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Entender ou explicar?

Fabiano Txana Bane, xamã amazônico no Rio. Foto Andé Valentim

Nesta edição da revista Alfa, publiquei uma das reportagens que mais me deu trabalho: Os Xamãs Urbanos. Além das duas excelentes sessões – uma com Txana Bane, outra com o amigo Ichiro Takahashi -, entrevistei três antropólogos, um médico farmacologista e cerca de trinta pessoas, além de ter lido uma boa meia dúzia de livros. Ainda assim, recebi pedradas de todos os lados – desde os adeptos até os contrários de tais práticas.

Normal. Agora vejo o quanto foi acertado o mote do texto, o paradoxo “entender ou explicar?”, que me veio durante as duas sessões. É a essência do debate entre jornalismo objetivo e subjetivo. Por isso mantive o texto sóbrio, aberto e preso aos fatos. Claro que muita poesia deve ter ficado de fora. Mas para isso temos a medicina. E a ficção pessoal de cada um. Boa leitura.

Xamãs urbanos

Os rituais com ayahuasca se multiplicam nas grandes cidades do Brasil. Em busca de uma nova experiência mística, muitas pessoas transformam o chá obtido com as plantas amazônicas na mais alucinante e controversa das terapias

Minha mente num moedor de carne. Do outro lado do moedor, meus miolos escorrem em forma de enigmas: “Entender para explicar“, cai um. “Explicar para entender“, cai outro miolo. “Entender sem explicar, explicar sem entender“, prolonga-se um terceiro. “Nem explicar, nem entender“… E, enquanto meu cérebro é triturado, torcido, retorcido e reduzido a pedacinhos, todas as variações possíveis em cima desse embate psíquico me deixam com o coração palpitante, o estômago revolto e as mãos geladas.

Me levanto, abandono o círculo de pessoas naquele salão e tento me resolver sob o céu claro de lua nova. No instante em que observo as árvores em detalhes nunca antes captados, minha racionalidade se enrola em pares de opostos: e, pior, os paradoxos, em vez de me empurrarem a um beco sem saída, me conduzem a uma idéia totalizante sobre as coisas – como se todos os questionamentos sobre a existência fizessem algum sentido. Meu olhar vai e vem das árvores às estrelas e meu tronco se cola ao chão, e troco a confusão conceitual pela emoção simples – e extasiante – de pertencer ao planeta.

Assim, me tranquilizo.

Mas eu não estava tendo um eureca filosófico na natureza. Não tinha alcançado uma epifania selvagem na floresta. Tampouco participava de um culto promovido por uma igreja amazônica. Estava no Alto da Boa Vista, plena Rio de Janeiro, investigando uma sessão xamânica guiada pelos efeitos de um poderoso psicoativo natural: a ayahuasca. O chá, conhecido há séculos por grupos indígenas isolados entre Alto Amazonas e cordilheira dos Andes, é hoje eixo de variadas práticas ritualísticas urbanas – e não me refiro a igrejas. Ou seja, as contradições – e o desapego a opiniões monolíticas – são essenciais para entender, ou explicar, como funciona esse tipo de experiência. Sob o impacto da ayahuasca, observo meu bloco de notas e procuro fazer meu trabalho: o que está acontecendo aqui? Quem são essas pessoas? Por que, como, quando, onde fazem isso?

Primeiro fato: é impossível escrever com a ayahuasca correndo nas veias. Felizmente, o “moedor de carne” vegetal deixou intacta minha memória. Continuar lendo

Doce nada


A praia como lugar de escape. Ensaio para a Vida Simples 92

Playa de la Calavera, Cabo Polonio. A distancia, el faro

Uns viajam em busca de paisagens indescritíveis, outros querem lugares bacanas para fotografar, terceiros caçam templos de compras, e há os que vão à estrada para fazer amigos. Eu viajava para reencontrar o nada, o “doce nada de não ter um mísero nada“, como canta Lou Reed em “Sweet nuthin’”. Mas meu destino não seria uma barraca imunda em Trindade nem um ashram indiano. A idéia era reencontrar a quintessencial idéia de praia. Um ambiente que, me segredaram, aceita poucos turistas, não tem luz elétrica nem badalação noturna, onde a vegetação é escassa e as sombras, durante o dia, são raras. Duas praias observadas por um farol. Lobos marinhos, cavalos, gaivotas. Seres humanos silenciosos. Quilômetros de dunas. Resolvi não pesquisar muito para me surpreender ao vivo – e assim fui com a namorada passar uma semana em Cabo Polonio, Uruguai.

Casitas fantasmas para alquilar

Quando voltei, alguém me lembrou que Cabo foi o balneário de infância do escritor argentino Alan Pauls, conforme conta em La vida descalzo (Sudamericana). Pensei então em tornar este relato de viagem uma leitura do livrinho de Pauls, uma compilação de ensaios sobre praias. Entanto a escrita perambulou por outros espelhismos, como não poderia ser uma leitura de uma leitura – assim como qualquer praia é uma leitura de alguma inacessível praia da infância e todo olhar de uma criança é um túnel para o olhar de outra criança. Caminhando pelas fantasmais areias de Cabo, olhos semicerrados, recordava as praias onde fui quando moleque. Cheguei no litoral de Santos… e me senti incomodado. Ir à praia sempre foi uma tortura.

40 km de dunas móviles de 30 m de altura

Minha pele branquela nunca aprendeu o idioma da morenidade – a única opção seria aquela favorita da Xuxa e do Galvão Bueno, o bronzeamento artificial. Descendente de alemães, Pauls também sofreu em sua primeira visita a Copacabana: “Compreendi cedo até que ponto a relação entre a pele e o sol decide o classismo (e o racismo) que impera na praia“. Além da inferioridade melanínica, jamais fui fã de esporte, que é o que todo garoto saudável deve praticar na areia sob pena de ter sua masculinidade contestada. Tímido, me retraía em espaço tão aberto, em que qualquer um está disponível: a pelanca da vizinha, a grosseria do mané de sunga vermelha, o mau gosto musical da galerinha no quiosque, a fixação por castelos de areia (saudades do meu Forte Apache) e a volúpia em fantasiar-se de bife à milanesa (a praia é o paraíso da vergonha alheia). Sobretudo, a massa de corpos fritando aglomerados me semelhava uma carnificina, um esquisito e voluntário holocausto. Ir à praia me deixava tão cego de mau humor que, anos depois, entendi perfeitamente como o descontrole emocional de Merseault n’O Estrangeiro o fazia matar um árabe sem mais nem menos e depois pôr a culpa no sol. Se o personagem de Albert Camus tivesse vagado pela extensa orla de Santos, teria mandado mais meia-dúzia para o céu das 72 virgens.

Ictiosauros con sal, aceite y limón

Para quem nasceu longe do litoral, numa cidade sufocante como São Paulo, a praia é o lugar do escape, da alteridade, da possibilidade de um horizonte infinito, do refúgio que zera qualquer significado. Mas onde estaria aquela praia original, símbolo de todas as praias? “A praia é um território livre de imagens“, escreve Pauls; “todo seu sex appeal – e também a invejável capacidade de alheamento – descansa nessa espécie de castidade icônica que as paisagens marinhas só compartilham, creio, com um de seus precursores naturais: os desertos (o outro precursor é a ilha)“.

Los lobos marinos son casi ciegos

Ao fim e ao cabo

E assim chegamos ao sul. Cabo Polonio é um parque nacional uruguaio criado para proteger as dunas e a rica fauna marinha, que procura as ilhas próximas ao farol. Poucas árvores, muitas rochas e um clima enigmático – às vezes sopra um vento forte e gelado, às vezes o ar pára; o céu pode amanhecer oculto pela neblina e entardecer com todo o gradiente possível entre laranja e roxo; a temperatura pode variar de 35º de dia para 10º à noite (no mar, a sensação térmica é de zero grau). Só de 4X4 se chega às duas praias, cada uma de um lado do farol, que há 127 anos ostenta seus 25 m de altura. A praia Sur, que conduz ao balneário La Pedrera, é a de areias mais fofas e brancas; a Calavera, de areia batida e amarela, é o caminho para o balneário Valizas, então vem Punta del Diablo e, não muito depois, está Chuy, na fronteira com o Brasil. Ambas de lados opostos do cabo – o que permite assistir ao sol se pôr na Sur e à lua cheia nascer na Calavera, quase ao mesmo tempo.

El camino para las dunas moviles

No estreito gramado entre praias espalham-se, sem muros, umas 100 casinhas, a maioria de paredes brancas pretendendo-se mediterrâneas; em outras, o estilo hippie faria sucesso numa WallPaper freak. Como é proibido acampar ou construir e uma casa simples não sai por menos de US$ 120 mil, é preciso sorte e tempo para achar hospedagem; tem quem alugue um chalé um ano antes de ir. No caminho para Valizas, pode-se ver casas soterradas pelas dunas. E para lá enveredamos, doze quilômetros de caminhada. A tarde começava, o céu era absolutamente azul. Na mochila, dois litros de água – e um LSD.

Playa de la Calavera

Dunas, dunas, dunas… Fazia uma hora que andávamos quando o ácido bateu. A conhecida sensação de bem-aventurança pânica, espécie terrível de felicidade, encontrava nova paisagem para se espraiar. Subi numa pedra para descansar, adivinhando nas formas dos rochedos e das nuvens e das dunas vozes e figuras misteriosas. No iPod, o shuffle decidiu-se por “Ocean”, do Velvet: “Here comes the ocean/ And the waves/ Down by the shore/ Washing the soul of the body/ That comes from the depths of the sea“. A dezenas de metros, lobos e leões marinhos se aglomeravam em uma ilhota. Um lobinho chegava nadando, subia uma pedra com dificuldade, as nadadeiras se colando à rocha, seus colegas guinchavam para que não se metesse na área deles; tomava uma mordida, mandava outra, a briga logo caía num deixa-disso e o bicho se unia à rocha e ao sol. Aqueles seres quase cegos, adoradores do sol, vagais surfistas de jacaré, estavam ali há milhões de anos fazendo sempre a mesma coisa – o que me comovia às lágrimas. Subimos umas rochas e logo presenciamos o espetáculo da paisagem cem metros abaixo. O farol era um brinquedo, os lobos de pelúcia, as casas de Cabo peças de dominó. Trezentos e sessenta graus de amplidão; zero seres humanos. Quase deixava me levar crer que o céu, a areia, o vento, o oceano e eu éramos, como cantava Arnaldo Baptista, “uma pessoa só“. Só que ironia não rima com lisergia, e o resultado foi um arrepio e uma gargalhada. O mar rugia nas pedras lá embaixo, chamando, chamando… Seria aquela a praia de origem, ou a praia que lembrava aquela outra praia? Antes que eu também virasse um lobisomem marinho, minha namorada me cutucou e nos colocamos de novo em marcha.

Los lobitos

Uma hora e muitas subidas e descidas depois, após passar por muitas casas soterradas pelas dunas, chegamos à barra de Valizas. A piscina natural à entrada da praia foi o pretexto para dissolver o ácido no sal marinho – “que doce agrado é o mar”, cantaria Junio Barreto. A espécie humana nunca me pareceu tão extraterrestre. A obsessão chimarrônica faz com que o uruguaio não desgrude da cuia e da garrafa térmica, e muitos se vestem na praia tipo quem vai a uma rave. De dentro do mar, com aquele chiado platino a ciciar nos ouvidos, de novo me veio a sensação de irrealidade oferecida por uma praia estrangeira – como se vivêssemos dentro de uma bolha inviolável e o mundo do lado de fora fosse um aquário habitado por peixes; e somente pelo fato de ser estrangeira a língua desses peixes se emudecesse. O sol caía, assim como o efeito lisérgico. Tínhamos mais doze quilômetros de caminhada; compramos água e partimos de volta ao farol.

Era una vez un par de havayanas

O vazio (grelhado)

Psicodelia à parte, me dei conta dos poderes alucinatórios motivados pela exaustão quando, duas horas depois, o ataque: escuridão por todos os lados. Outra vez o clima conhecia uma mudança repentina – o vento pampero soprava na cara, redobrando nossos esforços para caminhar, e eu sentia que em breve ele arrancaria meu couro cabeludo, comeria meus miolos, me libertaria da consciência, afinal. O vento zumbi era a única companhia para o silêncio. As dunas, antes tão deliciosamente cor de creme, se tornaram infinitos, gigantescos e fantasmagóricos edifícios: o céu havia se fechado em uma massa compacta de nuvens lilases e roxas. O farol, uma luz de fósforo, uma ficção. A cada quinhentos metros tropeçávamos em um lobo marinho morto. A flutuante jornada de ida virava pesadelo: aterrissava a taquicardia e sua habitual dúvida – o coração batia mais rápido porque eu prestava mais atenção nele ou prestava mais atenção nele porque batia mais rápido? Fosse como fosse, os batimentos subiam, a água tinha acabado e, para piorar, comecei a ouvir uns cochichos… achei melhor nem avisar a namorada, mas era óbvio que havia seres acompanhando o passeio. Aliás, já fazia um tempo que eu mais era arrastado pela mão dela que por meus próprios pés… o psicoativo claramente havia derretido minhas reservas de adrenalina, o vento ajudava numa incipiente hipotermia. E alguma paranóia. Há quantos dias zanzávamos na esteira infinita desse deserto? Então ergui a cabeça e vi o nada.

There's much like a song/ To be heard in the wind/ That blows by the sea

O nada era um ponto escuro no centro de um vórtice de nuvens. O nada me queria, e eu queria o nada. Mas eu também morria de medo do nada. Os espíritos me sussurravam para eu não ter medo… era só estender a mão. As nuvens me rodeavam e me puxavam para cima. O nada tombava do ar, fazendo com que todo o espaço ao meu redor – dunas, oceano, vento, farol, lobos, namorada – não existisse mais. O nada era lindo, o nada era fatal, o nada era doce – nada justificava o nada. Eu tinha sonhado com aquele nada desde que nasci. Foi de lá que eu vim. Eu precisava voltar…

(Falando aqui no nada, é como se o traísse – não é possível revelar algo que deve se manter oculto para que tenha sentido; pois o lugar do nada não pode ser na linguagem: o nada só existe fora do texto, se basta na página branca. Do mesmo modo, sob pena de perder seu significado volátil, Cabo Polonio não se pode revelar.)

La novia

– E aí?

A namorada apertava minha mão cadavérica e de novo me devolvia à trilha. Assim, sem mais, me despedi do nada. Tentei fixar os olhos no farol – vamos chegar, vamos chegar. Mas em vez da luz que ia e voltava, vi… um bife. É. Como numa HQ, do farol surgia um balãozinho em que levitava o suculento entrecôte grelhado do restaurante Sargento Pimenta, que havíamos comido na noite anterior, acompanhado de cerveza Patricia y papas rusticas.

– Ahhh… o entrecôte!

Trocaria o vazio por um vacío. A segunda epifania funcionou: minhas pernas voltaram a deslizar pela areia. Talvez seja meio patético comprovar que uma epifania psicodélica seja vencida por um prato de comida, mas é verdade. E, epifania por epifania, um belo jantar com seu amor é bem mais interessante que aquele nada no meio do túnel de nuvens. (Entretanto, até hoje o nada me visita nos sonhos. Por falar em sonhos… preciso concordar com Alan Pauls: como se sonha em Cabo Polonio! Pelo menos cinco longa-metragens por noite.)

La luna sobre el vacío

Após o jantar o tempo abriu e a lua cheia retomou seu camarote vip no céu. Deserta, a praia da Calavera convidava à última contemplação antes do desmaio na pousada. Vez em quando o farol iluminava as partículas de areia e gotículas de água que flutuavam sobre o mar do sul, formando uma aura fantasmal sobre nós. O silêncio era onipresente e nas pálidas areias me senti em casa. Em casa, na fronteira: afinal compreendia o drama essencial de toda praia – o limite entre terra e água, realidade e ficção, vida e morte. Outra praia tão rara quanto esta, quem sabe, só na Lua. Ou no nada.

Outro assalto

Tomamos e fomos pra praia.
No chão, uma espécie de depressão. Ninguém se mexe, por um bom tempo, com medo. Um cavalo vem. Foi andando sobre o pequeno vale.
Percebemos que o tal buraco era só uma sombra feita por um coqueiro. Lentos, resolvemos continuar andando. O cavalo cada vez mais vermelho, longe. Virado, meu pescoço dói, seguindo seu trote. Aí lembro que um amigo tinha ficado no meio do caminho.
Volto pra buscá-lo.
Ando quilômetros.
Está agachado, beira da estrada. Me sento do lado dele: vamos pra praia, disse.
Nem, responde. Descobri que tem um cemitério indígena ali. Olha você mesmo, aponta para o leste.
Só vi mato. Só tem mato aí, vamos embora.
Olha direito.
Fico olhando por um bom tempo. Não sei bem quando, senti que o mato se mexendo era um monte de braços, acenando. 
E vejo as pessoas acenando para mim. Como se me chamassem. Uma ou duas horas ficamos ali, olhando para os índios mortos, a garganta fechada de desespero? Vamos pra praia, digo, violento, puxando o braço do meu amigo.
Mas meu amigo é só uma pedra. Não tem ninguém ali.
Voltei pra praia assim mesmo.
Estavam todos deitados no chão, acenando para o céu.
O sol vai nascer. É dia de ano novo.
Meu amigo surge do mar, todo molhado e nu. Chorava. Estão todos mortos lá embaixo também, disse. Não tem como fugir.
Encontro uma pinga numa macumba. Meu amigo e eu tomamos toda a garrafa.
Tire isso de mim, por favor, grito pro médico.
Tire você mesmo, gritou meu amigo, me oferecendo um revólver.
Atirei. 
O aço à minha frente se quebra.
O médico me xingava.
Quer mais um?, pergunta uma amiga.
Não, disse. Vamos pra praia.
E fomos pra praia.
Tem uma sombra grande de um coqueiro. Dentro da sombra, uma espécie de depressão. Praia de tombo, a lua quase cheia. Entramos no pequeno vale, rolando. O biquíni de minha amiga é um relâmpago vermelho. O som do mar se intromete nas minhas narinas e eu tinha sede.
O médico não me dá água.
O médico dança um ritual indígena.
O médico está doente e matou meu amigo, eu disse pra ela.
Minha amiga está nua e monta o cavalo vermelho. Diz que eu fico bem de branco. Me acena, como se me chamasse. Com medo, eu caminho até ela.
O sol vai nascer.
Aí lembro que um amigo tinha ficado no meio do caminho.

I’ve seen that picture



The Trip, de Roger Corman. Roteiro de Jack Nicholson. Com Peter Fonda, Susan Strasberg, Bruce Dern, Dennis Hopper.

LSD touch down

Via Kidids

O estranho mundo de Catatau

Catatau, secundado por Clayton_clic Daniely Clarisa

Catatau, secundado por Clayton_clic Daniely Clarisa

Como um fanho quase campeão de bodyboard da Praia do Futuro, Fortaleza, se tornou um dos compositores mais inventivos do país. Perfil de Fernando Catatau para a TRIP

“Aos seus olhos eu sou apenas um incômodo que veio do nada para empestar o mundo.” Assim Fernando Catatau, 34, se apresentava em O método túfo de experiências, seu premiado álbum de 2006, considerado o título do ano pela APCA – e que colocou o guitarrista, compositor, produtor e cantor cearense no centro da cena musical brasileira. Perto de lançar o terceiro trabalho, o líder do Cidadão Instigado segue o mesmo incômodo – ou quase. “Sou um libriano obsessivo: fico totalmente focado num negócio, mas daí depois deixo pra lá. E nunca consigo decidir nada”, define-se, ecoando a característica de um dos personagens recorrentes de suas canções – o Zé Doidim.

Enquanto bebia um café fraco na Livraria da Vila, num intervalo entre a gravação do novo Cidadão Instigado e do próximo álbum de Arnaldo Antunes, que produz, Catatau filosofava. “Todo ser humano coloca máscaras. O El Cabrone, por exemplo, é um personagem meu que é caçador do Zé Doidins – mas os dois são faces da mesma personalidade. Todo ser humano é duplo”, avisa com modos tímidos o magrelo barbudo de feições árabes, tererês presos nos cabelos pelos ombros. Um homem-bomba em potencial, claro. E esses personagens, como surgem? Continuar lendo

Filhos de Duchamp na Vila


Artigo previamente publicado aqui no Impostor, agora republicado na revista Simples

Afinal, essa merda é arte? A frase-clichê aparece de tempos em tempos – talvez um dos picos de seu uso tenha sido quando Duchamp lançou urinóis e monociclos aos leões da crítica e do público. Enquanto o enxadrista franco-canadense é canonizado pelos brasucas nos 60 anos de MAM – depois de babar no urinol logo estarão batendo palma pra extintor de incêndio e dando bom-dia a cavalo… -, seus verdadeiros seguidores são pixados. Ou pichados. Enfim, com xis ou ch [não há consenso], a pixação ganha a primeira exposição coletiva em São Paulo neste sábado, na Psicodelia Rústica, Vila Madalena [onde mais?].

Parece meio besta chamar de exposição coletiva a Expo Evoluímos. Certamente deve ser metida a besta para os próprios senhores pixadores. Acontece que, na sala organizada pelo Flávio Gianotti – um dos sócios da loja de streetwear sob a galeria, onde também funciona um estúdio de tatuagem, ele próprio um pixador – estão reunidas cerca de 110 pessoas. Sim, imagine uma sala de 12 metros quadrados com 110 obras… à primeira vista, é estranho. Afinal, as 4 paredes totalmente pixadas – cada pixo em um espaço precisamente determinado de 10 X 50 cm – estão do lado de dentro da casa. Há uma janela gradeada, o que proporciona uma curiosa interação com as pixações que podem ser vistas nos prédios da rua Purpurina – uma inscrição, na esquina com a Girassol, tem assinaturas de vários participantes dessa Expo. Um deles morreu, caindo do terceiro andar.

Não raro pixadores saem desta pra outra no caminho para o audacioso gesto. Conheço um cara no Rio que, fugindo dos gambés, caiu atravessado numa lança de portão [escrevi a história neste conto aqui]. Flávio me afirmou conhecer um cara que continua pixando mesmo agora, na cadeira de rodas. A polícia já matou alguns. Boleta, hoje famoso grafiteiro, teve um revólver apontado na cabeça por um PM que curtia fazer roleta-russa com pixadores destrambelhados. Flávio lembrou a história de um amigo de Pinheiros que foi pego por ladrões quando foi pixar um desmanche em Parelheiros. Os manos resolveram se divertir com o moleque e, pra lhe dar uma lição, resolveram serrar seus dedos. O garoto gritava tão alto que atraiu a atenção de policiais. O pixador já começava a se aliviar quando viu os gambés cumprimentando os bróders bandidos… pra sua sorte, eles o liberaram [quase sem um dedo].

Pra que isso? Pela adrena de escapar, de não ser pego? Para meu espanto – e ecoando um sentimento estranho dentro daquela cela com 110 inscrições – , Flávio sugere: “Tem um lance místico em pixar”. E não é que deve ter mesmo? A idéia de violação, de vandalismo, de transgressão, de conquista de um território – tudo condensado num instante fugaz, na direção de um gesto único, um movimento preciso em que se inscreve na parede o próprio nome: estive aqui, você não pode mais mudar isso, e você não pode me pegar.

Não é arte o nome disso?

E isso não custa nada. É um ato tão gratuito quanto grátis. Ninguém ganha nada na arte do pixo – a não ser talvez notoriedade em seu meio, uma subcelebridade dentro de uma subcultura underground, advinda da conquista de um espaço difícil, uma realização heróica: o último pavimento de um prédio de 20 andares, a totalidade de fachadas em um quarteirão, todos os hidrantes do lado esquerdo de uma rua, uma delegacia de polícia, uma igreja, uma loja hippie chic, uma faculdade maurícia, um condomínio playboy.

Aquela apocalíptica caverna com 110 nomes, inscrições de apelidos ou de gangues, ideogramas quase indecifráveis, caligrafias aparentemente semelhantes porém com sutis variações, estabelecendo um léxico gráfico próprio – o pixo de São Paulo é, por exemplo, muito mais angulado, gótico, comprido e esguio que o pixo carioca, arredondado e suave – está lá dizendo alguma coisa estranha sobre a arte. Uma cela lotada de inscrições pós-rupestres, preto sobre branco, contém o grito de vários indivíduos: estamos aqui. Ouçam. Muito embora alguns deles não estejam mais ali na verdade – mortos, são representados por amigos, por suas gangues.

Há gerentes de banco, carteiros, motoboys, pequenos meliantes, maloqueiros puros, pipoqueiros, skatistas, tatuadores, pintores e até alguns grafiteiros conhecidos [como NÃO, Flip, Zezão e Boleta - não, grafite e pixo não é a mesma coisa]. Gente de todas as zonas da cidade. Juntos, representam uma performance anarquicamente gráfica de São Paulo em todas as suas manifestações, do terror ao humor. Espelham a feiúra e o caos paulistanos, porém também a sua [nossa] estranha gana por acumulação, multiplicação, posse. Que pode de repente desaparecer sob uma simples camada de tinta – fugacidade marca de uma cidade vorazmente fascinada pela idéia do auto-esquecimento.

Cada parede pixada é um vazio que passa a significar. O que era um não-espaço ganha sentido. Lá no começo do século, um franco-americano meteu um insignificante urinol numa exposição, transformando-o numa fonte de idéias. Talvez as paredes pixadas de São Paulo somente adquiram sentido por causa daquele conceitual urinol. Talvez as 110 inscrições da Psicodelia Rústica um dia estejam encapsuladas em um coffeetable book da Taschen, vestido a 10 mil libras, enfeitando salas de estar bacanas [editado pela chique Pinky Wainer, custa R$ 68 a agenda do Boleta, Tsss]. Mas aí talvez, despida de seu gesto fundador, também essa arcaica e libertária arte, mumificada no couchê alta alvura, se torne o que parecia a olhos pouco inspirados – mero ruído na paisagem. Uma merda qualquer.

A Expo Evoluímos abre este sábado, às 3 da tarde, na Purpurina 207, e fica até setembro [ou para sempre... o Flávio ainda não decidiu o que fazer com as paredes depois].

Not so young, still gods



Se você não foi ao SescPompéia entre 5a e sábado, perdeu, régis: a banda suíça Young Gods mandou canções matadoras, como esta sua releitura de ‘Speak low’, de Weill/Nash. O grupo formado em 1985 foi uma das atrações principais de um ciclo de shows, palestras e exposições alicerçados em uma incerta “contracultura”.

[Contra o quê mesmo, cara-pálida? Alguém precisa avisar os régis tabacudos que a contracultura venceu, a tropicália está no poder e veneráveis como Hendrix e os beatniks são ícones do mainstream. A organização do festival hipporongo devia zerar essa reza e vender logo cópias baratinhas daqueles maravilhosos pôsteres do Wes Wilson expostos junto ao laguinho interno do Sesc. Afinal, não se trata mesmo de serviço social do comércio? Contracultura de verdade seria jogar uma bomba no horroroso vizinho do Sesc, o tal do Bourbon. Aliás, só no Bananão que um mercado leva nome de birita e é considerado chique.]


Pressionada pela bizarra imposição sesquiana de tocar abaixo de 100db, uma das bandas precursoras do rock industrial e da moderna ambient music fez um set totalmente acústico [claro que usando muitos efeitos], três violões e percussões diversas, mais coisas como um baixo/viola de 3 cordas, gaita [como slide], escaleta e plugue [!]. Surpreendente como uma banda suíça eletrônica desplugada vira… um grupo de blues californiano com os dois pés fincados na psicodelia. Na real, São Paulo se deparou no susto com a cara do próximo álbum dos suíços, a ser lançado semana que vem, Knock on wood. Além de clássicos como ‘Gasoline man’, ‘She rains’, ‘Our house’, ‘Kissing the sun’, ‘Skinflowers’ e ‘Lointaine’, ainda tocaram ‘Everything in its right place’, do Radiohead e, pasme, Ritchie Havens ['Freedom', famosa em Woodstock - como se lê aqui no blog do Skylab, eles costumam fazer um set cover do festival em que, em vez do hino yankee, mandam o hino helvético].


Aí você se lembra dos caça-níqueis acústicos da MTV… e pensa: que felicidade ainda existirem bandas com coragem para reinventar seu som [não é à toa que Mike Patton é ]. O morrisoniano vocal Franz Treichler, de pai brasileiro e avó amazonense [leia entrevista com os caras feita em 2004 pelo Matias], falava em português o tempo todo e terminou o show com um sorriso enorme na cara. Apesar dos maletismos sesquianos [não poder fumar na choperia, horários regrados e essa esquisitice de som baixo], quem mais traz uma banda mítica desse naipe a 24 pilas? Alguma operadora de celular? Mas aí sim estaríamos falando em contracultura…

Agora não busco, encontro

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“Qué quieren saber?”

Quase três horas de entrevista. Uma quarta-feira chuvosa. O combinado era às dez da matina, no bar de um deselegante 5 estrelas do Paraíso [mesmo que nós implorássemos, não desligaram nem baixaram o péssimo som ambiente, o que me deu um trabalhão para tirar a entrevista; por isso nem cito o nome]. Alejandro Jodorowsky só desce pouco antes do meio-dia. Pede dós medialunes medialunas y un té. Aparenta cansaço – tinha ficado lendo tarô para os amigos até de manhã – mas está esperto, como verão. Pedimos expressos. Aperto o rec.

Eu e Ichiro, o xamã mais erudito de São Paulo, fazemos uma dupla estilo bad cop/ good cop. A cada questão, o chileno oitentão sorri: “Sus temas son muy largos… tenemos que hacer vários libros con sus preguntas!“. Na primeira hora do papo, Bruno chega e faz esses magníficos clics [não saíram na Trip]. Quando Jodorowsky já queria encerrar a conversa, Kakau aparece em um pretinho básico, cabelos molhados, joelhos gloriosos: a face do psicomago se ilumina e ganhamos mais uma hora de entrevista – além, claro, das perguntas ardilosas de La Lessa.

Findas as fitas, sessão de autógrafos para nossos livros e DVDs. A mulher de Jodorowsky [me esqueço agora seu nome; é uma franco-vietnamita de 40 anos] desce do quarto, para levá-lo a um restaurante, junto do diretor Joel Pizzini [responsável pela vinda do psicocineasta, dezembro do ano passado] e dos assessores de imprensa. Jodorowsky beija a mulher e dá um tapinha em sua bunda. Despede-se de nós com um sorriso maior que o mundo. Foi a última matéria que fiz para a Trip como redator-chefe: milagrosamente, conseguimos 5 páginas na revista… Vale comprar, a arte ficou linda com as imagens dos filmes. Se preferir, leia abaixo a conversa com o gênio. Continuar lendo

10 mil dias de Cardoso

“Lourival, camarada, pare um pouco de MASCAR este dente e atente para o seguinte fato, que lhe alcanço sem maior compromisso:

Pois eis que hoje, 12 de outubro de 2006, de acordo com os preceitos de uma VETUSTA ciência chamada MATEMÁTICA, eu, André Felipe Pontes Czarnobai – o tradicional Cardoso – completo meu DÉCIMO MILÉSIMO DIA de errância contente por cima deste imenso globo terrestre.

Precisamente isto: 10 mil dias de vida.

Quite a SUM, isn’t it?

Em comemoração ao SINGULAR da data, eis que aproveito o APLOMB intrínseco a esta EFEMÉRIDE pessoal para anunciar a finalização – e conseqüente LANÇAMENTO – do meu igualmente pessoal website, que batizei por influência da LUA QUARTO MINGUANTE, de QUALQUER.ORG.

Tu vê que papelão, o SOL não sabia o que queria.

Ele nunca sabe.

O lance é que depois de quase UM ANO levando surras diárias y homéricas de linguagens de programação modernosas, desenhando os layouts mais toscos e esquizofrênicos do universo e cozinhando os olhos na tela e a raba na cadeira UPLOADEANDO milhares (literalmente) de imagens e textos por dia, já dá pra se dizer que uns 70% do conteúdo previsto está no ar.

Nos meses seguintes: MAIS.

Se me sobrar tempo.

Mas por enquanto é isso, Lourival: WWW.QUALQUER.ORG.”

Presença federal

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“Duas apreensões em Brasília mostraram que os federais da DRE/SR/DF estão sempre atentos para as tentativas de traficantes de distribuir drogas na Capital Federal. Em uma das apreensões os policiais interceptaram um carregamento internacional de Haxixe, provavelmente vindo de Marrocos. Em outra operação os agentes prenderam os organizadores de uma festa “Rave” que seria realizada em Corumbá, Goiás. Com os traficantes foi apreendida cocaína, LSD e um gibi cujo personagem principal, “Capitão Presença“, fazia apologia ao uso de drogas.”

Medo e nojo em Paraty


Em julho de 2004, a revista TRIP envia seus repórteres-pulgas à segunda Festa Literária Internacional de Paraty e mostra o que não saiu na Caras nem na Bravo

por Ronaldo Bressane e Bruno Torturra Nogueira [fotos]

- Isso aí que tu tá fumando é maconha, merr’mão?

Ser uma pulga pulando no pêlo de um viralata em Paraty é classe. A gente tem acesso aos eventos mais inesperados.

- Polícia!

Como assistir a dois escritores e um jornalista tomando um enquadro, ao serem flagrados com um back. Localização: no meio da Rua da Cadeia. Mais precisamente: sob a bandeira que tremula o nome de Moacyr Scliar. Mais bandeira impossível. Salto pro bolso do escritor para ver melhor.

São dois. O que fala, nervoso, orelhudo, e o outro, quietão, barba, que apresenta ao lesado escriba suas credenciais de Polícia Civil. O escritor olha pra bandeira do Moacyr Scliar e fala pro repórter:

- Pressenti que fumar debaixo de um médico surrealista ia dar merda…

O orelha atalha:

- Chega de gracinha, rapá. Infelizmente, vou ter que recolher vocês pro distrito…

Então, por que não leva logo?, penso com meus pulguentos botões. Na cara o que vai acontecer – uma hora depois:

- … maish com uma cerrrvejinha, sacumé, a gente pode pensarr milhorr…

Quando aparece, saído de sua pousada, o Daniel Galera, amigo do primeiro escritor:

- E aê? E aquela ceva?

O escritor segura o riso; os meganhas olham pro lado.

- Então, Galera, sabe que é, estávamos conversando sobre a crise na crítica literária com esses dois professores da UFRJ…

- Prazer, Juan.

- Prazer, Jonas.

- …e depois a gente se encontra em frente à Matriz, beleza?

- Massa…

Galera estranha, mas engole, parece, e sai fora. O escritor decide:

- Cara, não tem cerveja nenhuma… nós somos escritores, você sabe que no Brasil não se valoriza literatura, é pior que ser policial, com o agravante que você nunca vai ser herói se tomar um teco. Então, não temos grana nenhuma, me desculpe. Você faz o que achar que é certo…

E volta a tremer. O cana dura se vira pro cana doce e diz pro escritor:

- Vou aqui parrrlamentarr com meu colega…

Cinco minutos, volta:

- Olha só, a gente vai aliviar a barra de vocêish… A gente só não queremosh que saiam por aí dizendo que a polícia de Paraty deixa qualquer um fumar na rua, tá me entendendo? Fuma em casa, fuma na pousada, mas na rua não, meu cumpadi… Beleza?

O escritor, quase emocionado, devolve:

- Puxa, gente, eu sabia que dava para conversar com gente educada como vocês. Vou até te dar um livro meu…

O orelha escancara a fuça:

- Aí, que maneuro! Pô, o que é, puisia?

Puisia. Ele disse puisia. Que nem o Zé Miguel. Argh! O escritor, mão de Parkinson, garrancha um autógrafo:

- Aí, valeu mesmo… tem soneto? Sou amarradão em soneto. Sempre leio uns sonetos pra minha gata… Aí, vamos nessa. Um presente sempre é bem-vindo!

Essa não. Decido pular do bolso do escritor pra dentro de sua bolsa. E caio em um quadrilátero colorido, que tem um cheiro bom… Mordo. Gosto de sal. Parece… Essa não. LSD!

Mereciam ter ido em cana. Continuar lendo