João Donato na Pororoca


Um dos mais ilustres acreanos, o compositor João Donato vive no Rio de Janeiro desde os 11. Aos 75, consagrado como precursor da bossa nova – gaveta insuficiente para quem marcou o samba jazz, o jazz afrocubano, a MPB e até o funk – , o pianista segue inventando sua música minimalistamente complexa. Sem apressar a criação, compõe quatro obras ao mesmo tempo – lenta e inexoravelmente, como um rio amazônico

João Donato. Foto Jorge Bispo
João Donato. Foto Jorge Bispo

Perfil que escrevi do fofinho dos teclados para o número 2 da Pororoca – provavelmente a revista mais bonita do Brasil [cortesia Daniel Trench]. Pra quem não conhece – a Pororoca baixa em raras bancas – , é uma revista trimestral criada por Rogério Assis, Everton Ballardin, Trench e Teté Martinho. Especializada em temas amazônicos, a edição # 2 traz Fordlândia, Krajcberg, pirarucus, arte feita com pimentas, tipografia de barcos e muito mais. O Donato, como sabem, nasceu em Rio Branco – onde descobriu a música, aos 7 anos… As fotos foram roubadas do flickr do Jorge Bispo. Entrevistei o gênio em sua casa na Urca por três horas e meia. Detalhe: a 10 minutos da conversa, percebi que tinha esquecido o gravador. Vale muito a pena ir atrás da versão impressa da revista. Se não rolar, segue a matéria na íntegra:

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Mínimo múltiplo incomum

Um dos mais ilustres acreanos, o compositor João Donato vive no Rio de Janeiro desde os 11. Aos 75, consagrado como precursor da bossa nova – gaveta insuficiente para quem marcou o samba jazz, o jazz afrocubano, a MPB e até o funk – , o pianista segue inventando sua música minimalistamente complexa. Sem apressar a criação, compõe quatro obras ao mesmo tempo – lenta e inexoravelmente, como um rio amazônico

Fim de tarde, chuva evaporando, o ar espesso balançava os barcos no Iate Clube, refrescava os esportistas que corriam na orla, brincava nas folhas das árvores da nublada avenida Portugal, dissonava no canto das cigarras. Um dia antigo: sépia, o bairro da Urca tem ritmo próprio, timbres em surdina; recém-banhado pela chuva, recende à intimidade da mulher que vemos sair do chuveiro, a desfilar, encoberta pela toalha, uma proibição e uma promessa. Locação exata para pessoas tímidas – conquanto atentas. É assim o olhar de João Donato: de lado mas incisivo.

Fim de papo, no sofá de 3 lugares em seu estúdio-escritório, no primeiro andar, varanda aberta ao mar e às folhas que swingam: “Tudo é ritmo, entende? É tudo uma dança entre silêncio e som, mais silêncio do que som. Não precisa de firula nem velocidade”, ele fala de sua música, devagar e preciso, buscando as palavras no ar, vez em quando entregando-as ao encarar o interlocutor – de esguelha.

“Vai vir o dia quando tudo que eu diga seja poesia”, disse Leminski. Vendo Donato, penso se, aos 75, sua própria figura já não derive da poesia de seu som. Se o menino é pai do homem, sua arte se torna hábito: com alguma dificuldade, nosso Humpty-Dumpty se levanta do sofá, segue a conversa até a varanda, onde lança frases esparsas que às vezes não terminam, ou começam de novo no ponto em que nasceram, em loopings reticentes… joga o peso do corpo de um pé para o outro, pra lá e pra cá, feito de si mesmo esperto joão-bobo. Como sua música: gingando entre o lullaby e o bugaloo, a cantiga do barqueiro e a pista de dança.

Um homem cioso de uma ausente vaidade. Quando a Pororoca chega ao escritório-estúdio, está sentado ao piano, um Goldman paranaense presenteado pelo pai quando Donato tinha 16 anos – quer dizer, boa parte da história da música brasileira cantou por essa dentadura amarelada. A mão direita brinca em staccato uma melodia em tom menor, enquanto a mão esquerda sustenta um fininho – que ele apaga, à entrada da imprensa. Veste uma camisa tropical, mangas curtas, um botão solto anuncia o umbigo; um bermudão com folhas de cannabis estampadas; nos pés, havaianas – e, no colo, ufa, um gravador (graças a ele é que temos esta entrevista; o Saci Pererê privado do repórter havia subtraído o item indispensável da mochila).

“Estava gravando umas melodias pra não esquecer”, justifica-se, apontando uma estante lotada de fitas cassete com 50 anos de anotações. Vindo de turnê no Japão, comemorando justamente o aniversário da bossa-nova, em dois dias partiria para a Alemanha pelo mesmo motivo. Aos que se equivoquem com seu anti-estrelismo e aparente preguiça em vincular-se somente ao movimento cinqüentenário, é bom que se lembre que Donato é dos mais importantes músicos brasileiros em atividade: pré-bossa, foi colega de Tom Jobim e João Gilberto; nos dez anos de EUA tocou com jazzistas do naipe de Mongo Santamaria, Bud Shank e Chet Baker; de volta ao Brasil, destacou-se pelas parcerias com Caetano, Gil, Gal e Bethânia; hoje, como sempre, se liga na linha de frente, urdindo com craques como Kassin, Thalma de Freitas, Marcelo D2. Em seis décadas, criou um jeito único de pensar música, de melodias fluidas e intrincadas harmonias – uma trajetória que breve poderá ser vista no documentário Simplesmente Donato, de Tetê Moraes.

Muitas espirais de lembranças passeiam na sala ampla, resvalando nas dezenas de batráquios verdes que pulam pela casa – afinal, ali mora o autor de “A rã”. A jornalista gaúcha Ivone Belém, sua musa há 7 anos, aparece com café e rosquinhas – Donato prefere acender alguns Hollywood. Debatem se vão ou não ao show de Michel Legrand… até que a leseira vence e o repórter ganha mais duas horas e tanto de papo relax. Depois de falar dos quatro álbuns planejados, recordar paisagens sonoras da Rio Branco natal, discorrer sobre processos de criação e a música do silêncio, o oval velho-menino autografa um exemplar de A bad Donato já de olho no sanduíche de romeu-e-julieta preparado por Ivone (conquistada com um beijo roubado, conforme ela conta na cozinha, à queima-roupa depois de um show em Brasília).

Mais tarde, na avenida calma, entre o marulho das ondas e as insistentes cigarras, ouve-se o mesmo tema em stacatto de três horas antes. Ainda bem que meu Saci particular não bagunçou a memória do mestre.

João Donato: entrevista para a revista Pororoca # 2

João Donato. Foto Jorge Bispo
João Donato. Foto Jorge Bispo

De Rio Branco ao Rio de Janeiro
Toda música é uma reminiscência de alguma coisa… Às vezes uma imagem antiga lembra uma melodia, às vezes o contrário. O que lembro é da floresta, dos rios, dos peixes, o avião do meu pai, festas… Ah, apareceu um circo, fiquei fascinado por aquilo. Me aproximei de uma menina que era filha de um trapezista e me apaixonei. Outra paixão foi a Nini, uma menina de 7 anos, eu tinha 8. Pra ela fiz a primeira canção, “Não posso viver sem Nini/ não posso viver sem amor”… Era uma menina linda, cabelos castanho-claros. Num show em Brasília, 4 anos atrás, a reencontrei: aos 75 anos, estava igualzinha…

Nessa mesma época, na beira do rio Acre, eu vi uma canoa passando e um barqueiro assobiava uma melodia melancólica… aquilo nunca mais saiu da minha cabeça. Tudo o que fiz foi em torno dessa música [cantarola], “Índio perdido”, que depois, já aqui no Rio, com a letra do Gil, virou “Lugar comum”… A canoa descia com essa melodia ao cair da tarde. Cheguei em casa emocionado com a melodia. Era muito criança para entender aquele sentimento de nostalgia… um troço engraçado… uma espécie de alegria com a saudade: e eu com sete anos não tinha experiência pra ter saudade de nada. Achei muito bonito, e como é simples demais, mantenho como uma espécie de padrãozinho, de guia de como a coisa pode ser singela e comovente.

É o norte para minha música: é por esse lugar que eu navego. Procuro não ir longe desse desenho. E sempre busquei esse sentimento triste-feliz, porque a música causa esses efeitos nas pessoas. O Concerto 3 do Rachmaninoff sempre me leva às lágrimas. Há músicas que fazem mal ao ser humano, contém muita angústia, incompreensão, pesar… Eu saio fora disso. Afinal, eu quero ser feliz! Fujo desses sentimentos rancorosos, enraivecidos, odientos, angustiantes. Uma vez, um amigo pediu um tema, eu procurei nas minhas anotações e passei pra ele. Mas quando lembrei do que era, joguei tudo fora. Eu estava muito negativo quando havia feito isso: falei pra ele, vou trocar essa música por um sentimento positivo…

A música é muito forte, te penetra como um raio laser. Tem a missão de alegrar, de ser um bálsamo, de relaxar os sentidos e trazer coisas esperançosas. Músicas maliciosas, maldosas, malfeitas, feitas para enriquecer, não me interessam. Música ruim é prejudicial à saúde. E o volume do som precisa ser confortável [carros passam na avenida, pássaros cantam]. Se é barulhenta, a música acaba virando mais um ruído na cidade: não faz diferença.

Projetos, projetos
Vou gravar um disco com meu filho Donatinho. Vai ser uma coisa refrescante, não queremos tomar banho numa banheira sem mudar a água, sabe? Banalizar a música é como tomar banho numa espuma velha. Vamos criar tudo em conjunto, não tenho idéia de como será, não tem nada pré-estabelecido. Não, nunca ensinei meu filho a tocar! Ele foi se matricular numa escola de música sozinho. Desde cedo se interessou pelo piano, porque eu sempre o deixo aberto, mas nunca incentivei. Foi mais nossa convivência. Ele é talentoso, toca com a Vanessa da Matta, já produziu um disco do Djavan, com o Liminha… Quero ver como vai ser comigo!

Donato by Bispo
Donato by Bispo

Circo no Acre
Naquele circo que falei, me pediram pra tocar uma música – foi a primeira vez que toquei em público, devia ter uns 8 anos. Era muito amigo do pessoal do circo… e apaixonado pela bailarina. Convidamos o anãozinho pra morar em casa, meu pai deixou… Eu era fã do cara que andava no Globo da Morte, dos trapezistas… Agora em São Paulo eu tava fazendo um programa sobre a a minha vida e apareceu a menina, a bailarina Ilda: tinha se casado com o cara da motocicleta! É motivado por esse circo que estou criando um disco só de canções circenses.

A bad Donato 2
É uma história com o Kassim, mas é outra proposta. Vai ter que esperar um pouco, até terminar esse disco com o meu filho. É uma coisa de cada vez! Ainda não sei como vai ser a ligação com o A bad Donato, mas tem tudo para ser mais elétrico. Na época do primeiro, a idéia era tocar um monte de instrumentos elétricos que nunca tinha tocado. Gravamos em 10 dias. Primeiro as bases, Oscar Castro Neves, Dom Um Romão… o Eumir Deodato me ligou, escutou a gente ensaiando e perguntou “Tá boa a festa aí?”, eu falei que era nosso disco – aí ele se convidou para fazer os arranjos.

Ficamos mais 5 dias em Los Angeles nisso: indiquei a ele que o caminho era James Brown. Acho que o Bad Donato serviu pra falar: olha, vem por aqui… Na época tocava Hendrix, Janis, uma barulheira… ouvia Beatles a contragosto, achava água com açúcar demais… E sempre fui contra esse negócio de ídolo, ainda não gosto. Gosto é de jazz e música latina. É fundamental a música ter um balanço próprio. Não uma coisa feita para dançar, mas que contenha um grau de swing físico. Um chama de swing, outro de groove, outro de balanço. Se a música não tem esse componente, um vento que balança nas folhas das árvores, ela dá sono.

Ravel e Debussy
É outro projeto, que inclui o Jacques Morelembaum. A idéia é pegar trechos de músicas orquestrais deles e modificá-los. Inspirar-se somente as passagens, as células musicais escondidas. Olha que lindo, as cigarras… [Chega a noite, o canto das cigarras invade a conversa] A música sinfônica leva muito tempo: ali nas composições de Ravel e Debussy tem muitos pedaços lindos, perdidos, coisas deliciosas que duram segundos. Fiquei fazendo loops dessas passagens. É como um lindo pássaro que passou e você diz: ‘vocês viram?’, e seus amigos: ‘não, não vimos’… É questão de fazer esses pássaros passarem pela janela umas 4 vezes para que os amigos vejam pelo menos uma vez… É como desentranhar esses pássaros perdidos no fundo do mar.

[Busca um CD e coloca no player] É isso, tá vendo? [Passa um avião] Tô fazendo esse apanhado para gravar um CD. Olha que lindo isso com as cigarras… Me encanta nesses dois é a harmonia, mas, analisando instrumento por instrumento, deu pra ver que usam ritmos entre os instrumentos de segundo plano, de maneira agradável e gostosa, algo não perceptível à primeira audição. Até coisas que chamam de bossa nova a gente ouve lá, entre um silêncio e outro, atrás daquela outra coisa acontecendo em primeiro plano. Tenho coleções e partituras inumeráveis deles, muitos e muitos Boleros, por exemplo [aponta uma estante forrada de obras da dupla]. Compro tudo! Preciso desses camaradas perto de mim o tempo todo, são os mais modernos, sem precisar ser exóticos nem pendurarem melancias nos pescoços. Gosto do impressionismo, essa tentativa de recriar musicalmente uma nuvem, o mar, o luar, reflexos na água… [Um cachorro late na rua] Agora estou fazendo uma música sobre o mar. Um dia deu um temporal, o mar ficou agitado, resolvi aproveitar pra escrever isso. Talvez se torne uma sinfonia…

Donato by Bispo
Donato by Bispo

Nunca se esqueça: grave tudo
Tem hora que você toca uma coisa e passa pro papel, tem hora que você pensa e já escreve, o ouvido interno te diz que aquilo é aquilo. Uma vez, acordei com a melodia de “Amazônia”. Eu tava no maior sono… Tou ouvindo essa música dormindo – e pensei: preciso acordar pra escrever, se não vou esquecer. Fiz isso! Estava influenciado por uma história do Duke Ellington, que li num livro comprado por 97 centavos num supermercado em Los Angeles, How to write a song. O Duke dizia: quando você tiver uma idéia, tome nota ou grave. Acordei, escrevi as notas e voltei a dormir, tranqüilamente…

Não faço isso sempre; não virou tique. Mas ter a idéia e não gravar é como jogar fora um maço com os cigarros dentro. Tenho anotações de todos os tempos. Tem hora que eu olho assim, uma musiquinha de 1959… vou lá, ver que tipo de idéia era aquela. E aí você até pode, motivado por aquilo, se perguntar: que teria sido isso quando foi anotado, numa hora dessas? Pra que que serve? Pode não dar em nada… Mas quando sinto que é algo tipo [cantarola “Garota de Ipanema”], anoto. Tudo é uma repetição do que já foi feito. O Tom Jobim me disse que quando a gente é verde, a gente imita; quando a gente amadurece, a gente rouba mesmo! Por isso ele rouba um Chopin [cantarola uma bossa] e diz que é dele – e tudo bem! Não adianta deixar de percorrer os caminhos já percorridos só porque já foram percorridos.

Outra vez mostrei uma música ao Tom e disse que era bacana – mas que parecia algo já feito, e eu não sabia o que era. O Tom respondeu que, se lembra outra coisa, é bom: todo mundo vai se lembrar daquilo de uma boa maneira. Não adianta fazer algo diferente e ninguém gostar. Se a música é boa, primeiro tem que fazer sentido para mim. Quando a canção faz sentido, causa alegria, contentamento, está autorizada a navegar. Eu não sou o único que acha o pôr do sol bonito [passa um caminhão]… outros também devem achar – porque eu não sou maluco, não rasgo dinheiro. Li o Verissimo dizendo que não se acha bom músico, mas num dia tocou um negócio tão incrível que deu vontade de pedir autógrafo pra ele mesmo. É por aí! A melodia vem por encanto. Esse método de estabelecer horário, como quem vai para uma academia de ginástica, pra mim não funciona. Não sou uma usina: deixo que aconteça.

Lacônicos X prolixos
Verissimo fazia uma divisão entre Horace Silver e Oscar Peterson. Você atinge melhor a emoção usando poucas palavras: o que disse, como, quando. Horace, por não ter a capacidade de usar tantas notas tão rápidas, usa poucas. Como uma arma. Chet Baker é outro exemplo: as poucas notas que ele toca te deixam contente. Esse foi meu norte. Nunca me dediquei a usar o piano como virtuose, sempre me encantaram mais os encadeamentos dos acordes do que a velocidade das passagens. Luiz Eça era o contrário, e eu admiro. Mas procuro tocar com o silêncio.

Os caras de quem sou fã são os que tocam pouco. Charlie Parker e John Coltrane eu admiro por outras coisas… pelo aspecto espiritual. Mas essa coisa de passar correndo por uma escala como se não fosse nada, como se estivesse se exibindo, você nem olha por onde está pisando, não emociona… vira clichê. Aqueles meninos do violão… Rafael Rabello, Yamandu Costa: não sou tocado por essas coisas. Impressiona que é uma beleza; mas gosto é do Miles Davis. A gente tem que se conformar com as limitações – e minha ambição nunca foi tocar piano com rapidez, meu negócio nunca foi ginástica olímpica. Prefiro usar essa limitação como uma vantagem. Pra que tocar três notas no lugar de uma?

Transcendência
Sou evangélico. Faz uns 30 anos, desde que voltei ao Brasil. Estava muito nervoso, uns amigos me levaram a uma igreja pra desacelerar. Tinha saído daqui porque não gostavam da minha música, e por isso fui procurar outro caminho nos EUA. Aí quando voltei acabei entrando para essa igreja. Mas nem freqüento muito. Sorte? Não acredito na sorte… mas que ela existe, existe! Religião é minha música. É um mistério, não dá pra traduzir em palavras. Ela nasce onde os significados das palavras não mais alcançam. É o que está mais perto do céu.

O som mais antigo
Desde o começo estive sempre entre esses dois caminhos… daquela música para a menina e da música que ouvi do barqueiro. Os sons mais antigos que me lembram vêm dessa época, da floresta amazônica, de rio correndo, remo de canoa batendo na água, chuva no telhado, goteiras pelos cantos da casa, pássaros cantando, folhas balançando… e músicas da banda de música do quartel, de que meu pai participava. Meu pai era capitão, se tornou aviador, virou major, foi o primeiro piloto acreano, ajudou a compor o mapa da região em seus detalhes. Deu aula de aviação para acreanos como o jornalista Armando Nogueira. Ele gostava de bandolim, mas quem estudava piano era minha irmã: tocava num Beckstein de ferro… até hoje sinto saudade de ouvi-la tocando aqueles hannon, aquelas escalas infinitas, eu estava dormindo na rede e acordava com aquilo…

Aí ia lá depois e mexia no teclado, em pé mesmo. Daí não parei mais. Meus pais me deram uma sanfoninha de papelão, eu tocava ali música que ouvia no rádio, Carlos Galhardo, Francisco Alves, Orlando Silva, Dircinha Batista, Dalva de Oliveira. No colégio tem a turma do futebol e a da música: sempre me envolvi com os músicos. Ouvia discos na casa dos amigos… a música que me lembro mais é da banda militar do meu pai, aqueles conjuntos tocando nas festas. Músicas deles, arrasta-pé, levanta-poeira, músicas que tocavam no rádio, tangos famosos, guarânias populares [Pássaros cantam ainda mais alto]. Lembro de eles tocando “Aquarela do Brasil” com uma marcação do ritmo lá meio indígena, tcham, tchi-ki-tcham-dam-dam, tchi-ki-tcham-dam-dam, não era aquele sambinha carioca.

Só quero sossego
É difícil encontrar um lugar tranqüilo no Rio de Janeiro. A Urca parece uma ilha. Tem o mar aí, as pessoas andam a pé, velhos, crianças, moças, não tem neurose. Procuro ser uma pessoa tranqüila. Tenho crises como todo mundo, mas meu ideal é o sossego. Sabe, eu tenho tudo o que eu quero… porque eu não quero nada! Não gosto de agitação: sempre fui pacato, longe de badalação. Onde tem festa e muita gente, não vou. Sou o contrário do Caetano [risos]. Não gosto de multidão. Carnaval, estádio de futebol… só de me imaginar ali tenho um ataque de pânico [Um helicóptero passa].

As pessoas vivem com pressa. Parece que sempre tem algum negócio que tá faltando em algum lugar. Você convida para um café e ouve ‘não tenho tempo’… As pessoas inventam tantos compromissos que nem conseguem cumprir a agenda. Você está com alguém às 3 e te dizem ‘toma um cafezinho’, e você ‘eu não posso, tenho um compromisso às 4’. E às 4 deixa de tomar um cafezinho por causa do compromisso às 5. Perde 3 cafezinhos por causa de alguma coisa que nem você mesmo sabe! Será que é bom que seja assim?

Silêncio
Até hoje tenho dificuldade em achar um dia igual ao dia da maioria das pessoas. É que gosto daquela sensação das três e meia da manhã, quando parece soar um silêncio total no mundo. É calmo, tudo pára, um silêncio quase que absoluto, nem carro nem ônibus passa, nem rádio nem telefone toca, nem nada, nem coisa nenhuma… Dizem que é nesse momento que você ouve a voz de Deus. Pode ser verdade, porque me vem muita música nessa hora em que o silêncio é silêncio, um silêncio comum, natural. É bem aí que eu começo a ouvir um bocado de… música. Começo a ter uma relação mais íntima com o criador, e fico meio que conversando comigo mesmo. Eu pergunto e eu mesmo ouço a resposta. Mas enfim, quem me dá essas orientações? Não sou eu…

Autor: rbressane

Writer, journalist, editor

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