André Sant’Anna, o último tropicalista

Com Amor, ficção dos anos 1990 só agora reeditada no Brasil, André Sant’Anna espia a metarrealidade brasileira de modo tão delirante quanto PanAmérica, de José Agrippino de Paula


Por Ronaldo Bressane, para a Quatro Cinco Um

O André Sant’Anna é o gênio da burrice. Inventou de olhar para nossa realidade objetiva de modo literal, chapado, linear. Depois que você lê qualquer coisa que ele escreveu você acaba pensando do mesmo jeito. É contagiante. Você elimina todos os meio-tons, todas as nuances, todas as contradições e complexidades e especificidades possíveis e impossíveis da realidade objetiva e vê o universo do ponto de vista de uma azêmola e tudo fica muito mais gostosinho. Esse jeito de olhar para a realidade objetiva, curioso!, apareceu antes mesmo do bolsonarismo. Por isso digo que o André Sant’Anna inventou o bolsonarismo antes do Jair Bolsonaro. Leia “Rush”, uma ficção dos anos 1990 em que um taxista reacionário, truculento e grosseiro fala diversas barbaridades enquanto solta o bordão “bom era no tempo da ditadura”. É puro Jair.

É como se o Sant’Anna tivesse captado uma forma de mastigar a realidade bem mastigadinha, um tipo de raciocínio em baixa rotação, um jeito de viver a vida brasileira de um modo abaixo do simplório. O mais curioso é que pessoas burras não entendem a linguagem do André Sant’Anna, mesmo com todas as repetições, bordões e frases na ordem direta, porque por trás delas está um mecanismo embebido de ironia, sarcasmo, humor sombrio e uma perspectiva trágica do Brasil. Como se você visse um quadro do Romero Britto pintado pela Laerte: quem não entende arte não vai sacar a diferença. Daí a genialidade dessa burrice.

            E André Sant’Anna sacou que a burrice é contagiosa. Só isso explica o fato de seu primeiro livro, Amor, não ter sido publicado pela Companhia das Letras, como os outros de sua “trilogia afetiva”, Sexo e Amizade. Um dos truques do autor é usar personagens reais em ficções fictícias (o pleonasmo é necessário). Na época em que eu editava a revista Trip, o convidei para ocupar uma coluna de ficção. Sua estreia foi com o conto “She’s leaving home”, em que Sant’Anna personificava a cantora Sandy, então a namoradinha do Brasil, em uma carta aos pais, anunciando a despedida da adolescência. A coluna foi interrompida quando Sant’Anna escreveu uma história com Ronaldo Fenômeno e o empresário João Paulo Diniz num camarote do Sambódromo. O empresário, amigo do publisher, não curtiu, reclamou – e o escritor sumiu das páginas da revista. Que hoje também sumiu. Assim como o empresário, RIP.

O incômodo de usar personagens reais em ficções fictícias persiste em Amor. “Cito muitos personagens históricos, Nelson Rodrigues, Pelé, Garrincha, Zico, Zagallo, Roberto Carlos… alguns personagens estavam processando a Companhia, na verdade seus herdeiros, no caso de Garrincha e Nelson. Obviamente são delírios, não são biografias objetivas. Mas mesmo assim os editores da Companhia não quiseram reeditar o livro pra não tumultuar os processos que corriam”, contou Sant’Anna à 451. Editado em 1997 pelas Edições Dubolsinho, a estreia do filho de Sérgio Sant’Anna é reeditada agora pela valente Madame Psicose depois de ser reeditada em Portugal, Itália e Alemanha. Quando a escreveu, o escritor mineiro era músico e ainda morava com o pai carioca num apê das Laranjeiras (que hoje pode ser alugado pelo AirB’nB). “É o livro que mais gosto, o que mais curti fazer”, conta. “Escrevi em 1987, depois que levei um pé de uma namorada e estava sofrendo, começando a fazer análise. Daí escrevi sem nenhuma pretensão. Era estagiário numa agência de publicidade, tinha essa força juvenil, sentia aquelas coisas com muita emoção.”

Donos de escritas muito distintas, André e Sérgio eram fascinados pela obra de José Agrippino de Paula – o pai da Tropicália, conforme diz Caetano Veloso em Verdade Tropical. Em seu primeiro livro, Lugar Público, Agrippino usou nomes de personagens reais como Cícero, Napoleão, Isaías e Pio XII, para personagens que perambulavam por uma fantasmagórica São Paulo. O expediente foi magnificado em sua obra-prima, PanAmérica, protagonizada por Marilyn Monroe, Joe DiMaggio, Frank Sinatra, Karl Marx e grande elenco. No entanto, embora conservem características físicas, sociais ou mesmo psíquicas dos personagens reais, Agrippino não usa personagens com profundidade psicológica – estão mais para figuras mitológicas.

O crítico inglês E.M. Forster distingue os personagens da ficção entre planos e esféricos, sendo os planos no nível caricatural parecido com as figuras animadas de Sant’Anna. Pegando o gancho, Antonio Candido indicou Riobaldo Tatarana como o personagem esférico por excelência, dotado não só de multidimensões psicológicas e semânticas como também metafísicas. Já o crítico norte-americano James Wood não vê essa hierarquia colocando os planos no nível mais baixo e os esféricos no mais alto – o importante é se os personagens “engancham”, isto é, se funcionam no nível do enredo, se fisgam o leitor. E o fato é que as figuras de Sant’Anna habitam um limbo entre o plano de Forster e o mitológico de Agrippino. Desgrudando-se da mímese psicológica, partindo daquilo que Roland Barthes chamou de biografema – uma expressão superficial e fragmentária da vida de uma personalidade –, seus personagens são quase memes, figuras conceituais que animam a ficção, flertam com o nível mitológico, porém também servem como metáforas sociais. Sant’Anna “engancha” personagens reais em situações insólitas, usando essa coisa tão ausente na ficção contemporânea brasileira, dependente química do realismo, do naturalismo e da sociologia: a imaginação.

Monotonia, repetição e frases em curto-circuito espessam o estilo de Sant’Anna, que trabalha seus temas de modo musical, como se fossem riffs, licks ou refrões. Os raciocínios tautológicos e rasos e os longos períodos que dão voltas e voltas retornando às vezes ao mesmo lugar lembram Samuel Beckett e Thomas Bernhard. “Acho que é um poema”, define Sant’Anna no prefácio da edição portuguesa da Cotovia, Amor e Outras Histórias – única edição que contém tanto a ficção “Amor” quanto os contos reunidos na seleta Inverdades (7Letras), além de textos como “O importado vermelho de Noé”, narrativa psicodélica sobre uma chuva de dinheiro em Nova York, recordando muito o apocalipse de PanAmérica. “Decidi escrever como se fizesse música, sem esquentar a cabeça, procurando me divertir ao máximo, trabalhando o mínimo”, justifica no prefácio da edição de 2000.

“O Cristo e o governo e as bocetas nesse mundo e aquela cena da cobra engolindo o sapo e os leões devorando as criancinhas que esguicham sangue e o sol secando o sangue das criancinhas e o sangue das criancinhas se decompondo e liberando carbonos e formando petróleo: o combustível do piloto do carro em chamas. O piloto se queimando e derretendo e liberando carbonos e toda aquela angústia o tempo todo. Aquelas palavras e aqueles livros todos explicando as palavras e as palavras dos livros e a história do Cristo, lá, todo ensanguentado na cruz e o sol secando o sangue do Cristo e os vermes devorando o corpo do Cristo e o combustível do piloto de carros em chamas e as crianças esguichando sangue e aquele programa divertido da televisão com o cara explicando toda aquelas palavras e a dor”, abre o romance, em seu ritmo chapado e monolítico, tão parecido consigo mesmo do começo ao fim como o concreto que amalgama as figuras míticas de PanAmérica. Seria André Sant’Anna o último tropicalista?

O narrador anônimo de Amor espia uma metarrealidade brasileira numa espécie de grau zero da linguagem – a burrice a que me refiro no primeiro parágrafo. “Sempre tive essa coisa política de olhar a sociedade brasileira, falando dessas temáticas de inclusão, das tais questões identitárias, só que de um modo irônico, e as pessas confundem”, diz o autor. “Já fui chamado de machista, entre outras coisas. Eu trabalhava todos os preconceitos das causas identitárias, só que falando do ponto de vista do agressor, tentando denunciar a agressão. Então acabam confundindo, achando que eu sou daquele jeito. Mas aquela linguagem que eu usava na ficção é a linguagem que passou a ser usada pelas pessoas 30 anos depois. Por isso é que hoje reeditei o livro de modo rigorosamente igual. Bom, se fosse para sair por uma editora grande, talvez diminuísse o número de ‘bocetas’”, ri Sant’Anna. De fato, se alguém tiver pruridos com o termo anatômico, já vai o spoiler: como fantasmas entre figuras meméticas, são 85 repetições da genitália feminina.

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*Ronaldo Bressane é escritor e jornalista. Publicou o romance Escalpo (Reformatório) e edita a revista Morel

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Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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