Chorizo malpassado

> essa saiu no Estadão domingo passado, 1-7-7.

Na novela neogótica O Passado, o argentino Alan Pauls narra a grande tragédia de um amor que não acaba nunca – nem depois de morto

Deus me livre da mulher que tiver na cabeceira esse livro. Foi a primeira coisa que pensei ao virar a 478ª página de O Passado, de Alan Pauls (Cosacnaify, tradução de Josely Vianna Baptista, R$ 55). Se essa dama tiver como ídola a obsessiva Sofía, principal personagem feminina do romance, más notícias: a evocação de uma esposa de louva-a-deus dá uma boa idéia do veneno dessa fêmea voraz.

Mas antes de corroer a resenha com minha sempre insuficiente análise, uma volta pela fábula – tentando não roubar surpresas ao leitor. O romance narra os passos da paixão (leia-se a palavra também em seu sentido patológico) de Sofía por Rímini, e vice-versa. O casal se conheceu ainda no colégio, em Buenos Aires. Ele, nascido no ano da revolução cubana, 1959 (tal como seu criador, Pauls), e ela, sete meses antes. Em doze anos, “tinham feito tudo. Defloraram-se; raptaram-se de suas respectivas famílias; viveram e viajaram juntos; juntos sobreviveram à adolescência e depois à juventude e chegaram à vida adulta; juntos foram pais e choraram o morto diminuto que nunca chegaram a ver; juntos conheceram professores, amigos, idiomas, trabalhos, prazeres, lugares de veraneio, decepções, costumes, pratos exóticos, doenças – todas as atrações que uma versão prudente, mas versátil, desse misto de surpresa e fugacidade que normalmente se chama vida podia oferecer-lhes […], e para que a coleção ficasse completa […], acrescentaram a peça fundamental: a separação”.

Quando o romance começa, o tradutor Rímini está divorciado de Sofía, já morando com uma garota dez anos mais nova, a bela modelo Vera. Os nomes codificam o entendimento da trama: Sofía, a sabedoria; Vera, a verdade; Rímini, a cidade-natal de Fellini, cineasta que tem na memória um fetiche e um talismã. Depois virão Carmen, a mulher de carne e osso que dará um filho a Rímini, e Nancy, cinqüentona rica e vulgar como o nome afrancesado sugere (sorry, leitoras com nomes finados em y). Entanto, a estrela deste livro é mesmo Sofía, que, mesmo quando não está presente, está – Pauls chegou a pensar em A Mulher Zumbi como título alternativo a este romance neogótico, o que deixaria ainda mais óbvia a tendência compulsiva da personagem (que, mais à frente, fundará um bizarro clube de Mulheres Que Amam Demais). Ao renunciar ao fim do relacionamento com Rímini e ressurgir em sua vida nos momentos mais cruciais, Sofía lembra o Jason de Sexta-Feira 13; Deus me livre.

E guarde: o livro tem inúmeros predicados. A meu ver, eles são atrapalhados por uns probleminhas… mas ok, comecemos pelas qualidades que deram ao livro o prêmio espanhol Herralde, em 2003. Há, na investigação da memória empreendida por Pauls, uma carnalidade feroz: a escrita é contaminada por visões, cheiros, sons, originando um texto convulso, quase alucinatório e muitas vezes hipnótico, pelo fluxo de frases coordenadas e orações subordinadas que vão se enredando até se tornarem páginas e mais páginas. Rasteiramente falando, e pra ficar só nos platinos, é um Proust que leu Cortázar (no humor negro e nos períodos longuíííssimos), Puig (no apego ao melodrama), Piglia (na conexão crítica com obras de arte reais ou inventadas) e Sábato (na compreensão do desejo aniquilante – entrevisto, exemplo, em O Túnel – e que é, milongas à parte, tema bastante argentino).

Descrições pantagruélicas

Paralelamente à degradação que Rímini se impõe de um amor para outro (pois embora Vera, Carmen e Nancy apareçam de repente para sumir de uma vez só, a morta-viva Sofía bruxuleia por todo o livro), Pauls narra a trajetória de um artista fictício, um incerto Jeromy Riltse, ídolo do casal desde a adolescência. Ao automutilar-se, o cronemberguiano (burroughsiano?) papa da Sick Art, gênero que envolve diretamente a matéria humana em (de)composição (é excruciante acompanhar a busca de Riltse pela conclusão de sua magnum opus, Reto, em que usaria um retalho do próprio ânus), acaba por alegorizar a tragédia do casal.

Os problemas, e talvez aí a falha esteja mais na impaciência deste resenhista, moram no excesso. Nos excessos da linguagem (que inclui adjetivações do tipo “denso, concentrado, compacto”, metáforas e analogias a três por quatro), nos excessos de justificativa que o narrador onisciente (e onipotente) oferta aos desvãos da trama, nos excessos de inúteis rememorações (que espelham as lembranças vazias de outro portenho personagem, o Funes de Jorge Luis Borges, um mártir da memória total). Pauls não consegue, por exemplo, escrever coisas como um simples “ele acendeu a luz”: tem que meter uma analogia, uma descrição, uma explicação psicológica, uma referência cinematográfica, um estado de alma, uma rememoração furtiva, e quando se vê, algo que dura 299 792 458 m/s acaba sendo narrado em duas ou três páginas… Como numa daquelas discussões de relacionamento em que se clama à cara-metade um “Você está me sufocando”, dá vontade de pedir ao autor: por favor, um pouco de Miles Davis, um tanto de João Gilberto!

A escrita de Pauls emula o veneno totalizante de Sofía: enfia-se por todo lado, é uma terceira pessoa que fala sem parar, feito um Charlie Parker chapado de anfetaminas – até nos sonhos de Rímini ela se mete. Pobre protagonista, tem o corpo inteiro auscultado pela fúria interpretativa de seu narrador: não contente em narrar, Pauls precisa fazer a crítica, a exegese e a anticrítica desta. O autor é pantagruélico nas descrições. Tudo bem que, nos pontos altos do livro, às vezes um detalhe minúsculo detona uma reminiscência de duas dezenas de páginas que acaba por aclarar uma faceta da personalidade de Rímini; ou que, como uma volta de cebola, uma imagem dê vazão a uma nova e surpreendente narrativa; ou que a asfixiante linguagem seja ela mesma uma manifestação da envolvente Sofía… Mas nem sempre é assim; nem sempre detalhes são tão indispensáveis.

O que é indispensável dizer é que a grandiosidade de O Passado se dá por seu peculiar sentido de tragédia. No final, simplesmente horrível, um Rímini chupado como mosquinha caída em teia de aranha é a metáfora de certo homem contemporâneo que, incapaz de saber o que fazer com seu próprio desejo (onanista de carteirinha, Rímini masturba-se até quatro vezes por dia… e isso enquanto a namorada não chega!), e obtuso em relação ao desejo infinito das mulheres, vai acabar como um autômato – ou um filhinho de sua esposa (a mãe do protagonista, aliás, jamais aparece no romance), à imagem de tantos maridinhos ocos que zanzam por aí. Deus me livre de um destino desses… E talvez seja isso mesmo que esse pilatiano personagem conseguiu, ao tentar se livrar do próprio destino em mãos alheias – ainda que as belas, macias, ardilosas e ectoplásmicas mãos de Sofía, uma das mais sinistras personagens femininas desde… Lilith.

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

8 pensamentos

  1. Genial!!! Bressa. É exatamente isso aí. Pra mim, o livro tem mais um grave defeito: o autor (e não só o Rímini) cai no engodo da Sofia. Ela é um personagem (sim, na vida existem mulheres que são personagens) que ele não consegue desmacarar. Esse tipo de mulher que fala “eu te conheço melhor do que ninguém”, ou “você deve o que você é a mim” só engana os muito ingênuos, e Alan Pauls se mostrou um deles. Caiu na conversa. Fora que eu achei ele muito antipático. Beijos, tô com muita saudade.

  2. Tem razão, Ivana… o Pauls está tão centrado na Sofia que mal se interessa por sua psicologia. Na verdade, o que eu pensei em escrever e não escrevi é que o próprio narrador faz o papel de uma Sofia, acreditando nesse lema “eu te conheço melhor do que ninguém”… ou seja, o complexo de castração da Sofia contaminou o narrador… esquisito, hein?
    Beijo
    RB

  3. oi rony! comprei esse livro na flip……… vou ler e depois te conto. não sei se o livro é bom mas fiquei absolutamente hipnotisada pelo alan pauls.
    beijo.

  4. Concordo plenamente quanto às descrições “pantagruélicas”. E aquela enorme digressão sobre a pôrra do buraco postiço do Riltse, eu confesso que pulei. Terminei de ler “a tragédia em si”, e então voltei às quase 50 páginas “riltseanas”, como se fossem um conto à parte. Ainda não consegui acabar.
    Mas… afora isso, a leitura flui; gostei do Alan Pauls.

  5. Sinceramente, Tanise, lá pro fim do romance – e depois da citada descrição do buraco postiço – comecei a pensar que o Pauls é um tipo de escritor meio anal-retentivo…
    bjs
    RB

  6. RB:
    Meio??? Acho que ele é completamente anal-retentivo!
    Não acabei ainda, faltam umas dez páginas, agora a vietnamita está com “o buraco” e não sei o que vai fazer com ele. Decidi dar um tempo e comecei a ler “O Castelo”, do Kafka. Até mais!

  7. Com licença…achei-o de casualidade. Gostei das suas observações. Dos seus textos.
    Sou uma pessoa sempre a procura. Me sinto representada nas suas palavras.
    No momento me encontro na pag. 342 do livro. Comecei em setembro de 2007, estamos em maio…
    Muita vida transcorrida, mas “anclada en el pasado” estou…Passarei por aqui em outras oportunudades. Até mais.

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