça de ir buscar o bloquinho – clique aqui para ler a entrevista na íntegra]. Para quem estava esperando que o pau comesse na rara entrevista do líder dos Racionais em quase uma década, foi, nas palavras do próprio, “suave”. Exceção feita a uma que outra pergunta, o rapper quase não foi pro paredão.
Paradoxalmente, ele mesmo se encarregou de tornar o clima tranqüilo. Apesar da conhecida marra bicuda, Brown sorriu algumas vezes, impôs uma postura humildemente cristã e se permitiu entrar em territórios íntimos – como quando declarou ser um “pai ausente“.
A afirmação que demonstrou maior mudança na postura sempre agressiva de Brown foi de que não era exemplo pra ninguém. Recusou-se repetidas vezes ser símbolo, líder ou chefe de movimento. Declarou que sua opinião é só mais uma opinião, uma opinião de um cidadão como qualquer outro, recusou o papel de dono da verdade – embora muitas vezes tenha proposto uma perspectiva quase fundamentalista do movimento negro em suas letras.
Na Virada Cultural desse ano, durante o show dos Racionais, quando rolou a treta pesada entre parte do público e a polícia, senti que Mano não era o Messias que muitos imaginávamos quando ele se mostrou incapaz de conter a fúria dos manos. Pra mim, a voz de Brown era a lei.
Felizmente, pelo entrevisto ontem, o rapper demonstrou-se tão mais simples quanto sábio, menos Mano e mais mano. Um rapaz comum que preserva a sua glória.
Ah: pra quem quiser se irritar – mas ao mesmo tempo tomar contato direto com a inteligência média que nos aperreia -, vai no blog do Reaça, ops, Reinaldo Azevedo. O Apóstolo dos Coxinhas comenta a ida do Mano à Roda de um jeito assustadoramente ridículo. E o pior é que o guru intelectual do Cansei é apoiado por mais de 50 mil zé-ruelas que postaram comentários francamente assombrosos, pra não dizer patéticos. Pra quem lembra do Orwell, são vários minutos de ódio garantidos.
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