Como diria meu amigo Jorge

Cuspindo no prato vazio*

Amigos, amigos, o que eu já vi acordado na minha cozinha eu caminhei em sonhos. O que eu já vi acordado apagou um monte de pesadelos que se transformaram depois em sonhos tamanho era o que foi visto. Valeu? Valeu, Aleluia. Mas a beleza a gente só experiencia na vida e no corpo, nunca no mundo de sonhos. Este, um outro nome para onanismo. Engraçado, tem uns dias que eu acordo achando este negócio de escrever coisa de viado. Me lembro que um dia estava conversando com um amigo aí no Brasil, quando, depois de ter me mostrado raridades da literatura universal, um dos melhores papos que eu já tive, virei para ele, ainda meio tímido, e disse: “Quer saber, vou te falar uma coisa, acho que ninguém sabe disso, o que eu sempre sonhei ser na vida foi marinheiro, viajar por aí. Mas não deu, ainda”. Então ele virou e disse, ou citou: “A mesa do escritor é o seu navio”. Eu virei e falei: “Ah rapaz, não é não. Te dou certeza, não é não”. E bebi o melhor café da minha vida naquela tarde. Vez por outra volta esta idéia. A ação. Onde está? Eu não sou escritor (até porque não escrevo nem vivo disso, nem escrevo todos os dias), tenho certeza de usar a literatura para fins religiosos, psíquicos ou terapêuticos. Com a idade a gente vai se fortalecendo, então acontece o equilíbrio. Quando fortaleces o corpo e a mente o milagre se faz em liberdade, ser livre de precisar escrever. O contrário que muitos acham: “Porra, cara, tá louco, gostei para caralho do conto tal aquilo ali dava para virar filme e…”. E etc. Agradeço muito, tem uns contos, apenas alguns, que eu tenho certeza que aquilo ali vai demorar uns mil anos para reproduzir, modéstia à parte, eu sinto isso, mas a gente não deve dizer estas coisas da gente mesmo para ninguém, soa mal e é vergonhoso. Mas a libertação – este sentimento de não depender mais de nenhum vício -, a liberdade última está entre escolher o corpo ou a alma. Eu quero que a alma descanse em paz – e tudo nela é mental, escrever está aí. Está na hora de viajar, sair de casa, porra, me lembro do deserto, como é o sol se misturando naquilo, achando aquele relógio inglês pequeno, e um monte de outras coisas que só acontecem fora deste tal barco imaginário que rodopia e masturba sem sair do lugar. Ação. Esta é a única forma de felicidade, de experimentar o Nirvana antes do tiro, a Graça, o Hallelujah à Leonard Cohen. Muito boa esta consciência. Escrevemos uns livros aí. Fomos caras legais até na ilegalidade civil, religiosa, afetiva ou militar. Eu acho que a literatura me ajudou para cacete mas o que me faz parar de fumar são estas trinta flexões de braço e o mapa preso na parede. Primeiro o corpo deve passar por todo este maltrato para depois com toda a força sobre-humana tornar-se a literatura e ultrapassá-la então não há mais necessidade de se escrever porque já se é a ação verdadeira – a palavra se tornou o corpo mesmo, domíno total do universo controlado por Deus. Soldados. Não tem como, pelo menos para mim escrever algo mais, tudo que eu escrevi já foi escrito, a repetição é uma feiúra danada. Então, tentaremos uma outra coisa. Dar uma paradinha sem neura. Temos que ser honestos apenas com a gente mesmo. Como eu já disse uma vez: “O leitor é que se foda”. Porém, hoje, mais evoluído, eu corrijo: “…e o escritor também”.

* por Jorge Cardoso

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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