É proibido dropar

Os cretinos do exclusivismo deram uma rasteira nos skatistas que dropavam na praça Horácio Sabino, na Vila Madalena [vulgo praça do Alves, o colégio que margeia]. Com a desculpa tosca de que era preciso “crescer a permeabilidade” do ladeirão à esquerda da praça, raro e tradicional reduto dos carrinhos na zona oeste, para diminuir as enxurradas lá embaixo, na rua Abegoária, meteram umas lombadas de paralelepípedos em toda a via [se lombada contivesse enchente, por que ainda não fizeram um lombadão em volta da marginal Pinheiros? ah, nossos gênios urbanistas…].

A verdade é que a mauricéia entotozada que mora nas mansões ao redor da praça odeia os skatistas. Afinal, eles são selvagens, durangos, gritam palavrões, fumam maconha sob as árvores, deslizam livres, riem alto… e fascinam, claro, todas as crianças que passam perto. Só não fascinam os pais de família bem-postos da sociedade do Sumarezinho – mais um bairro metido a besta de SP – que acham um horror os moleques que assustam seus cagões cães de raça [a praça é aliás palco de uma bizarra missa anual em prol das almas de cães e gatos, patrocinada pela não menos bizarra Luiza Mell].

Eu, que subi a última vez num skate há mais ou menos três décadas, nunca fiz parte da manada em rodinhas – mas foi na Horácio Sabino que meu filho de 5 anos fez sua estréia no board. Nos fins de semana de sol, era muito bacana ficar sentado sob um dos eucaliptos da praça assistindo às evoluções dos pirralhos [bem, há quem prefira ficar assistindo a um cachorrinho babaca ir buscar um graveto, depois papear com ele com vozinha de débil mental enquanto segura na luva de plástico um cocô quentinho…].

É bem triste ver outra área de SP ‘privatizada’ por conta da cretinice de meia-dúzia de playboys. Mas fico contente em ver que tem gente se mexendo pra mudar a situação, como a minha amiga Phydia de Athayde conta em seu blog. Autora de um texto emocionante sobre a expulsão dos skatistas da praça, ela publicou reportagem na CartaCapital, chamou a atenção de gente como Juca Kfouri e está enchendo o saco da Subprefeitura de Pinheiros e do secretário de esporte Walter Feldman pra rever essa babaquice.

Como poucos paulistanos, a Phydia ainda mantém espírito público e acha que uma praça pode ser de todos: skatistas, crianças, velhos corocos, mendigos, carroceiros, maurícios, escritores vagabundos e até cachorros cagões. Se tivesse mais gente com o sangue dessa garota na cidade, SP não estaria se transformando num parque temático de playboys cercado de fodidos por todos os lados.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

5 thoughts

  1. É um puta absurdo mesmo. Eu moro aqui perto e fiquei também muito puto com isso. É a típica apropriação do espaço público pela elite, já aconteceu um milhão de vezes, e a última do parque temático pra playboys é o parque do Povo, no Itaim, que era o último centro de futebol de várzea na região central de SP e vai ser transformado em mais um canteiro de cocô de poodles. Muito bom saber que tem gente lutando contra. Abraço

  2. nós temos pulgas e piolho, acho muito certo eles proibirem agente de andar d skate lá, pois caso contrario agente ia passar nossas pulgas pros poodles fedidos e comer suas rações importadas pois somos da periferia, mortos de fome e favelados, e somos estúpidos o suficiente pra acreditar q o paralelepipido da ladeira não é pra atrapalhar o skate, estamos no Brasil onde quem nao tem verba não pode se expressar, e mesmo quando se expressa toma 1 calaboca dos poderosos, não é só pela a ladeira q me revolto, também icluo nessa revolta a situação do país….mta coisa na cabeça, mta revolta vou parar por aqui.
    abraço a todos.

  3. em curta opiniao : otimo texto , se alguem achou pesado é porque nao esta sentindo na pele , otimo argumento ; hoje a praça so serve para os cachorros da vizinhança cagar la . e uma coisa que ninguem percebeu ainda é que a tal obra anti-enchente esta indo pro saco com as poucas chuvas , imagine quando vier a temporada de chuva
    hahahahahahah, vai ser um desastre , pois ja tem uma grande parte das pedras soltas , pois a pouca chuva andou levando a areia que fixa as pedras
    ahahahahahahah
    São Pedro , mande muita chuva naquela rua , hahahahah
    abraços

  4. Dropar, no caso, não é bem o termo, mas valeu pela força. Essas gentes têm de entender que não podemos continuar na escalada do movimento “cidade para os carros”.
    Aqui em Belém, a prefeitura só construiu uma pista nova ano e meio depois de destruir a antiga. E destruiram a pista velha para alargar a faixa de asfalto da rua, para caberem mais carros. É assim que funciona, cidade para quem usa carro. Mas a força dos aggressive skate, inline e bike ainda será sentida. Precisamos humanizar a vida nas grandes cidades e as rodinhas são nossa arma.

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