
A incrível metamorfose de Silvia Machete em Rhonda
Ronaldo Bressane para a revista Morel
Eu já tinha ouvido falar da cantora que bola um baseado enquanto ginga o bambolê, usando um camisão com a frase Too Good To Be Famous (ironia ou verdade?), mas de pertinho o impacto é ainda mais avassalador. Nas quase duas horas anteriores, Silvia desfilou os clássicos contemporâneos de soul e latinidades em seus álbuns Rhonda e Invisible Woman, e somos levados a um mundo em que a elegância não é só estética como também ética.
O cenário foi o recém-aberto porão da Casa de Francisca, uma das melhores casas de shows do país, bem no centro de São Paulo, no Palacete Tereza Toledo Lara, erguido em 1912. Um inferninho lotado por quase 350 pessoas, apertadas em volta do minúsculo palco bem no centro do porão. Quem apenas visse as cortinas vermelhas à David Lynch, o bar funcionando sem parar, o ambiente sexy e pessoas circulando pra lá e pra cá poderia ter a impressão de que ninguém estava se importando muito com o que acontecia no tablado. Engano: o público quase não falava, dançando mesmerizado.
Bem antes disso, em sua primeira encarnação, Silvia Gabriela de Lima Machado morou entre Nova York, Paris e Melbourne, trabalhando como artista de rua. Apresentou-se na França, Bélgica, Alemanha, Dinamarca, Suíça, Espanha, Holanda, Itália, Israel e Nova Zelândia; na Austrália, atuou com a companhia Circus Oz. Ganhou prêmios em festivais de rua na Holanda e na França. Retornou ao Brasil em 2005 para se dedicar à carreira musical – e aqui começa sua segunda encarnação.
Chegou chegando: em 2007, estreou no Rio de Janeiro o show Cabaré Bambolê. “Silvia Machete é minha candidata a melhor cantora de todos os tempos da última semana”, registrou n’O Globo um encantado Joaquim Ferreira dos Santos. “Da mesma maneira que Elis Regina rodava os braços como um helicóptero sobre as feridas sociais, Silvia roda um bambolê para dar um sacode em todos esses últimos anos cheios de cantoras compenetradas em resgatar o samba, a bossa nova e outras tradições. Machete é outra classe poética. Não se dá ao respeito, mete os peitos. Não há nada mais divertido na música brasileira desde que Angela Ro Ro limpava seu piano com vodca.”
Lançou em 2008 o ãlbum Bomb of Love, Música Safada para Corações Românticos, que além de composições próprias como “2 hot 2 b romantic”, tem canções de Roberto e Erasmo (“Gente aberta”), Sergio Sampaio (“Foi ela”) e Guns’n’Roses (“Sweet child o’mine”). Participaram do disco Nelson Jacobina, Domenico Lancellotti, Stephane San Juan, Rodrigo Bartolo, Rubinho Jacobina e Tiago Schardong, allstars que também foram base da espetacular Orquestra Imperial, onde desfilaram divas como Thalma de Freitas e Nina Becker. Em 2010 lançou Extravaganza, com as canções “Feminino frágil” (parceria com Erasmo Carlos) além de standards como “Noite torta” (Itamar Assumpção), “Manjar de Reis” (Jorge Mautner e Nelson Jacobina). Em 2014 lançou Souvenir, com destaque para “2 cachorros” e a participação de La Ro Ro em “Tango da bronquite”. Em 2017 veio Dussek veste Machete, gravado ao vivo com repertório pautado nas composições do gênio Eduardo Dussek.
Já em sua terceira encarnação, Silvia Machete mudou-se para São Paulo, onde criou a personagem Rhonda, título do álbum lançado em 2020 – este chegou discreto, devido à pandemia. O álbum é produto da parceria com o onipresente baixista e compositor Alberto Continentino, que também tocou com Gal Costa, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Beto Guedes, Vitor Ramil, Ana Frango Elétrico e um longo etc. Todas as canções foram escritas por Silvia em inglês e criadas ao lado de Continentino; tem ainda uma parceria com Nick Jones, roteirista da série Orange is the New Black, na faixa “Messy eater”. O álbum atinge o prodígio ambíguo de não se parecer com nada feito no Brasil hoje, e ao mesmo tempo, soar super brasileiro; também não lembra nada produzido no mundo – suas influências de soul music, rythm’n’blues, rock psicodélico, dreampop , salsa, rumba e certas torch songs sessentistas garantem uma sonoridade atemporal.
O disco foi seguido por uma cultuada coleção de remixes, Rhonda Revisited, com nomes como Kassin, Mr Spaceman e a Nomade Orquestra. E em 2024 Silvia, mais Rhonda do que nunca, lançou Invisible Woman, com o mesmo timaço de músicos, e as canções em inglês novamente ganharam o toque mágico de Continentino, além de “Two kites”, de Tom Jobim. “A diferença entre o primeiro e o segundo disco é a atmosfera criada pela personagem”, escreve a crítica musical Pérola Mathias. “Se antes conhecemos canções enevoadas, criadas a partir de uma dolorosa fossa, agora as faixas trazem elementos mais pop, ainda que com verdades duras sobre o amor. Encontramos uma Rhonda consciente, refeita, talvez, capaz de olhar para uma antiga relação e se livrar dela.” O filósofo Francisco Bosco anota: “A arte de Silvia tem o fundamento da máscara. Interpõe distância entre o canto e o cantado, a fala e o falado, a cena e a vida. A arte de Silvia está mais sutil e madura: a máscara aparece na personagem Rhonda e tudo tem certo ar de ficção – mas ela também não cessa de te dizer que a ficção é a vida, e essa ambiguidade entre a distância da máscara e os afetos sinceros da música estrutura o show e responde por sua beleza.”
No show da Casa de Francisca, dando vida a esta personagem anacrônica, mix de Peggy Lee, Shirley Bassey, Diana Ross e Barbra Streisand, o tempo todo disparando piadas em inglês e francês, Silvia/ Rhonda convence o público extasiado de que sim, um outro mundo é possível, e de repente estamos em um conversível bebendo drinks coloridos pelas colinas da Califórnia ou da Côte d’Azur enquanto fugimos de um vilão cabuloso ou de um amor perdido em um filme de Hitchcock ou James Bond.
Em um figurino glitter prateado, bento pelas luzes rubras do inferninho, Silvia se move em câmera lenta circundada pela banda. Diva que é diva não tem medo de equalizar a voz no mesmo nível de bateria, baixo, guitarra e teclados, e que banda: Lalo Brusco no baixo e na direção musical – aliás o produtor de ambos os discos, ao lado de Continentino –, Conrado Goys na guitarra, Chicão nos teclados e Vítor Cabral na bateria soam como um mini Funkadelic/ Parliament. Sorte de quem esteve lá – e, antes do hit com o bambolê, também rolou distribuição de lucky cookies, todos recheados com a frase I’ll escape the night, I’ll run away, verso de “Forget to forget”.
Fugindo de discursos rasos e sonoridades óbvias, trabalhando nuances, ambivalências, silêncios e ironias, Silvia ocupa um limbo de classe na atual música brasileira, e é estranho como temos de descer a um inferninho inventado para ter acesso a um instante de luz de verdade. Encarnada em uma miríade de referências, Rhonda é uma personagem tão intrigante que torna real a sensualidade etérea que deveras finge. Poucas vezes presenciei um público tão agradecido e emocionado ao fim de um espetáculo. Boa demais para ser famosa? Ao infiel que ainda não viu, que não perca a chance de presenciar este paraíso performático no picadeiro mais próximo.
Silvia recebe Morel em sua casinha na Vila Anglo-Brasileira, zona oeste paulistana, pouco antes de se mudar para um apartamento em Pinheiros. O sobrado mais parece filial de um antiquário, tantos são os badulaques teatrais espalhados ao redor de um piano (de verdade, não aquele cenográfico que ela carrega na cabeça em um show recente), além de muitas caixas contendo o recém-prensado vinil de Invisible Woman. Durante umas quatro horas conversamos aditivados por um saquê de quinta e risadas de primeira, advindas de peripécias internacionalistas e tiradas anárquicas. Vem aí Bad Jazz, a terceira parte desta terceira encarnação. Com vocês, Silvia Machado, Machete ou Rhonda – nunca saberemos.

Comecemos pela sua primeira encarnação…
Minha mãe e meu pai são pessoas maravilhosas, mas não são artistas, e sim jornalistas. Minha mãe, Andrea Gouvêa Vieira, trabalhou na Globo e no Jornal do Brasil, e meu pai, Aluízio Machado, era professor de jornalismo. Não vim do meio. O mais próximo é meu irmão Ivan, que é um grande baixista, toca com Martinho da Vila há mais de 30 anos, gravou com Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Zeca Pagodinho… Ivan tá com 72 anos. Meu pai também tocava um belo violão, mas nunca se dedicou. E meu nome não é Machete, claro, é Machado, isso também é falso, é tudo ficção na minha vida.
Como você decidiu ser cantora? A primeira voz com quem me identifiquei foi a Dinah Washington. Eu tinha uns sete anos e morava em Nova York, minha vó ouvia discos de jazz enquanto bordava e me pedia pra eu tirar as letras das músicas. Minha avó, minha bisavó e minha tia-avó tinham ido morar com a gente nos Estados Unidos, porque meu padrasto dava aulas na Universidade Columbia. Você deve saber quem é, o Edmar Bacha, um dos criadores do Plano Real. Meu pai foi correspondente em Buenos Aires. Que foi onde passei a infância.
Mas você nasceu mesmo no Rio de Janeiro, né?
Não, em Belo Horizonte! Coisas de família, o meu tio mineiro é obstetra… Depois que nasci, voltamos para o Rio e na sequência meus pais já foram para Argentina, meu pai era jornalista político. Então minha primeira língua foi o castelhano. Ficamos lá três anos, até minha mãe se divorciar. E casou de novo, grávida! Tem uma história boa, eu no meio da igreja lotada, no casamento da minha mãe com meu padrastro, eu interrompi o papa, digo, o padre [risos], e naquele silêncio perguntei “Mãe, essa é última vez que você vai casar?”. A pergunta reverberou pela igreja e logo em seguida todo mundo caiu na gargalhada. Acho que ali já é o início da minha carreira artística [risos]. Mas não teve jeito, minha mãe se casou de novo, com o advogado Jorge Hilário Gouvêa Vieira.
Como foi a vida nos Estados Unidos? Mudou minha vida em termos de referência, porque além desses discos de jazz da minha avó, tinha os meus discos do Michael Jackson, eu era alimentada pela MTV. Depois mudamos para a Califórnia: meu padastro foi dar aulas em Berkeley. Hoje em dia tenho ódio à política dos EUA, mas sei que existem coisas maravilhosas na cultura americana, como a música. Aí com 17 anos fui para a França, porque estava obcecada com aprender francês. Na Sorbonne, estudei civilização francesa e fiz escola de circo. Lá conheci meu ex-marido, Clark. A gente ficou anos juntos viajando pelo mundo em um caminhão.
Oi?! Conheci o Clark num espetáculo de rua na Suíça, ele já morava num caminhão. E quando eu o vi se apresentando, eu pensei: é isso que eu quero fazer da minha vida! Quero trabalhar na rua! Fiquei muito transtornada. Tinha 18 anos, ele uns 22. Trocamos telefones, ele me botou no trem para Paris, achava que nunca mais fosse ver a pessoa, fui no trem chorando, cena de filme, completamente apaixonada. Logo em seguida, precisei voltar pro Brasil pra renovar o visto. Meses depois, volto pra Paris e tem um recado dele na secretária eletrônica.
E aí vocês se mudaram pro caminhão? No começo ele ainda estava na Suíça e eu na França, teve várias idas e vindas. O Clark é um americano rebelde, espírito livre, o irmão também é malabarista. Ele percebeu que na Europa dá pra viver como artista de rua por conta de as cidades serem construídas para pedestres, não para carros como é nos Estados Unidos e no Brasil. Em todos os lugares tem grandes praças em que há muita gente passando e vendo os artistas. Diferente do Brasil, onde a galera da rua, coitada, tem 50 segundos pra fazer sua arte no sinal. Como é que você vai fazer contato com seu público dentro de um carro? Se tiver de ganhar a vida assim, melhor assaltar um banco [risos].
Então na Europa funciona? Sim, apesar de ser muito difícil. Quanto o Clark veio para Paris a gente começou a desenvolver nosso show. Ganhamos milhões de festivais de teatro de rua. Nos festivais você garante acomodação, refeição, cachê, lugar pra estacionar o caminhão. E como é tradição, o público é muito generoso e paga boas gorjetas. Toda cidade na Europa tem festival, seja arte de rua, música, circo, comédia, tudo pago pelo Estado. Assim, durante o verão você trabalha e junta dinheiro para os meses em que nada acontece. Foda é que uma vez nosso caminhão sofreu um acidente, pegou fogo em plena Bastilha, e perdemos tudo, foi um troço cinematográfico, traumatizante! [Risos.]
Perderam tudo? Agora rio disso, só que tudo o que estava no baú se perdeu, roupas, objetos de cena, figurinos, livros, discos, tudo, foi um desespero. Mas a gente teve doações dos colegas, lojas de material de circo, minha mãe mandou uma mala de roupas, os amigos parisienses foram muito solidários.
Por que ser artista de rua? Não tem nada mais livre que ser artista de rua. E nada mais difícil também. Não é para todo mundo, porque é humilhante, você sendo mulher é mais complicado ainda. Você tem que desvendar mil mistérios, tem de morar dentro de um caminhão, e os perrengues têm que valer a pena, né? Mas nessa viagem pela Europa eu também vi que era uma coisa possível, daí apostar nisso.
Como era o show? Você que tem que criar uma atmosfera, né? Começa com uma única pessoa. Você tem que atrair a atenção desse único filho da puta [risos]. Aí vira uma bola de neve! Vai parando gente e mais gente e a gente juntava umas 400 pessoas. Rola uma puta embromação até chegar ao grande final. No começo eu subia no Clark, ficava em pé nos ombros enquanto ele andava no monociclo, daí a gente ficava girando tochas de fogo. Depois a gente criou a nossa assinatura de comédia, mas no começo era malabarismo, tambores, comédia física, lutas. Um número que fazia sucesso era a gente dançando tango e aí eu notava que tinha um papel higiênico grudado no sapato [risos]. Aí ele pisava no papel só que o papel grudava no sapato dele, e continuamos dançando, incomodados com aquele papel grudado no sapato… um número de palhaço circense clássico lindo. E a gente se vestia muito bem! Chegamos à conclusão, na estrada, de que quanto melhor se vestisse, mais dinheiro a gente ganhava. As pessoas só acreditam em você se você se veste bem. Na Europa eles usam figurino de verdade, nada xexelento, pé descalço, era só pele de leopardo. Tinha vários esquetes, tudo amarrado por uma história de boy meets girl, girl escapes boy e no final ficam juntos, happy end.
Aí vocês botaram o caminhão de volta na estrada… Rolou um estresse, foi bem difícil. Aí minha irmã, Julia Bacha, que hoje trabalha com Palestina e Israel, foi viver em Nova York para estudar a história do Oriente Médio, e fui visitá-la. Passei dois meses e disse pro Clark que queria viver nos EUA. Queria recomeçar tudo de novo. Ele foi para Nova York e disse já que você vai morar aqui, vamos casar. Porque é um perrengue para uma mulher estrangeira trabalhar nos EUA, né? Mas claro que a gente não casou só pelo visso, porra, a gente se amava e o Clark é o único cara feminista com quem realmente me relacionei.
E era muito diferente trabalhar nos EUA? A gente começou a desenvolver coisas para teatro, tinha milhões de teatros alternativos nos anos 2000 em Nova York, muita gente experimentando, borbulhava criação, um enorme público do mundo inteiro que consome arte. Aí a gente se envolveu com um circo anarquista maravilhoso totalmente gay underground político [risos]. Hoje a cidade mudou, não está mais assim, a coisa ficou pesada. A cidade mais suja, o povo mais cuzão, outro dia meus amigos gays tomaram ovadas em pleno Chelsea! Tá ruim, tá ruim, tá ruim, os Estados Unidos ficaram um lugar bem bem bem bem bem bem bem bem bem bem bem bem perigoso, não sei onde que a gente vai parar.
E como era a rotina nessa época? A gente voltava para Paris em maio, fomos adotados por uma família que tinha um lugar onde se podia deixar o caminhão no inverno, e aí no verão voltava e fazia a turnê. A última foi em 2008. A gente voltava do verão na Europa ricos, né? Juntava uns 30 mil euros em setembro, daí ia passar o inverno europeu em lugares baratos, Tailândia, Índia, Goa, Oceania, e também vinha para o Brasil. Era um estilo de vida maravilhoso, com trabalho e disciplina, e ainda casados. Em NY a gente quis fazer nosso espetáculo com todos os recursos teatrais, como iluminação, coisa que não tem na rua, e mais uma banda. Então a gente escreveu um show com três personagens, uma cantora, um bartender e um médico, e tudo se passava num bar, os dois faziam todos os personagens. Foi em um circo que fui batizada de Silvia Machete. Um músico disse que Machado não combinava, e me chamou de Machete, o que é ótimo, porque é um tipo de facão, né? Nessa época eu trabalhava com uma mulher fantástica, a maior artista que já vi na vida, nem em Cirque de Soleil fazem o que ela faz. Uma americana de Connecticut que hoje virou bolsominion, fazia um número em que tinha um motociclista num arame e ela ficava pendurada no trapézio fazendo todo tipo de loucura, completamente único.
Você deve ter conhecido muita gente fora do comum, né? É o que eu mais conheço, o meu comum é gente fora do comum. Vi gente com uma variedade absurda de talentos e de histórias e com éticas muito especiais. Ser artista de rua requer muitas regras. Tem coisas básicas, por exemplo, qualquer pessoa pode fazer show na rua, mas como você se organiza? É por ordem de chegada. Quem chegou primeiro faz seu show. Quanto tempo você faz o seu show? No máximo uma hora. E o que você sujar, você tem que limpar. E tem os lugares secretos, as gold mines, lugares que você encontra e não fala para ninguém. Mas se alguém descobrir tudo bem, a gente divide o lugar, depois vai para nossos caminhões fazer comida e abrir as portas dos caminhões e todo mundo entra. Tem briga, claro, mas é raro.
Então você foi aos poucos deixando as ruas. Em Nova York as pessoas não eram tão legais quanto na Europa. Às vezes rolava um estranhamento com o pessoal do break, por exemplo. Eu estava mais a fim de fazer o lance do do teatro, de criar em um ambiente mais protegido. Daí a gente começou a montar esse espetáculo Planeta Banana, em que eu fazia um papel da cantora. Sempre tem na off Broadway os produtores judeus que investem em teatro. Acreditaram na gente e ficamos quatro meses em temporada em um teatrinho lindo. E dali você pode ir pra TV, sabe? Muitos amigos saíram desse teatro underground trabalhar em séries. Falta isso aqui no Brasil.
Por que Planeta Banana? É que a gente fazia várias coisas com bananas. Tinha um duelo de bananas [risos], em que a gente convidava alguém do público, era engraçadíssimo. Esse tipo de interatividade é normal com o teatro de rua. No Brasil eu sinto as pessoas mais tímidas, porque aqui tem a cultura do artista humilhar a pessoa da plateia. A gente não fazia isso, porque a pessoa que sai da plateia pro palco é uma heroína. O duelo de bananas rolava entre dois homens, disputando meu coração. Também tinha uma briga com uma banana gigante inflável. E rolava ainda um duelo de cuspe de banana. As pessoas não acreditavam. Fora o diálogo de bananas, fazendo declaração de amor com a boca cheia de bananas. Era hilário! E em tudo tinha trapézio e cross dressing, eu vestida de homem, o Clark vestido de mulher…
E por que terminaram? Eu não queria mais ir para Europa, estava de saco cheio de rua. É muita ralação. Mas só faço o que faço hoje em dia por causa dessa escola. É a universidade do faça você mesmo, você fica muito independente, se vira. Se quer fazer um show, você entrega, não tem produtor pra ficar reclamando. Até hoje sou underground por causa dessa postura. Não consigo ser essa merda famosa [risos]. Nesse novo show estou tomando conta de gerenciar minha carreira, como a produção dos shows, aguardando minha produtora Isabela Alves, que adoeceu, voltar com força total. Mas logo se recupera. Ela me defende muito, revisa todos meus contratos, gerencia minha música em novela, séries, trilhas.
Ser independente demais atrapalha o sucesso? Olha, agora em setembro eu vou fazer meu primeiro festival, o Coala. Super legal! Não tem aquela imposição de grudar o artista em uma marca, como acontece em outros festivais. A gente podia falar de várias coisas horríveis no nosso showbiz, né? Tem muita sacanagem se você não é uma pessoa que não fica puxando o saco, como eu. Existe uma milícia cultural! E tem muito artista que detona o colega, né? Que não quer dar espaço… E continua um meio machista para caralho. Eu gostei do C6 também, uma maravilha, nível altíssimo de música e também discreto. Porque sou contra esse lance de tocar exposta com uma marca criminosa atrás de mim. Sou chata com isso! Você vai nesses festivais tipo Rock in Rio, o pior festival que fui na minha vida. As pessoas pagam R$ 700 por um show com Lei Rouanet, a cerveja custa 25 reais, não tem lugar pra sentar, você é tratado como gado e ainda bate palma. Triste, cara. As pessoas ficam engasgando, lugar lotado, um inferno. Dá pra fazer um festival que projeta seu trabalho e você dentro de uma curadoria inteligente, como esse Coala, como o C6, festivais que pensam no público, não ficam só no dinheiro. No fundo esses festivais fazem dinheiro vendendo álcool. Complicado, cara. Como é que você junta arte com álcool?
Será que não daria pra fazer de uma forma mais responsável e elegante? O meu show mesmo tem tudo a ver com álcool [risos]. Este que fiz agora no porão da Casa de Francisca achei bacana porque o bar continua funcionando, ao contrário do teatro da Casa. Dá pra fazer de uma forma legal para o artista sem a marca precisar ser o o centro, o cenário e o nome principal do lance, entendeu?
Como você vê a cena pop hoje? Vejo três vertentes fortes. Tem o porno pop, da Marina Sena, a Luísa Sonza, Anitta… a maioria das meninas pop estão indo por esse caminho. Muito por conta do tal algoritmo, que faz sucesso. É um caminho possível, quando se tem essa essa idade… Tem também a fofo music, tipo os Gilsons, né? E tem os nepobabies… quase todos [risos] por quem eu tenho total admiração.
Enfim, voltemos à sua segunda encarnação. Você saiu do circo e aí virou cantora… Sim, resolvi que queria gravar um disco, gravar um vídeo, já tinha músicas autorais, vim compondo ao longo de toda minha vida, só que para gravar teria que voltar para o Brasil. Aí fui seduzida pelo Rio de Janeiro, e encontrei a turma dos Jacobina, o Rubinho e Nelson. Assim rolou o primeiro disco, Música Safada para Corações Românticos com aquela banda maravilhosa que é praticamente a Orquestra Imperial. Domenico, Stephane, Rubinho, Kassim, Bartolo. O estranho foi que no Rio vivi todo tipo de machismo. Um machismo que já tinha vivido na Europa e nos EUA, só que lá é combinado com o colonialismo. Quando pegavam meu passaporte e liam “Brasil”, faziam piadas insinuando que eu fosse prostituta ou travesti. Um dos motivos pelos quais me casei com o Clark foi porque ele me viu sendo humilhada várias vezes, e com um passaporte americano isso era amenizado. Fazer o quê? Essa é a realidade sendo brasileira! Apesar disso, como artista na Europa eu fui mais bem tratada do que nos EUA, porque eles não eram tão territorialistas e tinham uma curiosa paixão pelo Brasil. Já no Brasil não é assim, existe mais bairrismo. Acho que essa insegurança é porque não tem espaço para todo mundo. O mundo musical não é organizado. Pra dar um exemplo, não existe realmente crítica especializada bem remunerada, entendeu? E tem outro assunto complicado que é a obrigatoriedade de você levantar uma bandeira. Qual é a sua causa? Para mim deu ruim… sou branca, hétero, sudestina, fora de moda… nunca vou ganhar um edital na minha vida [risos]. Mas [séria], não se esqueça: sou MULHER e sou latina.
Você até fez essa piadinha no show, “todos aqui são héteros”… A treta é por causa disso. Entendo ser necessário um preço a pagar por séculos de desigualdade. Somos um país injusto. Os resultados são injustos para todos. Só que esse lance de você só conseguir espaço se for trans, se for preto, se for gay, de uma maneira obrigatória, acaba não sendo bom para a arte em geral. Porque, pensando só dessa forma, você está fechando a porta para o talento puro. É claro que temos de mudar. Mas não sei se essa é a maneira mais justa. Me parece que estamos criando outra injustiça fazendo assim. Sem falar outras coisas curiosas… Outro dia me perguntaram assim: o seu show só é adequado para menores de 18 anos. Achei engraçado, porque você vai no TikTok e vê as meninas do porno pop com um negócio enfiado no cu rebolando até o chão e chupando o dedo [risos]. É meio ridículo, entendeu?
Já te criticaram também por você fazer um som sofisticado demais? Eu ouvi isso até da minha mãe! Fico puta! Educação faz falta, cara. Temos de parar de subestimar o brasileiro. O público precisa ter acesso a todas as coisas para saber do que gosta, e não pode ter só o mesmo tipo de coisa enfiado goela abaixo. A gente pode fazer a música que a gente quiser!
Mas enfim, você virou artista no Rio de Janeiro. Virei cantora, né? Causando, né? Já cheguei botando uma pomba na cabeça, usando um lance circense megacolorido, numa época em que as cantoras eram todas sérias. As cantoras ainda na escola Marisa Monte, aquela coisa inacessível. Já eu vim com esse lance pedestre, de comédia física, interação com o público, tirando sarro da posição da cantora musa. Tem uma crítica muito legal que o Joaquim Ferreira dos Santos escreveu a meu respeito, acho que incomodei as minhas colegas com a crítica que ele publicou [risos]. Mas tudo bem, não brigo com ninguém; só brigo se me sinto injustiçada.
Bem, depois dessa segunda encarnação, em que você compôs com gente como Eduardo Dussek e Erasmo Carlos, você mudou totalmente de pele e virou a Rhonda. Quis fazer esse disco também porque sou conhecida pelos meus shows, e hoje é mais difícil você levar uma pessoa a um show do que fazer uma pessoa ouvir o seu disco. Então fiz o contrário. Pensei, vou fazer um disco foda para a partir dele inventar um show foda. E criei essa trilogia do Rhonda. O próximo vai se chamar Bad Jazz Rhonda.
De onde esse nome? Em 2002, conheci uma trupe de mulheres na Nova Zelândia chamada de Rhonda Movement. Eram umas palhaças percussionistas geniais, a gente ficou muito amiga. Comecei com essa obsessão: se eu tiver uma filha, vai se chamar Rhonda. Quando me mudei para São Paulo, comecei a escrever em inglês, porque me sentia vivendo numa cidade estrangeira, essa beleza concreta de prédios e problemas incríveis de megalópoles e benefícios incríveis de megalópoles. Mergulhei nessa ficção de uma personagem que poderia estar em qualquer grande cidade do mundo, e escrever da forma que quisesse. Aí comecei a escrever na minha segunda língua, que é o inglês.
Como é cantar sob a pele de um personagem de ficção? Ao mesmo tempo que é ficcional, ela é muito próxima de quem eu realmente sou. No circo a trapezista é uma ficção, mas exerce algo virtuoso. O malabarista exige treino, concentração, dedicação, para criar a ficção que ele apresenta. Em termos de música, estou voltando às raízes das músicas que me cativam desde a infância. O Chico Bosco escreveu: onde entra a ficção, onde entra a realidade, quais são essas máscaras? Talvez eu tenha tanta dificuldade de me expor, já que todas essas músicas são românticas. Afinal, esse disco veio de uma desilusão amorosa.
Você criou uma história tão ficcional que acaba parecendo real. Vou ter que escrever um livro sobre a minha vida, porque o que vivi parece inventado. Tem muitas coisas estranhas, tipo esse lance do caminhão pegar fogo. Outra coisa que a gente fazia era shower stealing: pegava mochila, sabonete, shampoo, toalha, entrava num hotel, na Europa todo hotel tem banheiro no corredor, e tomava banho roubado [risos]. Era punk! Outra vez encontramos dentro do caminhão uma mulher se picando com crack. Tinha invadido o caminhão pela janela e ainda roubou nossas coisas! E, por outro lado, às vezes acontecia de a gente encontrar uma vaga maravilhosa à beira do Sena e tomar café da manhã em cima do baú do caminhão, olhando para a torre Eiffel. Teve derrotas mas também teve glórias.
Se apresentar no meio do público te faz criar uma casca? A minha é bem grossa. Quando você trabalha na rua, tem muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Tem bêbado gritando, tem barulho do carro, tem carrinho de supermercado, crianças brigando, se você conseguir se concentrar em um lance vira um negócio energético, você cria a sensação dentro e devolve pro público: “Vocês vão algo muito incrível, algo espetacular está prestes a acontecer, então prestem atenção em mim!”. Eu desenvolvi um terceiro olho por causa disso, por isso gosto desse caos, gosto da ideia de fazer o show bem no meio do público. Eu me torno uma mistura de cantora com mestra de cerimônias. Isso realmente é um superpoder, e eu não tenho nenhuma vergonha de falar. No teatro sou eu mesma quem manipula a minha máquina de fumaça. Outra coisa: na verdade ninguém me conhece direito, então sinto que estou começando. Isso é maravilhoso!
Mas o humor está em outro plano agora, fora do circense. Você faz o show inteiro falando em inglês com o público, que sabe que você fala português. É como se a gente estivesse assistindo a uma cantora internacional tão fake que acaba se tornando verdadeira na nossa frente. A mesma coisa é no fim do show, quando chego com aquela camiseta e o bambolê e faço o número do cigarro. Eu brinco que aquele é o meu “Asa Branca”, o meu hit circense. Antigamente eu dançava com uma pomba na cabeça, mas hoje já acho exagero [risos]. Prefiro colocar na cabeça o piano cenográfico. É um símbolo do que é ser artista: carregar o piano que ele próprio vai tocar.
Você falou que escreveu as letras de Rhonda depois de uma desilusão amorosa. Tem a ver com a mudança do Rio pra São Paulo? Não vim para cá por causa disso, mas de fato eu tava muito desiludida, muito triste. E aí no Invisible Woman, que é um álbum mais solar, a Rhonda já deu uma superada, mas ainda tem resquícios daquela tristeza. O lance da invisibilidade é ambíguo. Falo da mulher universal que tem esse trabalho invisível, que ninguém presta atenção, e isso de algum modo também se relaciona à pouca visibilidade do meu trabalho. Mas não gosto de me vitimizar. Me indaguei como transformar esse conceito em entretenimento. Pois a invisibilidade tem tudo a ver com as mágicas do circo. É o maior dos superpoderes, não? Como tornar algo negativo em algo positivo?
Você prefere voar ou ser invisível? Eu posso ficar invisível se quiser. Quais são quais os poderes dos seus sonhos? O que você quer ser? Você quer chegar a um determinado degrau ou quer ser patrocinada por uma marca de bebida? São perguntas que você tem que se fazer. Tenho pavor a essa coisa da celebridade, ser medido pelo número do seguidores. Tem curadores que usam essa métrica para pautar os festivais. E pode ser tudo robô, né? Não é real. Estou interessada em criar uma experiência musical, e não deixar nunca a música em segundo plano.
Sobre o terceiro disco… Agora estou um pouco sobrecarregada, acabaram de chegar meus vinis e eu mesma estou postando pelo correio, acabei de mandar um lote para o Japão. E ao mesmo tempo estou preparando o material do próximo show, no Teatro Rival, que vai ser diferente deste da Casa de Francisca. E enquanto isso já estou me mudando de casa. E ainda planejo fazer um filme!
Rhonda, o Filme? Sim, um longa mesmo, dirigido pela Ale Dorgan, que fez o documentário do Luiz Melodia.
Dá para contar o enredo? A Rhonda é uma artista casada com um cara que é filho de um famoso e tem uma carreira gigante, mas não tem talento nenhum, ela é que é a talentosa. Tudo se passa nos bastidores do teatro. Ela está dando entrevista, passando o som, acabando uma letra, angustiada, porque está com o menino mais jovem, a menstruação está atrasada e ela já tem dois filhos. Compra um teste de gravidez e ao mesmo tempo o médico dela revê todos os exames dela e descobre que entrou na menopausa. Ela fica aliviada: não é filho, é menopausa! [risos] Tudo misturado com as músicas, ela se arrumando pro show, bem normal antes e depois montada no personagem. Tem uma produtora louca, a lista de convidados… Tudo o que envolve uma pré-estreia.
Quando você criou Rhonda, já pensava em filme? Sempre pensei na Rhonda como uma cigana urbana, uma mulher que mora na fronteira do México com a Califórnia, que toca maracas e vive dentro do carro, de motel em motel. Você não identifica exatamente de onde ela é. Tem uma série que amo que é I Love Dick. A personagem principal é hilária, sou fã de muitas mulheres como ela. Também gosto desses filmes impossíveis de amor. Mas a série mais bonita que vi nos últimos tempos foi Ripley. Que perfeição, né? Tô viciada naquela música “Il cielo in uma stanza”, da Mina. Adoro criar trilha sonora, quero muito focar nisso. Outro filme que sou apaixonada é o Vertigo. E claro, todos os filmes do Tarantino. E todas as temporadas do Seinfeld!
Já que você tocou no assunto menopausa, como é encarar o envelhecimento? Não sei como é que vai ser ainda, mas envelhecer, me pergunto todo dia. Não queria envelhecer não! Às vezes acho que quando for velhinha e fizer o número do bambolê vai ser engraçadão [risos]. Mas me pergunto, posso ser graciosa na minha velhice? Super me cuido, apesar do meu cigarro e do meu saquê, mas não faço isso todo dia, longe disso. Se a minha menopausa me derrubar, vou fazer reposição hormonal mesmo! Essa possibilidade de reinventar-se com segurança me ajuda, nem todo artista cria uma história nova perto dos 50 anos.
Última pergunta: o que é sorte? Estar vivo, né? A gente pode cair duro a qualquer momento. Sorte também é mágica. Estar no lugar certo na hora certa. E organizar a vida para ter surpresas. Não acredito em Papai Noel, então nada vai acontecer sozinho: a gente tem que dar uma organizada para as surpresas acontecerem. E se as surpresas acontecerem, é pura sorte.