Da série “pra que escrever?” 7

O casamento entre razão e pesadelo que dominou o século XX deu à luz um mundo cada vez mais ambíguo. Pela paisagem das comunicações se movem os espectros de tecnologias sinistras e os sonhos que o dinheiro pode comprar. Sistemas de armas termonucleares coexistem com comerciais de refrigerantes num reino de luz ofuscante dominado pela publicidade e por factóides, ciência e pornografia. Presidem a nossa vida os grandes leitmotiven gêmeos do século XX: sexo e paranóia.

Nossos conceitos de passado, presente e futuro são crescentemente forçados a uma revisão. Assim como o passado, em termos sociais e psicológicos, se tornou uma vítima fatal de Hiroxima e da era nuclear, o futuro, por sua vez, está deixando de existir, devorado pelo presente voraz. Incorporamos o futuro ao presente, como apaenas uma das inúmeras variáveis a nós apresentadas. As opções se multiplicam à nossa volta, e vivemos num mundo quase infantil onde qualquer demanda, qualquer possibilidade, seja de estilos de vida, viagens ou papéis e identidades sexuais, pode ser satisfeita instantaneamente.

Além disso, sinto que o equilíbrio entre ficção e realidade mudou de modo significativo nas últimas décadas. Cada vez mais seus papéis são invertidos. Vivemos num mundo regido por ficções de todos os tipos – o consumo de massa, a propaganda, a política conduzida como uma ramo da propaganda, o pré-esvaziamento, operado pela tela da televisão, de qualquer resposta original à experiência. Vivemos no interior de uma enorme novela. Hoje é cada vez menos necessário ao escritor inventar o conteúdo ficcional de seu romance. A ficção já está aí. A tarefa do escritor é inventar a realidade.

No passado, sempre partíamos do pressuposto de que o mundo à nossa volta constituía a realidade, por mais confusa e incerta que esta fosse, e de que o mundo interno de nossas mentes, com seus sonhos, esperanças e ambições, representava o reino da fantasia e da imaginação. Esses papéis, tenho a impressão, foram trocados. O método mais prudente e efetivo de lidar com o mundo à nossa volta é supor que ele é uma ficção completa – inversamente, o único grão de realidade que nos resta está dentro da nossa cabeça. A distinção clássica de Freud entre o aparente e o real agora precisa ser aplicada ao mundo exterior da chamada realidade.

Dadas essas transformações, qual a principal tarefa que se apresenta ao escritor? Ele ainda pode fazer uso das técnicas e perspectivas do romance tradicional do século XIX, com sua narrativa linear, sua cronologia uniforme, seus personagens consulares habitando majestosamente seus domínios na amplitude do espaço e do tempo?

Seu tema são as fontes do caráter e da personalidade mergulhadas nas profundezas do passado, a paciente investigação das origens, o exame das nunaces mais sutis do comportamento social e das relações pessoais? O escritor ainda tem autoridade moral para inventar um mundo auto-suficiente e isolado, para supervisionar sues personagens como um examinador, conhecendo todas as qeustões de antemão? Pode deixar de fora tudo aquilo que prefere não compreender, o que inclui suas pórpias motivações, preconceitos e psicopatologia?

Eu pessoalmente sinto que o papel do escritor, sua autoridade e sua licença para agir mudaram radicalmente. Sinto que, num certo sentido, o escritor não sabe mais coisa alguma. Não tem postura moral alguma. Oferece ao leitor o conteúdo de sua própria cabeça, um conjunto de opções e de alternativas imaginárias. Seu papel é o do cientista que se defronta, seja num safári, seja em seu laboratório, com um terreno ou um objeto desconhecido. Tudo o que pode fazer é desenvolver várias hipóteses e testá-las em face dos fatos.

>>> JG Ballard, no prefácio a Crash

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

One thought

  1. Bressane,

    Parece que nem tudo está perdido. Ao menos alguém que não acredita na bobagem do fim da história. Aliás, essa palavra faltou. Assim como a referência ao Freud poderia, perfeitamente, ser substituíada pelo ocultamento das relações – a palavra mais precisa poderia ser ideologia – e a alienação do velho e ainda bom barbudo: Marx.

    Abraço, beatriz.

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