Fluxo de onisciência

Bolaño em visual chicano selbaje
Bolaño em visual chicano selbaje

> Hoje o caderno Cultura do Estadão traz um belo dossiê Roberto Bolaño, com textos de Foot Hardman, Francisco Goldman, uma entrevista sobre ele com o Alan Pauls, pelo Gonçalves Filho, um artigo sobre sua poesia escrito pelo Joca. Pra quem não descolar o jornal, segue minha resenha a respeito do acachapante 2666 – embora, em um diazinha horrível como este, a 5 graus em plenas 4 da tarde, recomendável mesmo seja desligar o computador, ferver um chá de coca ou um capuccino e se meter debaixo de sua own private cloud nine com o que mais de bolañesco tiver à mão. Isso, lógico, se você não tiver nenhuma bebida mais quente…

Em sua última obra, 2666, um deslumbrante jorro contínuo de narrativas, o chileno Roberto Bolaño inventa um anti-romance policial cujo maior enigma é: como esse cara consegue contar tantas histórias?

Para qualquer escritor, a leitura de um romance como 2666 é uma sonora humilhação. Já começa pelo número de páginas – 1119, na versão tijolo da Anagrama (cuidado ao sustentar o volume: um amigo abriu o pulso antes de entrar no último capítulo, outro teve lesão por esforço repetitivo no ombro e teve de fazer fisioterapia). Não é culpa do chileno. Ignácio Echevarría, crítico, organizador da obra de Bolaño e amigo deste, explica que Bolaño queria que a obra toda fosse publicada em 5 tomos, conforme ele planejou. Levando em conta, porém, a amplitude e totalidade da obra, Echevarría e os herdeiros, à Max Brod, preferiram publicar o romanção num tomo só. A idéia de Bolaño era que a cada livro editado se ouvisse a caixa da registradora de seus filhos, em vez de soar só uma vez. Pode-se criticar o editor e os herdeiros pelo peso da obra, mas diga-se que tiveram certa razão: as cinco partes de 2666 estão de tal modo interligadas que não é possível imaginar-se cinco romances estanques.

Bolaño escreveu 2666 nos meses finais de sua vida, durante crises hepáticas que lhe causavam dores terríveis. Conforme contou a este repórter seu amigo Rodrigo Fresán, durante passagem pelo Brasil após a última Flip, Bolaño tinha medo de ser novamente internado num hospital, pois acreditava que se fosse para lá, morreria, e aí não teria como concluir sua obra – o que realmente aconteceu: dois dias depois de internado, à espera de um transplante de fígado, o autor partia, aos 50 anos, em Barcelona. Para quem, como eu, descobriu Bolaño logo após sua morte, parece um fato ainda mais triste. Se estivesse ainda entre nós, o chileno seria considerado não só um dos maiores latino-americanos como um dos mais poderosos autores vivos. Vai saber o que estaria aprontando – o fim de 2666 seria apenas uma de suas obras.

Porque, afinal, ele não deixou conclusa sua magnum opus. Por isso, 2666 não se constitui em testamento literário nem na culminação de sua escrita, como aponta o crítico mexicano Víctor Barrere Enderle: “O livro é um processo literário”, afirma. De fato, o romance não foi sequer revisado por Bolaño, que, conforme contava Fresán, escrevia 30 páginas numa tarde, e às vezes, dias e dias sem parar, somente se levantando da escrivaninha para ir ao banheiro ou comer. Desta incansável rotina de trabalho já se anuncia um dos significados da obra: uma luta contra a morte.

Morte é aliás o eixo da quarta seção do romance, “La parte de los crímenes”. Aqui, Bolaño empreende um obsessivo exercício literario: a recriação de um interminável desfile de assassinatos e violações contra as mulheres da cidade imaginária de Santa Teresa (o autor se inspirou nos crimes contra mulheres acontecidos em Ciudad Juárez), metrópole industrial mexicana fronteiriça com os EUA e encravada no deserto de Sonora, paisagem de outro romance bolañesco, Os Detetives Selvagens. São em geral mulheres pobres, mortas selvagemente, muitas anônimas. O descaso, a incompetência e a ineficiência das polícias mexicana e norte-americanas comparecem em relatos quase secos, quase jornalísticos. Impossível não se recordar dos crimes contra mulheres cometidos pelo príncipe Shariar nas Mil e Uma Noites. Mas nada Bolaño explica dessas mortes e qual a sua relação com certo Benno von Archimboldi: apenas conta para driblar a Foice, como Sheherazade.

O sujeito de curioso nome teuto-italiano é o fantasma oculto na primeira seção, “La parte de los críticos”, em que uma crítica inglesa, um italiano, um francês e um espanhol se conhecem através da paixão comum pelo misterioso Archimboldi, genial escritor alemão sobre quem nada se sabe. A paixão literária comum acaba se transformando em sacanagem e logo um ménage à trois se impõe na narrativa, até que os críticos resolvem seguir uma tênue pista de Archimboldi – um sujeito muito alto e muito branco, de magnéticos olhos azuis – e partem para Santa Teresa. O fã de Os Detetives Selvagens logo perceberá a semelhança entre esse enredo e a trama do romance que fez a fama de Bolaño. Não é só na busca desesperada por um autor misterioso (Cesárea Tinajero, em Detetives, e Archimboldi, em 2666) que se perde no deserto mexicano. De fato, há também em comum naquele romance de 55 narradores e nesta seção de 2666 a polida polifonia de Bolaño, que abusa do discurso indireto livre.

O chileno é craque total nessa oblíqua forma de narrar, espécie de mistura do fluxo de consciência com o narrador que conta a partir da terceira pessoa. Pelo espontâneo jorrar de histórias saídas da pena de Bolaño, em que não raro um personagem ou detalhe de uma seqüência surge protagonista ou chave de enredo no período seguinte, diria que o chileno inventou algo que eu chamaria de fluxo de onisciência. É estranho como se ouve a voz peculiar do autor detrás dos mais variados ângulos de narração, como nas seções “La parte de Amalfitano” e “La parte de Fate”, de que são protagonistas duas personagens totalmente diversas.

Amalfitano é um professor chileno de literatura meio maluco e melancólico que se exila em Santa Teresa com a filha – em sua voz amargurada ecoam os desastres sentidos pela intelectualidade latino-americana entre os anos 60 e 80: as prisões, os exílios, as torturas, a perda de identidade nacional, a perda dos ideais utópicos. Já Oscar Fate é um jornalista negro, baseado no Harlem, Nova York, especialista em política afroamericana, é forçado a viajar a Santa Teresa para cobrir uma luta de boxe entre um chicano e um yankee. Só que, sem entender nada de boxe, prefere tentar seguir pistas que desvendem os assassinatos de mulheres. Fate, que acaba de perder sua mãe, simboliza o sujeito cujo destino morava nas franjas da “realidade” – de que teve vislumbres, mas nunca logrou apreender; um símbolo do leitor-detetive, ou um símbolo do autor-esfinge.

Por fim, a maravilhosa quinta parte se refere diretamente a Archimboldi – e ali está a história que os críticos da primeira parte tanto procuravam. Não se conta muito para não tirar a graça do leitor, mas se pode dizer que nesta seção Bolaño demonstra como um prussiano meio tacanho que cerrou fileiras com Hitler ressuscita em um escritor genial que vaga por um mundo arruinado. É a seção que conecta todas as outras – no entanto, embora deslumbre, não exibe nenhuma justificativa para o livro, para os assassinatos, nem mesmo para o número 2666.

O fluxo de onisciência de Bolaño aqui atinge as alturas mais altas, e aquela humilhação de que falei no início dá lugar ao assombro: mas como é que esse magricela doente podia contar tanta história? Sua escrita, embora à primeira vista soe cortazarianamente caudalosa, é fria, descritiva e contida; e apesar da vertigem digressiva que se espraia por inúmeros monólogos, o raio do chileno nunca perde de vista a aventuresca narrativa principal – não é à toa que o andam comparando a Cervantes [eu acho Bolaño mais completo]. Há sopros de ironia, vôos eruditos, diálogos divertidos, metáforas bem-postas, imagens inesquecíveis. Entanto, ao se procurar, por exemplo, por uma citação que sintetize o texto do autor, percebe-se que o estilo de Bolaño não está em uma voz – mora na estrutura, no tom, em sua perspectiva de mundo.

A transparente volúpia pelo contar direto e puro, sem apelo ao ornamento, ao psicologismo, à sociologização, à metalinguagem ou às referências literárias (mesmo que, no fundo, o livro não passe de um monumento à literatura), recoloca no primeiro plano da literatura contemporânea essa coisa tão urgente e simples quanto narrar, narrar, narrar infinitamente. Para definir a escrita de Bolaño, recordaria a fala de um de seus personagens: “Me introduzo em seus sonos, em seus pensamentos mais vergonhosos, estou em cada tremor, em cada espasmo de suas almas, me meto em seus corações, esquadrinho suas idéias mais primárias, investigo seus impulsos irracionais, suas emoções inexpressáveis, durmo em seus pulmões durante o verão e em seus músculos durante o inverno, e tudo isso o faço sem o menor esforço, sem pretendê-lo, sem pedi-lo nem buscá-lo, sem coerção nenhuma, impelido somente pela devoção e pelo amor”.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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