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Que maravilha poder te alcançar


Que maravilha poder te alcançar via skype, estava com saudade das nossas conversas, outro dia vi uma cena que precisava te contar. Tinha ido jantar sozinha, naquele bistrô que a gente costumava ir, e como sempre fico de olho nas outras mesas, imaginando como são as vidas das outras pessoas, no que trabalham, se são felizes, se assistem Chaves ou Seinfeld, se andam de SUV ou de bicicleta, se escolhem Mac ou Android, se fazem sexo loucamente ou se já são parte daquele condomínio de gente que só finge que faz mas no fundo tem nojinho. Aí de repente me peguei sacando esse casal que tinha acabado de chegar: muito elegantes os dois, o cara numa jaqueta de couro marrom de motoqueiro, a garota um tubinho preto e umas meias cor de fúcsia (fúcsia, adoro essa palavra) e o cabelo preso no alto da cabeça, os dois muito bonitos, magros, lógico, com aquela cara de quem já assistiu todos os filmes que estão em cartaz na cidade. Cada um deles falava com alguém no celular, os dois muito animados em seus papos. Até que veio o garçom e meio que eles tiveram de desligar, parece que não gostaram muito disso, o garçom os forçava a ter de sair das bolhas, ou então fosse somente uma impressão minha, fato é que eles acabaram pedindo o que o garçom lhes sugeriu, meio que para dispensá-lo, e pouco depois chegou uma garrafa de vinho. Quando o garçom se afastou e eles se preparavam para o brinde, o cara tirou do bolso de dentro da jaqueta uma caixinha de veludo preto pequena, e estendeu em direção da moça, aí me peguei emocionada, porque, lógico, só poderia ser uma coisa. A garota se deslumbrou: era uma aliança de ouro branco, bem grossa, com uma espécie de linha sinuosa em ouro velho no interior do anel, e a moça logo botou o anel no dedo e ficou olhando pra ele de ângulos variados, estendeu a mão, levantou e deu um beijão no cara, agora sim eles pareciam bem felizes. A moça teve uma idéia: fotografar o anel? Claro que sim, e daí ela fotografou, e ficou lá mexendo no celular dela um tempo, parecia que estava escrevendo algumas coisas, e o cara também fotografou ela fotografando o anel, e ela fotografou ele e ele fotografou ela, e se fotografaram juntos com o anel em primeiro plano e quase que eu fotografei eles da minha mesa de tão lindos e felizes que estavam. Ficaram um tempo encafifados com os textos que metiam nos celulares, até que chegou a comida. Mas aí os celulares de cada um dos dois começou a tocar sem parar. Eram pessoas que, imagino, devem ter visto as fotos deles na internet, em alguma rede social, e ligavam para dar os parabéns, e aí eles começaram a comer enquanto recebiam os parabéns, obrigado, obrigado, era só o que eu via seus lábios se mexerem, comiam e agradeciam, também tive vontade de agradecer por ver aquela cena, porque eu estava entendendo alguma coisa misteriosa sobre a vida e o amor e o casamento e a nossa época, você está me entendendo, ei, você está me escutando, será que dá pra parar de mexer só um pouquinho nesse treco enquanto eu falo?

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Conto publicado na edição 7 da revista seLecT

Um guia para o mundo das aparências


Houellebecq fede, mas menos do que um cadáver

Resenha para o Guia da Folha Livros Discos Filmes de junho

O mapa e o território é puro Michel Houellebecq: aquele texto cinzento, dois comprimidos de Rivotril abaixo do resto da humanidade. Jed Martin é um artista abúlico. Seu pai, ex-arquiteto que ficou milionário construindo resorts cafonas para novos ricos, é seu único elo: a mãe se suicidou quando Jed era criança. À parte o interesse em pintar flores na adolescência, Jed só vira artista quando usa a câmera do avô para fazer com amor de entomologista “a fotografia sistemática de objetos manufaturados de todo o mundo“. Sua primeira exposição, Trezentas fotos de ferramentas, é um sucesso. Prosseguindo no “realismo serial”, depois de uma densa depressão Jed é “iluminado” pelo registro obsessivo de mapas da Michelin, em mostra aplaudida por público e crítica. Nesse ponto, a linguagem distanciada de Houellebecq, iluminada por mordacidade a frio, torna-se semelhante ao jargão metido da crítica de arte – e não poucas vezes o autor recorre à própria Wikipedia para pastichar o texto com parágrafos vazios e empolados. Já a descrição do circuito cultural é mais corrosiva.

Jed não precisava ser brilhante, o melhor quase sempre era não falar nada, mas era indispensável escutar seu interlocutor, escutá-lo com gravidade e empatia, às vezes reanimando a conversa com ‘Sério?’, destinado a denotar interesse e surpresa, ou um ‘Sem dúvida’ (…), uma neutralidade cortês que lhe dava a impressão de artista sério“.

A sorte sorri para Jed quando a Michelin patrocina seu site, através de uma diretora russa, Olga – uma Maria Sharapova do mundo das comunicações, com quem ele emenda um caso; o sucesso desperta a irritação de notáveis como o escritor Frédéric Beigbeder (amigo de Michel Houellebecq na “vida real”). Após longa depressão, Jed tem nova epifania: volta à pintura e cria 42 quadros gigantes retratando profissionais, de açougueiros e prostitutas ao próprio pai-engenheiro até culminar em Bill Gates e Steve Jobs discutem o futuro da informática – e os conceitos de acumulação, de escala e de flerte com a fama fornecem ao autor de Plataforma elementos para brincar com o status da arte e suas relações espúrias com o vil metal (Damien Hirst e Jeff Koons surgem como extras). Então a narrativa dá um nó, pois, para escrever o catálogo da exposição, Jed convida ninguém menos que… o escritor francês Michel Houellebecq.

A descrição que o narrador faz do escritor é comicamente inspirada na persona midiática de Houellebecq, misantropo, bêbado, chato: “Fedia um pouco, embora menos do que um cadáver“. Engenhosa, essa construção mise-en-abîme será revestida com um evento altamente inverossímil que inspira ao milionário artista Jed nova revelação estética – quando cria uma obra que entrelaça produtos industrializados e a natureza. “A superfície gigante e enrugada do mar, como a pele de um velho em fase terminal“: essa rara descrição lírica exibe a moral de Houellebecq – em que tudo o que é humano está morto e contamina irreversivelmente o belo e o verdadeiro.

Nada se parece tanto com O estrangeiro de Camus quanto a escrita convencional e sem brilho do autor francês, quase kafkiana em sua assepsia – o que o avizinha de JG Ballard, notório também por demonstrar com ironia gelada a caducidade do indivíduo da era digital, soterrado pelo avanço tecnológico, que torna trabalho, afeto, arte e mercado a mesma e tediosa coisa. No mundo em que o amor se tornou mera mediação dos desejos via máquinas, Houellebecq é, senão profeta, um satírico, leal e monótono guia.

Memória versus esquecimento


A última “invenção” de Steve Jobs, o iCloud, promete salvar toda a sua vida em rede. Quem precisa de tanta lembrança? Pra cada inventor que cria coisas como a infinita e-memory, como o cientista Gordon Bell, há quem afirme: o melhor caminho para pensar é esquecer – caso do escritor Joshua Foer e do professor Mayer-Schonberger (todos bebendo na fonte do memorável Borges). Pensata-playground para a revista V (também dá pra ler aqui, página 68)

Lembrar demais nos faz idiotas? (Ilustra by Guilherme Lepca)

Imagine se deparar de repente com uma foto sua meio ruim. Foi o que me aconteceu quando fui fazer uma palestra sobre literatura em uma cidadezinha do interior do Brasil. O mediador da conversa, um afável professor de História, ao me apresentar se pôs a ler um currículo que eu havia escrito… treze anos antes. Foi engraçado e assustador. O texto escrito para a orelha do meu primeiro livro dizia coisas como “Bressane detesta axé, pipoca e leite“. Na época eu achava orelhas de livro idiotas – mas hoje acho mais idiota fazer gracinhas nas orelhas de livro. Mais idiota ainda, decerto, é acreditar em tudo o que se lê na rede; tanto é que o desorientado mediador começou o papo literário lançando-me a candente questão: “Por que você não gosta de pipoca e leite?“.

Mais eternos que os diamantes, só as bobagens que publicamos na internet. Pode apostar: aquela couve que ficou no seu dente em uma despretensiosa feijoada no início do século e foi fotografada por um amigo e jogada em um velho blog, quando vocês eram estudantes divertidos, ainda estará lá, impavidamente verde, tão logo um possível empregador der uma busca sobre você no Google e clicar no vigésimo primeiro link. A rede é o Supremo Elefante: nunca esquece de nada.

Imagine acordar amanhã e descobrir que toda a tinta do planeta se tornou invisível e que todos os bytes desapareceram“, pede o escritor Joshua Foer no livro A Arte e a Ciência de Lembrar Tudo: Memórias de Um Campeão da Memória (Rocco). Continuar lendo

Fora de lugar

Karen Blixen por Stephen Alcorn

A história de Karen Blixen, uma dinamarquesa que viveu aventuras na África que, quando voltou à terra natal, não se reconhecia mais como européia. Vivia entre a realidade e a fábula. Matéria de capa da revista MIT

Karen Blixen era uma mulher fora de lugar. Do começo ao fim de sua longa vida, a inadequação de existir foi sempre uma chave para a interpretação do mundo. Hoje é uma das senhas que permitem o entendimento de uma vida e uma obra tão fascinantes quanto enigmáticas.

Karen Dinesen Blixen nasceu em 1885 em Rungstedlund, Dinamarca, numa família de longas tradições aristocráticas porém já decaindo para a classe média. A mãe, a unitarianista Ingeborg Westenholz Dinesen, foi a primeira dinamarquesa eleita para uma câmara de vereadores. Quando Karen tinha 10 anos, seu pai, o militar, escritor e desportista Wilhelm Dinesen, suicidou-se – provavelmente movido por um ataque de nervos causado pela sífilis. Karen estudou em Copenhage, Zurique, Paris e Roma, e desde sempre o sangue ferveu na direção da literatura e da aventura. Começou a publicar cedo, aos 22, já usando um pseudônimo: Osceola, nome de um famoso líder indígena seminola (o pai de Karen havia vivido um ano entre os índios chippewa; outra hipótese para o suicídio teriam sido as saudades da vivência selvagem na América).

Karen levava uma juventude um tanto sufocante – e, enquanto publicava contos nos jornais locais e participava de modorrentos jogos de salão, sonhava com um título aristocrático e uma vida menos ordinária. A chance para fugir da doce porém chata existência burguesa veio através de um primo sueco, o barão Bror von Blixen-Finecke. Karen havia se apaixonado por seu irmão gêmeo Hans, que não queria nada com ela; Bror, mais focado em aventuras, tampouco pretendia levar uma vidinha de casado; assim, um arranjo entre os independentes jovens poderia ser interessante.

O pacote de casamento incluía uma fazenda no Quênia, no planalto ao norte de Nairóbi (na verdade, um sítio de 2 milhões de m2, mais tarde de 20 mi). A decisão de ir para a África foi determinante em toda a vida de Karen – e recebida com espécie na sociedade dinamarquesa; afinal, no início do século 20 não era nada natural que mocinhas da sociedade se metessem em um continente ainda desconhecido e selvagem. Continuar lendo

Uma ruga circunflexa e umbilical

“- Minha oferta é a mesma.
– É muito baixa – disse Quinto, embora já estivesse decidido a aceitá-la.
A cara do homem, larga e carnuda, era como feita de uma matéria demasiado informe para conservar lineamentos e expressões, e estes eram logo levados a desmanchar-se, a desmoronar, quase sorvidos não tanto pelas rugas marcadas com certa profundidade apenas nos cantos dos olhos e da boca, mas pela porosidade arenosa de toda a superfície do rosto. O nariz era curto, quase achatado, e o excessivo espaço deixado à mostra entre as narinas e o lábio superior dava ao rosto uma ênfase ora estúpida, ora brutal, conforme a boca estivesse aberta ou fechada. Os lábios eram altos em torno ao centro da boca, como aureolados de ardor, mas sumiam inteiramente nas extremidades, como se a boca se prolongasse num corte fino até a metade da face; isso lhe dava um aspecto de tubarão, reforçado pelo escasso relevo do queixo sobre a garganta larga. Porém os movimentos mais inaturais e penosos eram os que diziam respeito às sobrancelhas: ao ouvir, por exemplo, a seca resposta de Quinto ‘É muito baixa’, Caisotti fez que ia recolher as sobrancelhas claras e ralas no meio da fronte, mas só conseguiu erguer um meio centímetro de pele sobre o ápice do nariz, fixando-a numa instável ruga circunflexa e quase umbilical; repuxadas para cima por esta, as curtas sobrancelhas caninas, de caídas que eram, se tornaram quase verticais, ambas trêmulas no esforço que as mantinha tesas, propagando sua crispação para as pálpebras que se retorciam numa franja de ruguinhas minúsculas e vibrantes, como se quisessem esconder a inexistência dos cílios.”

> Felizmente não havia ainda botox na Itália de 1956 – ou não leríamos essa beleza de descrição de um empreiteiro em ascensão, o vilão de A Especulação Imobiliária, de Ítalo Calvino.

Tsunami prateado

Retrato de Amis quando angry young man

Para o romancista inglês Martin Amis, o avanço da medicina e o aumento da expectativa de vida não contemplam a difícil questão da senilidade. Ferrenho defensor da eutanásia, ele acaba de lançar o livro A Viúva Grávida, em que um homem de 60 anos observa seu passado durante a revolução sexual. Falando à ALFA #11, Amis afirma: “Não consigo pensar em nenhuma razão para prolongar a vida depois que a mente se foi”

Tão logo completou 61 anos, Martin Amis mal punha o pé para fora de casa que já escutava xingamentos e gozações dos vizinhos. Satirista brilhante, um dos grandes romancistas ingleses vivos, perdeu totalmente o respeito dos sexa, septa ou octogenários de seu bairro quando, há dois meses, fez um exercício de futurologia no jornal The Guardian em que evocava a imagem do “tsunami prateado”.

“Daqui a alguns anos haverá uma população de velhos muito senis, como uma invasão de imigrantes horríveis, fedendo pelos cafés e restaurantes”, disse. E o que fazer com os velhotes? Simples: Amis sugere “haver um estande de eutanásia em cada esquina, onde você pode pegar seu martíni e sua medalha”. Hoje existem cerca de 900 mil links relacionando “Amis + Eutanásia” no Google. À ALFA, falando por telefone de sua casa em Londres, mastigando vorazmente um chiclete, seu tique característico, Amis admite ter tirado onda. “As pessoas extraem a frase do contexto. Mas, sinceramente, não quero pisar com cuidado neste tema, nem editar a mim mesmo. Não foi um ataque aos velhos: eu estava fazendo uma digressão sobre as complexidades legais. Mantenho meu ponto de vista: você precisa ter meios de dar um termo à sua própria vida.”

Mas e a transcendência? Além das tragédias já ocorridas em sua vida – morte da irmã, do pai, de amigos –, ele vive de perto uma fatalidade em curso: o câncer no esôfago de um seus parceiro de longa data, Christopher Hitchens. “Em matéria de transcendência, eu estou à direita de Hitchens”, brinca ele – Hitchens é conhecido por sua controvertida profissão de fé no ateísmo. Não é na religião que Amis busca transcendência, e sim na arte em si – em sua voraz entrega ao trabalho: mal entregou as caudalosas 600 páginas de A Viúva Grávida (Companhia das Letras), já está imerso em outro romance.

Parece uma contradição, mas mesmo a defesa que este sexagenário faz do direito à eutanásia é vitalista – e ele não se coloca fora do assunto. Quando se comenta que seus comentários sobre o “tsunami prateado” tenham ofendido idosos, Amis – que já é avô – rebate, ironicamente: “Bem, eu mesmo não estou a milhões de milhas longe disso”. Ele lembra o quanto é pessoal esse drama ao citar a filósofa irlandesa Iris Murdoch, uma amiga que estava desesperadamente doente e tentou ir à Suíça para procurar a organização Dignitas, que oferece cuidados paliativos.

“No fim, ela não conseguiu; acabou sendo vencida pela burocracia. É muito terrível sentir que a vida pode ser algo de que você não consegue escapar, como uma prisão. Iris era uma amiga que eu amava. Ela era maravilhosa. Lembro de conversar com ela quando soube de sua doença e ela disse: ‘Entrei num lugar escuro’. Até mesmo a consciência da perda se vai, entende. Você não sabe mais que desperdiçou um dia assistindo Teletubbies. A coisa simplesmente desaparece.” Continuar lendo

Já deu, Zé!


Rubem Fonseca em versão ruim (ficção) e boa (autoficção)

Querido Zé,

quem te escreve não é só um resenhista ranheta ou um fã que leu todos os teus livros. É também um escritor de uma geração que foi irrestritamente influenciada pela obra de Rubem Fonseca – em especial, teus mais que perfeitos contos. Nessa qualidade, te peço: chega. Teu novo livro, Axilas e outras histórias indecorosas, é mais do mesmo que vem sendo feito na última década, o pó do teu pior. Em um processo semelhante ao que vem acontecendo com os recentes livros do também grande Dalton Trevisan – nascido no mesmo 1925 –, teus novos contos são ossaturas das narrativas bem postas de outrora, expostas tanto em clássicos como Lúcia McCartney (1969) quanto no bom e recente Pequenas criaturas (2002). Mas ideias, personagens, situações e linguagem soam ainda mais repetitivos. O envelhecimento, em especial do corpo, um tema recorrente, é enfocado quase do mesmo modo nos contos do Axilas – psicopatas que se queixam das engordadas mulheres, por exemplo, se repetem em três histórias. E as mulheres nunca foram tão maltratadas como aqui. Triste, a quem se lembra das maravilhosas namoradas do Mandrake, ler as insossas donas de Axilas – duas, tão chatas, têm o mesmo fim: defenestradas pelo narrador. Tuas taras já foram mais perversas: agora contentamo-nos com um sujeito que lambe sovacos e outro que morde bundas. E os enredos redundam sem pudor (a estricnina da página X volta na Y; dois assassinatos são mascarados como latrocínios). Saí da leitura achatado e chateado.

Desta safra, contudo, se salva José, exemplar de um gênero original: a autobiografia não-autorizada. Afinal, como tu, este subreptício José é filho de portugueses, nasceu em Minas, foi viver no Rio, onde vira advogado… O livro interessa por apresentar tua família, primeiras leituras, até mesmo primeiros amores. Uma cena sensacional lança um sentido à tua obra: em uma visita ao zoológico, José afirma que, de todos os animais, o favorito é uma escavadeira ali estacionada. Nada mais sugestivo de um autor que efetuou a passagem de uma literatura de feras aprisionadas à escrita de olho livre no urbano. Fico na torcida para que um possivel segundo volume de José trate da tua misteriosa atividade na época da ditadura e do tempo glorioso de obras-primas como A coleira do cão. Desculpe o mau jeito, mas amigos avisam da couve no dente.

Fica o abraço do

RB.

[Publicada no Guia da Folha / julho]

Tudo azul para o tarja-preta

Perfilete do amigo Lourenço Mutarelli para o caderno Outlook, do Brasil Econômico

Mutarelli por Mutarelli

Mutarelli por Mutarelli

Romances, drogas e cartões de crédito

Como tem lidado com o reconhecimento o multiartista Lourenço Mutarelli, que lança dois livros e vive no cinema papel escrito por ele mesmo no romance O Natimorto

Mutarelli está feliz, hiperprodutivo, mas anda meio paranóico. Enquanto tenta reduzir o consumo do Lorax, tranqüilizante que o embala há 15 anos, mantendo diariamente uma Sertralina rebatida com meia garrafa de Chivas, estréia como protagonista em O Natimorto, filme baseado no romance homônimo, e lança Miguel e os demônios, trama policial que equilibra em doses iguais múmias, travestis, possessão e pedofilia. Contudo, não são as drogas nem as insólitas obras que lhe trouxeram mania de perseguição – e sim a fama, inusitada aos 45 anos deste desenhista/escritor/ator.

A quem se espante com a naturalidade em tocar no assunto drogas, Mutarelli é ambíguo. “Não faço apologia. É uma questão pessoal, de saber usar. A droga faz parte da minha vida”, afirma este ex-gerente de farmácia, fã do notório drug abuser William S. Burroughs. Já a fama, este poderoso estupefaciente, ele diz manter sob controle estrito. Mas se o recente sucesso não embriagou o artista paulistano, causou estrago nas finanças. Em 2000, Mutarelli vivia com um salário de R$ 300, saía de casa duas vezes por mês, vivia no Itaim Paulista. Hoje mora na Vila Mariana, guia um carro novo, tem livros filmados, muitos projetos, obras lindamente editadas – e uma fúria consumista por cultura, que o jogou nas garras dos cartões de crédito. “Entrei o ano no vermelho, só consegui zerar minhas dívidas em julho”, conta. “Nunca me deslumbrei com a melhora financeira, mas aumentei muito os gastos com livros, CDs, filmes… É que na época da dureza ir ao cinema era um programa anual: só ia no aniversário de namoro!”, ri.

Para além de temas de sua narrativa, drogas e distúrbios psíquicos são mesmo responsáveis pela estrutura das obras mutarellianas. Houvesse uma linhagem na literatura brasileira dando conta de um interesse psiquiátrico (e não psicanalítico, perceba), Mutarelli ali estaria, ao lado de gente como Qorpo Santo, José Agrippino de Paula, Maura Lopes Cançado, Lima Barreto e o recentemente desaparecido Rodrigo de Souza Leão. Ele aceita a estirpe. E vai mais longe: “Acho que até mesmo a própria manifestação artística é uma expressão de distúrbio psíquico. Há quem aceite esse distúrbio e se torne artista. E há quem não consiga lidar com essa força”, sugere Mutarelli, indicando o próprio irmão como exemplo. “Investigador de polícia como o meu pai, ele não segurou a onda do que viu no trabalho. Hoje está tratando a esquizofrenia”, conta o artista – que revela ter escutado do irmão muitas das histórias encarnadas pelo investigador Miguel, de Miguel e os Demônios.

Contudo, Mutarelli não se limita a adaptar horrores alheios à sua escrita. Também folheia avidamente ensaios como os de Alice Flaherty, uma pioneira no entrelace literatura/psiquiatria (como se percebe no excepcional capítulo “Hipergrafia”, que se pode ler na Serrote #2, excerto de The midnight disease). E está sempre de olho nos desvarios catalogados no DSM-IV, a bíblia da sociedade norte-americana de psicopatologia. Não à toa romances como O Natimorto enfileirem velhos conhecidos dos homens de avental branco – folie à deux, psicose maníaco-depressiva, compulsão obsessiva, mania de grandeza e outras doces esquisitices.

O homônimo filme de Paulo Machline, que se distancia do humor negro do livro para dar a uma estranha história de amor um tom trágico, foi ovacionado no Festival do Rio. Até então, Mutarelli tinha rodado alguns curtas e se preparava para estrelar uma minissérie na Globo. A boa acolhida d’O Natimorto e o sucesso de O cheiro do ralo, de Heitor Dhalia, adaptação do primeiro livro, fez pensar que deslancharia a tardia carreira de ator. Ele desdenha: “Nunca mais vou atuar! Imagem toma conta de tudo. As pessoas que antes te tratavam mal agora tratam bem, e detesto bajuladores“, chia. A pior chegada foi num cinema: “Estava no banheiro quando um cara me estende a mão. E eu ali com as mãos ocupadas… Que situação!”, diverte-se. “Ando com vontade de sumir”, promete.

Assim, tão cedo Mutarelli não sai do estúdio. Depois de cinco anos longe dos quadrinhos, voltará ao romance gráfico com a história de um velho decadente que tem uma experiência com ETs. Finaliza E ninguém gritava na ponte, livro ambientado em Nova York, sobre um triângulo amoroso formado por pai racista, filho bobo e sua namorada negra. E rabisca Nada me faltará, narrativa sobre um sujeito desmemoriado que perde mulher e filha durante uma viagem. “Um romance bem experimental”, resume Mutarelli, que não teme o possível aburguesamento que a fama traz. “Vivo fácil no osso. Ruim mesmo seria se a profissionalização afrouxasse minha arte”, analisa. A se fiar pela hiperatividade, um risco tão remoto quanto o do artista perder de vista os amados remedinhos.

No labirinto de Papasquiaro & Bolaño


Mario Santiago Papasquiaro

Mario Santiago Papasquiaro

O milagre exige

Que via imaginarei
para seguir flutuando
& atravessar a selva sempre crescente
do grosseiro rio
O milagre exige
De meus ossos flor
& de minha mente frutos
Neste crepúsculo preciso
em que a nuca do sol
vai de focinho
O ouro sepulta a cinza
a praga ao mar
a magia a toda pressa

*
Poema de Mario Santiago Papasquiaro em Labirinto, seleta de poemas do companheiro de Roberto Bolaño no movimento Infra-Realismo [ou Real-Visceralismo, conforme Arturo Belano, Bolaño, e Ulises Lima, Papasquiaro, n'Os detetives selvagens].

Emocionante ler um congênere mexicano de Roberto Piva ou Herberto Helder, um beatnik surrealista cujas idéias fora de lugar são pela primeira vez publicadas no Brasil. A ousadia é da Dulcinéia Catadora, e a tradução, de Beatriz Bajo, que recém lançaram a antologia na Mercearia São Pedro, onde o livro cartonero pode ser achado [também vende-se no Sebo do Bac]. Mais um:

*
Devaneio

Já estive aqui / sem ter estado
(nas cordilheiras desta serenidade)
(dentro deste relógio de luzes que não estorvam)
As torres se iluminam no simples toque
o açúcar queimado/ o violino
perfumado do seu próprio corpo
Bioquímica-freejazz
Gruta sem 1 gota de cosméticos
Poesia natural/ como o esperma-aguaceiro do Amor
Já estive aqui/ sem ter estado

*
Em El secreto del mal [Anagrama], último livro em que trabalhava Bolaño – na verdade uma coletânea dos mais recentes arquivos encontrados em seu computador pelo editor e amigo Ignacio Echevarría – , o escritor chileno/chicano/hispânico, sempre sob a pele de Belano, conta uma visita que fez ao apartamento de Papasquiaro, aliás Lima [aliás José Alfredo Zendejas Pineda, seu nome de batismo], ao retornar à Cidade do México depois de décadas vivendo na Espanha.

Toca várias vezes a campainha, mesmo sabendo que seu amigo já está morto – atropelado por um sinistro Impala preto [curioso que, na cena final do Detetives, o carro da dupla seja um Impala branco]. De repente, da porta ao lado emergem três punks gordos e carecas. Apresentam-se como ‘os últimos discípulos de Ulises Lima’ e convidam Belano a entrar em seu apartamento, ouvir o disco de sua banda e beber algo.

Este permanece estático a mirar os joões-gordos e os pôsteres de bandas que decoram as paredes do apartamento, onde “garotos mexicanos o olham desde as fotos ou desde o inferno esgrimindo suas guitarras elétricas como se foram armas ou como se estivessem morrendo de frio“. Jamais se saberá se Bolaño continuaria este relato ou se ele termina assim, feito um viaduto inacabado precipitando-se sobre a saudade, como quase tudo o que escreveu [uma poética da inconclusão, definiu Echevarría]

Assim como a ética da amizade e da sinceridade olho-no-olho, porém em registro mais atmosférico, os vazios bolañescos também parecem se entranhar na poética de Papasquiaro, autor de fluxos de imagens sem juízo final – um autor sem juízo, pelo retrato que dele fez seu bróder:

“Ulises Lima era meu amigo Mario Santiago Papasquiaro, que morreu há um ano. Foi meu melhor amigo, meu melhor amigo de longe (…) um ser estranhíssimo, um leitor empedernido com coisas tão estranhas como meter-se sob o chuveiro e ficar lendo. Sempre via meus livros molhados e não sabia que havia ocorrido: será que o México é tão grande que pode chover em certas partes? Me perguntei até que o surpreendi lendo no chuveiro (…) Mario era um personagem fantástico, não tinha nenhuma disciplina. Era um poeta poeta, um ser fantástico, muito valioso”

*
Outro:

Não creio mais que na queda de estrelas

Sobre as pontes que descubro
1 cemitério de vidros
: o ex bendito chiqueiro :
Dormiu
o cheiro de tanto trator sangrento
/ de onde quebram a cintura dos acampamentos ciganos/
indícios de mim
que sustentam
& neles que digo: Não creio
de imediato nem nas chuvas de ouro velho nem de cabras
Nem na irrealidade deste rio
em que de santa gana me afogo
como se 1 adaga sem rumo
partisse ao sol dos meus ecos

*

Infrarealistas: o 2o é Papasquiaro, o 4o é Bolaño

Infrarealistas: o segundo é Papasquiaro, o quarto é Bolaño

Pecado de Pécora


Poucas vezes li uma resenha tão preguiçosa quanto esta do Alcir Pécora, acerca do novo livro do Mutarelli, A arte de produzir efeito sem causa [Cia. das Letras]. Alcir, que é dos poucos acadêmicos que lêem de fato tudo o que se produz na literatura contemporânea [não o conheço, mas amigos próximos me confirmam], cometeu aqui nessa resenha da Folha um pecado que, segundo o mestre de todos Antonio Candido, o levaria por certo ao canto da classe, com um canudo espetado na cabeça, ajoelhado no milho. [Update: Ciça me lembra que ele cometeu, além da preguiça, o pecado da soberba.]

O pecado da preguiça que acometeu Pécora – e que, aliás, é doença infantil comum em 90% das resenhas que se publicam por aí – tem uma tag: a paráfrase. Se você vai escrever sobre qualquer coisa, para observá-la com objetividade é necessário descrevê-la na miúda, assim como se a contasse para um amigo: “Olha, o que estou vendo aqui é um ser verde, com olhos enormes e membros longos e finos, voz metalizada. Ele está me dizendo que vem de Marte”, e por aí vai.

Feita a paráfrase, que nada mais é que contar com suas próprias palavras o resumo de um livro, você procede à crítica propriamente dita. Dá trabalho, porque a paráfrase em si não quer dizer porra nenhuma. Você tem de escarafunchar lá no fundo do seu repertório todo tipo de associação que possa fazer em relação à obra. Indispensável seria conhecer outras obras do criticado [por exemplo, ler seus outros livros, e se for um pouco mais informado, ir atrás de seus comics], discuti-lo face à produção contemporânea, se possível investigar-lhe uma linhagem de que participe, sempre extraindo da própria obra uma lógica literária interna – para jogar o mais limpo possível, não perder nunca de vista o texto, o texto.

Assim, sempre a partir do livro, abordar elementos como tom, perspectiva da narrativa, parâmetros da linguagem, condução, ritmo, léxico, drama, visão de mundo, psicologia, humor, atmosfera etc etc. Feito um médico, catar cada recorrência expressiva e, entendendo-a como sintoma, descobrir as doenças do livro, proceder à biópsia – seu estilo, enfim. Isso se chama interpretar um texto. É a lição de casa, cazzo!

Nada disso fez o professor Pécora, para minha decepção [não dá pra não levar a sério um sujeito que organizou as obras de Hilda Hilst e de Roberto Piva, por exemplo]. O mestre da Unicamp preferiu a modorrenta orelhada escrita nas coxas numa rede ao cair da tarde, certamente pra mandar no dia seguinte, junto da nota fiscal de R$ 500 [o cachê de uma resenha de jornal], e pronto, tá pago o supermercado do mês. Leu o livro com má vontade e escreveu qualquer coisa como se o contasse pro neto de 8 anos – inclusive dando a extrema mancada de contar o livro inteiro, do começo ao fim.

Não é isso que se espera de um dos melhores professores de literatura do país. Os acadêmicos não vivem reclamando que os jornalistas ocuparam seu espaço na crítica? Porra, e quando têm a chance de publicar mandam uma merda dessas?

Claro que fiquei puto porque sou amigo do Muta. Mas não só: achei este seu melhor livro, o mais profundo, o que vai mais longe em seu flerte com a patologia – a narrativa é um verdadeiro manual de psiquiatria, e muito da originalidade de Mutarelli vem do modo como sugere a doença como único parâmetro possível para dar sentido ao universo. Não me lembro, por exemplo, quem tenha descrito na literatura brasileira um surto epiléptico com tanta intensidade, drama e, o que surpreende, senso e timing de comédia. Enfim, não vou resenhar o livro aqui – o que me irritou mesmo foi esse desleixo com o olhar crítico: quer falar mal, tranki, mas que fale com alguma inteligência. Dá só uma sacada:

Crítica/”A Arte de Produzir Efeito sem Causa”

Literatura de Mutarelli fica à altura de história trash

Autor descreve protagonista paranóico em livro que lembra gibi sem desenhos

ALCIR PÉCORA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Não vejo melhor modo de resenhar “A Arte de Produzir Efeito sem Causa”, de Lourenço Mutarelli, do que contar por alto o seu enredo. Numa primeira parte da narrativa, o pacato protagonista, que porta o nome de Júnior, abandona a casa, a mulher, o filho e o emprego na fábrica de embalagens de autopeças. Muda-se então para o apê do pai, velho de bom coração, que tem um caso com a vizinha e aluga o segundo quarto do imóvel para uma estudante de artes. Júnior se instala no sofá da sala e lá dorme, deprimido, boa parte do dia. Na outra parte, gostaria de olhar a estudante nua por um buraquinho que lá havia. Se isso pareceu bobo, esperem para saber o motivo da brusca mudança e depressão de Júnior: o pobre descobrira que sua mulher havia dormido com o amiguinho do filho. E também com o pai do amiguinho do filho, o qual, flagrando o ilícito, exigiu a parte que lhe era devida para não divulgá-lo. E há mais: sabem quem era o pai do amiguinho do filho? Ninguém menos que um amigo fiel de infância, que também calhava de ser seu patrão na fábrica. Neste ponto, se alguém deixasse de lado o livro, não seria eu a condená-lo por impaciência. Mas há ainda uma segunda parte, na qual Júnior dá sinais de uma progressiva paranóia. Ela se precipita com a chegada, via sedex, de pacotes sem nome de remetente. Entre outros objetos, trazem um recorte de jornal de época que noticiava o caso em que William Burroughs, cultuado autor da beat generation, havia matado a própria mulher com um tiro de pistola ao errar o copo sobre a sua cabeça. Nada muito criminoso: apenas brincava, bêbado, de Guilherme Tell. Em outro pacote, ganha o DVD do filme de David Cronenberg inspirado em “Naked Lunch”, do mesmo Burroughs, além de recortes nos quais defende a sua velha tese de que a linguagem é um vírus. Quanto a nós, atenção! Não devemos perder os signos de cultura underground disseminados na narrativa. Somados os pacotes à tentação da estudante (com quem divide um lanche, uma pizza e um baseado), mais os porres solitários de conhaque, Júnior dá de perceber estranhas conexões nos recortes. Passa daí a desenhar combinações com as suas letras, enquanto vai ficando afásico. Desconfiado dessas esquisitices, o pai resolve dar uma espiada nos papéis que o filho rabisca e descobre que ele preenche páginas com uma única frase. Embora nada se diga no livro, não é de duvidar que também tenham vindo vários outros DVDs, entre eles, “O Iluminado”, de Stanley Kubrick. O certo é que, preocupado, o bom pai o leva a um médico, que suspeita de neurocisticercose, isto é, tênia nos miolos. Para ajudá-lo a deixar a bebida e as alucinações, o pai resolve lhe dar um choque de realidade e o leva a visitar o irmão, preso por tráfico de drogas. Mas tráfico não é problema para o irmão, e sim a suspeita de que a mãe, metida com demônios, entregara a eles a sua cabeça. E não é que Júnior acha que a mãe, já morta, fez o mesmo com ele? Aliás, Júnior suspeita que o demônio possuiu o pai e a estudante, trocando-os por fantasmas que querem matá-lo. Conseguirá ele matá-los antes disso? O que dizer mais? Fechos alternativos: 1) Que a literatura de Mutarelli faz jus à história “trash” que conta? 2) Que o livro é um gibi sem desenho? 3) Que o título é correto? Sem dar causa a nada, ainda ganhou uma resenha como efeito.

ALCIR PÉCORA é professor de teoria literária na Unicamp

A ARTE DE PRODUZIR EFEITO SEM CAUSA
Autor: Lourenço Mutarelli
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 39,50 (208 págs.)
Avaliação: ruim

Máximas de Jorge Cardoso


Apostar nos outros é querer perder rápido.

Em uma festa, uma sueca queria praticar espanhol comigo – ela era quase anã. Eu não falo espanhol. Mas quando eu falei que havia encontrado o diabo na Inglaterra o sol que refletia na parede se apagou misteriosamente. Quando eu falei do diabo de novo o sol voltou. Ela bateu palmas – mas quando eu perguntei pelo número do telefone, disse que não. Hablamos mañana – ela disse e virou de costas.

Queria que existisse um médico que me consertasse por inteiro. Até hoje, como um monstro de cemitério, nem posso dizer que fui consertado. Fui remendado aos pedaços. Sendo mais preciso o quê que você quer? – me perguntaram. Não acredite, mas eu queria o que qualquer idiota tem: uma mulher.

Eu conheci um cara que nasceu em uma caçamba de lixo. Ele me disse que a mãe dele falou assim: “Agora que já tem trabalho, se vire, é contigo!”. E assim a gente fica trabalhando e pagando as contas, trabalhando e pagando as contas, sempre. Porque assim é a vida.

Imensidão? Imensidão? A ti me entrego, não ligo mais para porra nenhuma. Ninguém responde. E o sinal de ocupado no outro lado da linha – falei com estruturas matemáticas e barulhos elétricos, aquele sinal de ocupado e continuei falando comigo mesmo.

Hoje eu conheci um modelo. Um rapaz. Ele trabalha comigo nos correios. O quê que um modelo está fazendo trabalhando nos correios? Eu não sabia que ele era um modelo, apesar de ser magro, até decidirmos beber em um bar perto de um rio. “Eu nunca contei isso para ninguém” – ele me disse que havia falhado na carreira de modelo porque não conseguia parecer feliz quando pediam para que ele parecesse feliz em certas sessões de fotos. “Besteira”, eu disse. “Se me pagassem eu dava cambalhotas. O que a sua família faz?” – por instinto sempre traço a árvore dos genes. “Meu pai é ministro” – ele me disse. “Ministro?” Me levantei, e acendi um cigarro enquanto o rio carregava umas folhas.

Nos correios, uma mulher disse não acreditar em Deus, não ter Deus, e que gostaria de deitar e morrer. Notei o rosto dela ficando vermelho e nervoso. Eu então troquei o nome de Deus, a casa de Deus e lhe disse. “Dentro da minha cabeça, no fundo da minha cabeça existe um rio de águas negras, mais negras do que todos os pântanos e dentro dessa água na corrente caudalosa e lânguida, uma serpente quase uma sombra, robusta, se move – entre superfície e fundo. Esta serpente eu chamo Jesus Cristo. E eu vez por outra bebo desta água negra.
Então eu disse:
- O que você tem para me oferecer?
- Como?
- Eu sou completamente sozinho. O que você tem para me oferecer?
Depois de um tempo de silêncio, a resposta que eu esperava – ela disse:
- Nada.
- Mas eu tenho para te oferecer… um pouco da água negra de dentro da minha cabeça.

Eu não completo nada. Tudo até o fim da minha vida estará por fazer. Nenhum texto está acabado, nunca. Eu não termino um desenho, uma pintura, mesmo em guardanapos. A educação do meu filho, nem a minha, o Eu por preguiça e vontade – parte essencial do que eu sou – não termina nada.

A criança, toda criança, habita o paraíso por seis anos. Depois é uma descida vertiginosa ao inferno, vamos caindo e batendo, e em cada pedaço de pedra vez por outra encontramos uma brisa que refresca. E rimos.

Jorge e seu filho Noah - entre eles, os mojos O Boneco e A Criança

Jorge e seu filho Noah - entre eles, O Boneco e A Criança


Sueños de Bolaño

Um anjo louro me trouxe de Buenos Aires o livro Tres [Acantillado], de Roberto Bolaño, um de seus inumeráveis livros de poesia [como se não bastasse ter dúzias de prosa]. Daqui pesquei alguns versos de “Un paseo por la literatura” – que não deixa de ser um breve resumo das leituras do homem:

1. Sonhei que Georges Perec tinha três anos e visitava minha casa. O abraçava, o beijava, lhe dizia que era um menino precioso.

9. Sonhei que Macedonio Fernández aparecia no céu de Nova York em forma de nuvem: uma nuvem sem nariz nem orelhas, mas com olhos e boca.

11. Sonhei que em um cemitério esquecido da África encontrava a tumba de um amigo cujo rosto já não podia recordar.

13. Sonhei que lia Stendhal na Estação Nuclear de Civitavecchia: uma sombra deslizava pela cerâmica dos reatores. É o fantasma de Stendhal, dizia um jovem com botas e nu da cintura pra cima. E você, quem é?, perguntei. Sou o yonqui da cerâmica, o húsar da cerâmica e da merda, disse.

14. Sonhei que estava sonhando, tínhamos perdido a revolução antes de fazê-la e decidia voltar para casa. Ao tentar me enfiar na cama encontrei De Quincey dormindo. Acorda, dom Tomás, lhe dizia, já vai amanhecer, você tem que ir. (Como se De Quincey fosse um vampiro.) Mas ninguém me escutava e eu voltava a sair para as ruas escuras da Cidade do México.

15. Sonhei que via nascer e morrer Aloysius Bertrand no mesmo dia, quase sem intervalo de tempo, com se os dois vivêssemos dentro de um calendário de pedra perdido no espaço.

17. Sonhei que era um detetive velho e enfermo e que buscava gente perdida havia muito tempo. Às vezes me olhava por acaso num espelho e reconhecia Roberto Bolaño.

20. Sonhei que o cadáver voltava à Terra Prometida montado em uma Legião de Touros Mecânicos.

23. Sonhei que voltava da África em um ônibus cheio de animais mortos. Numa fronteira qualquer aparecia um veterinário sem rosto. Sua cara era como um gás, mas eu sabia quem era.

24. Sonhei que Philip K. Dick passeava pela Estação Nuclear de Civitavecchia.

29. Sonhei que traduzia Virgilio com uma pedra. Estava nu sobre uma grande pedra de basalto e o sol, como diziam os pilotos de caça, flutuava perigosamente às 5.

31. Sonhei que a Terra acabava. E que o único ser humano que contemplava o fim era Franz Kafka. No céu, os Titãs lutavam até a morte. De um banco de ferro forjado de um parque em Nova York, Kafka via arder o mundo.

32. Sonhei que estava sonhando e que voltava para casa muito tarde. Na minha cama encontrava Mario de Sá-Carneiro dormindo com meu primeiro amor. Ao descobri-los, percebia que estavam mortos e mordendo-me os lábios até sangrar eu voltava aos caminhos vicinais.

34. Sonhei que era um detetive latino-americano muito velho. Vivia em Nova York e Mark Twain me contratava para salvar a vida de alguém que não tinha rosto. Vai ser um caso condenadamente difícil, senhor Twain, dizia a ele.

36. Sonhei que fazia um 69 com Anaïs Nin em cima de uma enorme rocha de basalto.

37. Sonhei que fodia com Carson McCullers numa casa em penumbras na primavera de 1981. E nós dois nos sentíamos irracionalmente felizes.

40. Sonhei que uma tempestade de números fantasmais era a única coisa que restava dos seres humanos três bilhões de anos depois que a Terra havia deixado de existir.

42. Sonhei que tinha 18 anos e via meu melhor amigo de então, que também tinha 18 anos, fazendo amor com Walt Whitman. Faziam numa poltrona, contemplando o entardecer borrascoso de Civitavecchia.

45. Sonhei que Pascal falava do medo com palavras cristalinas em uma taberna de Civitavecchia: “Os milagres não servem para converter, senão para condenar”, dizia.

47. Sonhei que Baudelaire fazia amor com uma sombra numa casa onde haviam cometido um crime. Mas Baudelaire não estava nem aí. “É sempre a mesma coisa”, dizia.

50. Sonhei que depois da chuva um escritor russo e também seus amigos franceses optavam pela felicidade. Sem perguntar nem pedir nada. Como quem se derruba sem sentido sobre seu tapete favorito.

53. Sonhei que voltava às estradas, mas desta vez não tinha 15 anos e sim mais de 40. Só tinha um livro, que levava em minha pequena mochila. De repente, enquanto ia caminhando, o livro começa a arder. Amanhecia e quase não passavam carros. Enquanto jogava a mochila chamuscada em um canal, senti que minhas costas coçavam como se tivesse asas.

55. Sonhei que ninguém morre na véspera.

56. Sonhei que um homem voltava sua vista atrás, sobre a paisagem anamórfica dos sonhos, e que sua mirada era dura como aço mas também se fragmentava em múltiplas miradas cada vez mais inocentes, cada vez mais deslavidas.

57. Sonhei que Georges Perec tinha três anos e chorava desconsoladamente. Eu tentava acalmá-lo. O pegava os braços, lhe comprava guloseimas, livros para pintar. Logo íamos para o Passeio Marítimo de Nova York e enquanto ele descia pelo escorregador eu me dizia a mim mesmo: não sirvo para nada, mas servirei para cuidar de você, ninguém te fará mal, ninguém tentará te matar. Depois começava a chover e voltávamos tranqüilamente para casa. Mas onde estava nossa casa?

[Blanes, 1994]

Bolaño filho da puta


Tenho uma notícia boa e uma má. A boa é que existe vida (ou algo parecido) depois da vida. A má é que Jean-Claude Villeneuve é necrófilo.


Ruim esse comecinho de conto, né? E que tal


Parece mentira, mas nasci no bairro dos Empalados. O nome brilha como a lua. O nome, com seu chifre, abre um caminho no sono e o homem caminha por essa trilha. Uma trilha trêmula. Sempre crua. A trilha de chegada ou saída do inferno. A isso se reduz tudo. Aproximar-se ou afastar-se do inferno. Eu, por exemplo, mandei matar.


Não era Rimbaud, só era um menino índio.

Passando das 2 mil páginas lidas, incluindo os contos cujos inícios supracitei [todos de Putas assassinas], não acho tosco afirmar: Bolaño é um filho da puta. Um dos maiores narradores que já existiram. Não só pelas primeiras sentenças, como também pelas do meio e pelas do fim [mesmo que tenha deixado seu último livro, 2666, inconcluso].

Abanti, komandantes!

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Leitores com saudades de um bom caô periodístico, ou de uma ficção jornalistada: hoje no Estadão saiu finalmente [após ter sido refugada por certas publicações...] minha matéria sobre o Encuentro Mundial del Portunhol Selvagem, em Asunción, dezembro de 2007. Trata-se da primeira reportagem em portunhol publicada no país [em 133 anos de Estadón, nunca uma matéria tinha saído com tantas palabras em otra lengua]. Ainda estou meio de cara com as proporções que a inbençón de Douglas Diegues tomou… Você pode ler o texto acá, ver as impressionantes [sic] fotos do ebento no blog do Torturra, autor da imagem acima, acá, ou acessar la versión integral de la crónica, a seguir. Arriba arriba!

Directo d’EL ESTADO DE SAN PABLO

No encontro da pátria das chuteiras com a pátria das muambas, surge uma nova língua, misturando português, espanhol, guarani e o que der na telha de escritores do brasileiros e paraguaios. A seguir, a primeira reportagem escrita na língua do futuro retrata o Encuentro Mundial del Portunhol Selvagem, ocorrido no Paraguai

Por Ronaldo Bressane*
Fotos Bruno Torturra Nogueira**

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[Táxi para el puerto]

- É do New York Times, corazón! Acorda!
- Hein? Estás loca, chica? A essa hora só puede ser cobrança!

Increíble: nosso movimiento habia chegado al Grande Hermano Yankee! O portunhol selvagem, língua freestyle inbentada nas fronteras de Brasil con Paraguay y digitalizada pelo poeta Douglas Diegues, reformatada por escritores brasileiros e latino-americanos e até por atores como o mexicano Gael García Bernal e músicos como o gaúcho Wander Wildner, caiu nas orelhas do novo correspondente do NYT no Brasil – de nome muy adecuado para la situación: Alexei Barrionuevo.

No mesmo mês, a língua del futuro é matéria da Piauí, do canal Multishow, y (perdón, Cervantes) da Rádio Exterior de Madrid… Pero como começou esto? Usted, leitor del Estadón, conocerá em primera mano o marco zero del movimiento. Foi em dezembro. Em Asunción, por supuesto…

*

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[Douglas Diegues]

- Bem vindos à Paraguaylândia!

Assim nos recebe el gorduchamente simpático Douglas Diegues, secundado por um magrelo bocudo, que se apresenta como…

– Eu soy o Domador de Jacarés! Tranki?

Don Diegues de La Verga y El Domador seriam nossos Virgílios naquela wasteland. Depois de nos esperar cambiar centenas de reales por algunos mijones de guaranis e quedarmonos milionários, la gentil dupla carrega nuestras bagages para el detonado Palio de DD, o Rocinante selbagem. Um rangido contínuo dedurava: el coche estaba con las pastilhas gastas!

– Bámonos sim frenos, kapitanes! Abanti! – esbravejava DD por trás dos óculos de lentes embaçadas pelo calor de 40 graus, siempre pontuando de exclamações e cigarros sus frases, como se a qualquer momento fosse tener um infarto, o peor, um orgasmo!

As calles cheias de carros em pandarecos recordava Kapão Redondo: el mundo é lo mismo, todo lugar – mas que lugar seria Asunción? Só sabia que a pátria das muambas foi uma potenza industrial no siglo 19, destruhida por brasileros y argentinos (ali llamados de kurepas, gíria guarani para “porcos”). Matamos 95% dos hombres y 54% das mujeres paraguayenses! Viva Caxias!

- Mira, acá es la sede de la Federacción Sudamericana de Fútbol! – e DD apontou um prédio de catorze andares aparentemente vazios. – Bámonos a tomarlo para sede del portuñol selvaje, verdad?

El portunhol selvagem é uma idéia de DD, carioca quarentón que vive desde os 5 anos em Ponta Porã (MS). Na fronteira, o poeta de família paraguaia sacou o mix freestyle de guarani, português e espanhol hablado chulamente por índios sacoleiros, pistoleiros trôpegos e carinhosas cortesãs e o verteu em libros como O Astronauta Paraguayo. O encontro portunholesco faria parte do evento Asunción Kapital Mundial de la Ficción, que entre 6 e 10 de dezembro reuniu escritores latinoamericanos na embaixada brasileira – DD foi o principal artífice da história.

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[Domador de Yakarés y Edgar "Pombero Tamaguchi" Pou]

Seu amigo de infância, o Domador de Yakarés (nunca fala o nome real), é para DD o que foi Neal Cassady para Jack Kerouac: o muso do movimento. Voz encarnada do portunhol selbaje, Domador teve inúmeras profissões antes de se descobrir um pintor de vanguarda rupestre, filósofo pedestre, xamã em chamas. Mas por que Domador de Yakarés?

- El hombre, como el jacaré, tem três defeitos: la ignorância, la cobiça, la raiva! Yo, como domador, domestico essas fuerzas negativas em los hombres y así haço arte!

Muchas exclamaciones depois, saltamos em um barrio de árboles y mansiones. Ali conocemos Carla Fabri, fada-madriña do movimento. Toda de blanco, blancos-pérola sus cabellos longos, ella nos recebe com um abrazo galáktico. Su casa é lotada de objetos de arte e pinturas modernistas; lá fora um espejo d’água é cercado por enorme gramado – “necesito espacio para que acá descendam las naves interestelares”, explica a atriz e cronista do diário ABC (Carla é a Danuza Leão de Assunção).
Almorzamos com Cristino Bogado Gamarra, El Kuru, que dispara:

- Las Mercenárias ainda tocan, verdad? Y Fellini? Conoces Akira S, Ira!, Patife Band? – Kuru, autor de Punk Desperezamiento, morou em São Paulo nos anos 80; daí su admiración pelas bandas alternativas. O editor e poeta paraguayense é a terceira ponta do tridente selvaje – além de primo de Gamarra, maior zagueiro da história do Corinthians. Assim que devastamos las milanesas, Carla y Kuru nos levam ao Hotel Gran Paraguay… ex-residência de Madame Lynch, amante de Solano López!

- Cuidado com el fantasma ninfómano de Madame… – Carla estala besos en mis bochechas. Y es mismo despampanante el hotel! Gigantesco, estilo colonial, quadras de tênis & fútbol, piscinas, internet a la lenha y afrescos maravillosos em no teto del elegante restorant. Pero lo más estraño no era acordar en medio a la noche com la mano de Madame Lynch dentro mis cuecones… Es que, aparentemente, sólo yo y Torturra estamos hospedados lá… Nosotros y, saberemos por um aviso em la recepción, 700 debutantes do Colégio Sion de la ciudad! Ai ai ai!

Lo xerox del xerox

Convidados pelo Itamaraty, representamos los brazos armados del movimiento em Sampaulândia. Encuanto el cantante y periodista Bruno Torturra aportunhola Waldick Soriano y Odair José, escribi o libro Cada Vez que Ella Dice X, lançado pela Yiyi Jambo, a editora que funciona em casa de Douglas y Domador. Localizada no segundo andar de una mansión sublocada, llena de vazamentos no teto, ali hombres dividem um solo quarto, colchões no piso, separados por milhares de livros empilhados, sem fogão nem geladeira, pero con un balanço idílico en la imensa terraza. Domador é o capista dos livros de capas de papelão catado na rua, pintadas com acrílico, em estilo que lhe confere la alcuña de Pollock de los Chacos. O miolo dos livros é, por supuesto, y sin embargo, xerocado.

Todo es lo xerox del xerox! Em la metrópole de la contrafacción, hasta los brinquedos chineses son falsificados! Tu caminas y caminas y só vê gente bebendo tererê (mate gelado)… Assim se entende el dito de Jorge Kanese, outro escritor que mora em uma bela casa com piscina: “Paraguay envenena!”. Todos em las ruas parecem enbenenados pelo calor, ilhados por Brasil, Argentina y Bolívia, sedentos por cultura y información, ainda que cercados de água – a antiqüíssima Asunción é o umbigo do Aquífero Guarany, que começa no Pantanal Matogrossense e detém 20% da água doce do planeta. Se yo fosse usted, comprava uma fazenda no Chaco para passar tranki el Apokalípsis (o mesmo devem pensar los nazistas que ali vivem desde os tempos de Elizabeth Foster, irmã do filósofo Nietzche, así como los seguidores del reverendo Moon).

Em Asunción tablóides como Esto!, que enquadram cabeças decapitadas de bandidos e bundas de musas do meretrício, são escritos em portuñol selbaje – mas passou uma da tarde, não se acha jornal em lugar ningun! Natal batendo à porta, nadie parece trabajar y, palabra, la siesta dura 3 horas! Asunción ostenta uma força naval mas não vê oceano, y, apesar de enviar la mejor macuenha ao sudeste brasilero, no tiene uma só loja vendendo seda – los lokos lokales hacem sus baseados com jornal! Y por falar em jornal, el Encuentro saiu todos os dias na mídia! Asunción es la kapital de la ficción, verdad?

Troco perros viejos por dólares falsos
À noite, encontramos na embaixada brasilera o Domador de Jakarés cercado por suas pinturas e bizarros insetos voadores que se esborrachavam nas taças de vino da vernissage portunholesca.

– Son los baratones noturnos – riu. – Aparecem com el calor de la noche… y el calor de las yiyis…

Yiyi (se diz “djídji”) é a gíria guarani para gatinha. As yiyis paraguayenses, ensina Domador, son generosas: descendem das yiyis remanescentes da Guerra do Paraguai, que disputavam un hombre com 20 muchachas! Atrás delas, los periodistas se jogam em la noche febril de Asunción; pasamos por pubs como Saxonia, onde se vende cerveja em galones de 5 litros, y salones como Maria Delirio, onde a juventud dorada cai na cumbia. Pero, em cambio de mujeres, descobrimos el jugoloko! Una bebida hecha de cana destilada, vodka e goiabinhas fermentadas – “Hay mismo quien meta gasolina y cogumelitos en el coquetel!”, jura Kuru.

O Rocinante sem freios de DD dá carona para los escritores e críticos brasileros Xico Sá, Joca Reiners Terron, Ademir Assunção e Aurora Fornoni Bernardini. Despues de muchas andanzas por calles siempre arborizadas e tomadas por Mercedes – acá parece que todos tienem esse carro, taxistas, modernos e mafiosos –, la vanguadia portuñolesca aporta no Planta Alta. Um lugar sensacional, em um dos prédios más antiguos de Asunción, mistura de galeria de arte, restaurante e bar – se fosse em São Paulo, estaria lotado, verdad? Pero hoy es lleno de baratones y escritores borrachos, no hay yiyis. Assim, volvemos à mansion de Carla Fabri, que, enquanto cortesmente nos serve jugolokos, aponta para el cielo e nos anuncia que em breve los marcianos van cair em su piscina. El Domador nos cuenta um dos roteiros que pretende filmar:

– Um hombre gaña de su pajé uma mala com mijones de dólares falsos! Vai descendendo el río Paraguay hasta los chacos; troca los dólares por cachorros viejos, así fica rico! Chega em Asunción em um caminhón com 200 perros, perseguido pela CIA, que quer entender por que el dólar está caindo em las bolsas internacionales… y enton é possuído pelo espírito del Kurupi, que no Brasil é o Curupira, pero aqui es um índio que tiene um pau de três metros de comprimento… y dahi conoce Rocío Nuñez!

Rocio é o grande tesão paraguayensis, a Camila Pitanga de los Chacos. Será a grande estrela dos filmes do Domador – que, entre um jugoloko y otro, vira para Carla e diz: “Eu soy especialista em galáxias. Aquela ali no es Marte, es la galáxia M37!”

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[Jueca Terrón, el quinta-coluna del movimiento, y el Embajador Xico Sá]

Yo soy el baratón de la noche
Afinal, chega o sábado. Singramos el río Paraguay en un paseo muy instructivo y relajante para DD – que não dorme hace 4 días. En la noche, el gran encerramiento: el Encuentro del Portuñol Selvaje! Pero, por causa talvez do Dia Nacional da Virgen de Kaakupê, que reúne um mijón de fiéis, o enorme auditório da embaixada está casi às moskas… “Voy a hablar poemas nesta lengua inexistente pra uma platea que no existe”, solta Miguelangel Meza, o Candyman, poeta guarani que nunca sai de casa sem um saco cheio de balas. Na seqüência, dona Aurora sugere una conexión entre el portunhol y los poemas ítalo-brazukas de Juó Bananère, ídolo de Adoniran Barbosa.

Después de los sonetos selbajes de DD y de la prosa punk de Kuru, Joca Terron lê um Jim Dodge tirado de seu Transportunhol Selvagem, 15 joyitas bebadas, que traz também transcriaciones dos norte-americanos Raymond Carver e Malcolm Lowry, do japonês Ikkiû Sojun e do alemão Hans Magnus Enzensberger. Ademir Asunción verte su Zona Fantasma para a bilinguagem – a sério. Guillermo Sequera, um Leonard Cohen paraguayense, entoa cânticos xamânicos guaranis acompanhado de um violão mouro. Xico Sá exibe trechos de Caballeros solitários rumo ao sol poente, “A vida é um pangaré paraguayo que nos pega na curva!”. Jorge Kanese, patriarca del jugoloko y de la literatura de vanguarda paraguaya – espécie de Sérgio Sant’Anna lokal –, manda a epopéia de um cavalheiro batendo às portas de um bordel: “Abran, karajo!”. Surfero de chacos psicodélicos, Edgar Pou entoa um manifesto erótico em portuñol encuanto sus niños de 12 e 6 anos gargalham na platea. Yo leio poemas feitos para una yiyi jambo que me fez comer el pan que el diablo amasó. Y Torturra, que hasta enton se preguntava que rayos fazia ali, cria na hora, em la cara de palo, su primero poema:

– Yo soy el baratón de la noche… yo vuelo em busca de las yiyis…

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[Domador y Xico en la piscina de Carla Fabri]

No camino para más uma rodada de leituras em casa de Carla, bemos uma placa que promove um “Curso de Metafísica Prática”. Todo es possible em Asunción, verdad? Las garrafas de jugoloko son pocas para la fiesta poética. “Cocoon! Cocoon!”, brada Xico, antes de se jogar vestido em la piscina de Carla; Domador o segue y ganhamos uma visión infernal de dois tiozinhos em busca de imortalidad. Não era nos chacos paraguayos que Ponce de León procuraba la fonte de juventud? Na falta do elixir, dále jugoloko! Y las yiyis… ficción? O estarán esperando los periodistas em el baile de las 700 debutantes, no Hotel? Ah, las yiyis… tranki, tranki… Abanti, komandantes!

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* Ronaldo Bressane é jornalista e escritor, autor de Céu de Lúcifer (Azougue)
** Bruno Torturra Nogueira é cantor e repórter da revista
Trip

Bukowski no Pólo Norte

Jorge Cardoso não curte muito Bukowski, mas nesse diálogo não teve como não lembrar do velho Chinaski…

eu: fala rapaizzzzz
Enviado às 10:20 de sábado
Jorge: fala ronaldo,
eu: muito frio ae?
Jorge: estou indo para o trampo, eu sempre vejo vc por aqui mas está sempre com sinal de ocupado
frio pracaralho
eu: ah, é pra afastar os malas
mas dá um toque q a gente troca uma idéia
como vão as coisas?
Jorge: beleza, te dou um toque…
trabalhando praca
eu: é mess?
em q?
Jorge: saio agora no gelo e só volto as 11:30
eu: eita
Jorge: fodeu
eu: pescando?
Jorge: eu trampo nos correios
eu: matando maluco a grito?
Jorge: natal é mais foda
eu: sério?
porra, tu tem q responder carta do papai noel?
Jorge: não, tem uns gnomo que fazem isso
eu: hahahah
Jorge: olha aí tenho que saltar do bonde agora
eu: o q vc faz, entrega cartas ou separa?
ok, viejo
nos hablamos
Jorge: eu separo as cartas levanto caixas
eu: qdo puder apareça!
Jorge: fica bem aí
depois a gente se fala
eu: abrazón
Jorge: abs
Enviado às 10:33 de sábado

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