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Amor = Humor


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Estão juntos há 3 anos, se conhecem desde os 11 e não param de trabalhar juntos (e muito). O casal Clarice Falcão e Gregorio Duvivier são a coisa mais engraçada e graciosa do novo humor brasileiro. Perfil duplo para a revista Bravo! do mês de abril

Enquanto pesquisava vídeos e performances de Gregorio Duvivier na internet, o repórter recebeu uma chamada no celular. Coincidência: era Gregorio Duvivier. No entanto, após algumas tentativas de comunicação, o repórter notou que não era Gregorio Duvivier quem o havia chamado — e sim, o bolso dele. Sem querer o ator tinha resvalado em “ligações recentes” e o smartphone, smart demais, chamava o repórter (que pouco antes havia combinado uma entrevista para o dia seguinte). Mas, apesar de não se dirigir ao repórter, a voz de Gregorio Duvivier soava. Plena meia-noite de domingo, Gregorio Duvivier ensaiava para a peça que estrearia dali a uma semana, o musical Como Vencer na Vida Sem Fazer Força.

Teatro, internet, TV fechada, TV aberta, literatura — e até no celular alheio: Gregorio Duvivier está em todos os lugares. Claro que sua musa estaria à altura de tanta atividade: é Clarice Falcão, atriz, cantora, roteirista, parceira de vários esquetes no Porta dos Fundos, a produtora de vídeos de humor que já soma 72 milhões de visualizações em seu canal no YouTube. O casal ultrajovem (26 ele, 23 ela) é responsável por alguns dos esquetes mais nonsense do canal: “O homem que não sabia mentir“, em que Gregorio não consegue forjar desculpas esfarrapadas a Clarice e é traído por uma voz bizarra denunciando o que fazia de verdade; “Barata no banheiro“, em que Clarice pede para Gregorio matar uma barata no banheiro mas a tarefa se revela impossível; “Versão brasileira“, em que Gregorio assusta Clarice ao acordar com a voz dublada como em um seriado americano; “Setor de RH“, em que os Supergêmeos do desenho animado são despedidos da liga de super-heróis; e “Essa é pra você“, em que Clarice, cantando uma canção folk, revela para Gregorio que o engana com o porteiro.

Os esquetes da dupla consagram a química aprovada na minissérie O Fantástico Mundo de Gregorio, um falso reality show estrelado por ambos, e na peça Inbox, escrita pelos dois, sobre John e Clara, um casal que se apaixona via internet. “A gente queria entender como é esse lugar que ocupa na vida das pessoas o virtual, esse lugar que é verdade mas não é“, diz Gregorio, em conversa com Bravo! em um café do Leblon. “E existe um suspense porque um personagem pode ser uma mentira, e a personagem também, porque o virtual é cheio de máscaras, um mundo de fantasia e ficção“, emenda Clarice (sim, eles são o tipo de casal em que um começa uma frase e o outro termina). O processo de criação da peça, que ficou em cartaz em 2011, foi curioso: escreviam juntos a escaleta — enredo básico, descrevendo cenas — e depois cada um escrevia os diálogos separadamente; às vezes, Clarice escrevia as falas de John, e Gregorio, as de Clara.

Mundo comédia

Tanto o falso reality quanto os esquetes do Porta dos Fundos expõem a paixão do casal pelo humor feito através do documental, presente no sitcom Curb Your Enthusiasm de Larry David, no seriado The Office ou na literatura de Miranda July e no trabalho de Mike Berbiglia. “As comédias de antigamente tinham aqueles diálogos tão espertos que pareciam inventados, um tom farsesco. Mas a gente gosta desse tipo de situação em que os atores gaguejam, em tom realista“, diz Clarice. “No Brasil tem um problema: o ‘tom de comédia’, ‘música de comédia’, ‘direção de arte de comédia’, como se fosse só se pudesse rir em um outro universo, onde as pessoas reagem de uma maneira diferente“, diz Gregorio.

Estereótipos, música sublinhando a piada, sabe? Fo fo fo fonnnnn“, explica Clarice. “Nossa briga é juntar uma coisa de verdade, algo de improviso, com um texto forte por trás. Mas na TV você não pode contar com a cumplicidade da plateia como acontece em um show de improviso como no Zenas Emprovisadas“, diz Clarice, se referindo ao show de humor de que Gregorio participa há 10 anos, ao lado de nomes como Marcelo Adnet, Fernando Caruso e Rafael Queiroga.

Além de brigar contra estereótipos, os dois detestam tanto a correção política quanto a falsa incorreção política — aquela que, para demonstrar independência, se permite fazer piadas reforçando velhos clichês, algo muito presente no stand up. “Fazer stand up nunca foi minha praia“, conta Gregorio. “É chato porque nos EUA é feita pra boteco, e no Brasil ocupou espaço de teatro — e não vejo sentido dar um palco enorme pra um ator; como um cara que adora teatro, acho meio exagerado“, diz, criticando o excesso de stand ups que invadiu o teatro brasileiro. “Aqui no Rio parecia igreja evangélica: ‘Caralho, perdemos mais um teatro pro stand up!’“, ri — relevando que a importância do stand up foi revelar novos autores.

Falso politicamente correto

Mas tem críticas ao formato. “Me irrita ver as pessoas falando o mesmo texto: ‘Ah, sabe uma coisa que eu não entendo? Estava vindo pra cá e…’ É tipo mesa-redonda de futebol: você quer que o sujeito lá em cima fale o que você acha. Vejo o público ir ao stand up para verem seus estereótipos serem confirmados pelo cara ali em cima. Vira comício, palanque; não é humor. E os comediantes acabam escravos da plateia que querem agradar e dão coisas fáceis, tipo ‘a Preta Gil é gorda’, ‘gaúcho é viado’…“, analisa Gregorio. Clarice atalha: “E as piadas politicamente incorretas que pretendem demonstrar independência em relação ao politicamente correto usam coisas tipo ‘preto é igual macaco’, que, poxa, são totalmente reacionárias, fazem há mil anos“, afirma.

Porém, o politicamente incorretíssimo é a praia do Porta dos Fundos. Em “Confessionário“, um padre confessava a um colega que abusava de um menor que já era abusado pelo primeiro, só para lhe provocar ciúme; em “KKKKKK“, um desastrado membro da Ku Klux Klan convidava negros para participar de uma manifestação. “Acho importante que o riso recaia sobre o mais forte. Nesse esquete o riso está sobre os padres pedófilos. No ‘KKKKKK’, ridículos não são os negros, e sim os racistas“, diz Clarice. “A gente tenta fazer piadas que ainda não fizeram“, afirma Gregorio. “Se tiver um esquete com um português, ele não vai ser burro. No Mundo do Gregório, havia uma situação em que um anão ganhava de mim em um teste. Queremos o humor de inversão“, conclui.

Para um casal de criadores tão autoconscientes do que fazem, parece estranho ouvi-los criticar um procedimento por excelência do humor sofisticado: a ironia. “A gente está no processo de se livrar da ironia, do blasé“, diz Clarice. Gregorio rebate: “O YouTube gerou essa indústria de pessoas rindo dos outros: é a indústria do schadenfreude, da videocassetada, de zoar a pessoa se fodendo“, diz. Clarice defende: “Pega supermal aparentar ser ingênuo, e criou-se essa bancada do Twitter, do Facebook, de comentadores de sites, de gente que não produz nada e só ridiculariza. Esses ‘haters’ são juízes. Fico agoniada com a internet porque às vezes você percebe uma energia ruim em coisas que lê“, confessa Clarice, que sempre tromba com os “haters” por conta da megaexposição de seu canal no YouTube: ali, o curta “Laços“, escrito por sua mãe, a dramaturga Adriana Falcão, foi um dos mais vistos em todos os tempos — e a canção “Monomania“, dedicada à sua obsessão por Gregorio, já alcançou mais de dois milhões de visualizações.

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Por falar em laços, o casal, além de super enturmado em uma enorme trupe de talentos que inclui o cineasta-prodígio Matheus Souza, e os outros membros do Porta dos Fundos, como Fábio Porchat e Antônio Tabet, está cercada de artistas na própria família. Clarice é filha dos roteiristas Adriana e João Falcão; Gregorio, do músico e escultor Edgar Duvivier e da compositora Olívia Byington, e enteado do diretor e produtor Daniel Filho. Ajudam ou atrapalham?

Na verdade, a gente adora trabalhar em família“, diz Clarice. “Mas, por meus pais seram tão criativos na escrita, fui por caminhos diferentes, tentei a música, por exemplo.” Gregório concorda: “Meu pai toca 15 instrumentos, esculpe e pinta, minha mãe tem o ouvido absoluto… é uma concorrência desleal. Mas é uma coisa meio circense… a gente vem de estruturas que também são familiares profissionalmente, então é natural todo mundo trabalhar junto“, diz.

TV pra quê?

Cinema está nos planos da dupla dinâmica. Querem tanto escrever uma comédia romântica quanto fazer um longa-metragem para o Porta dos Fundos — que também tem sido assediado pela Globo. Gregorio hesita a respeito de entregar o capital somado pelo coletivo de humor na internet à televisão ou ao cinema. “Na TV aberta a gente não vai poder fazer uma série de coisas: tem que domar palavrões, não pode brincar com marcas, por exemplo“, diz. “E no cinema corre-se o risco de fazer uma longa piada sem graça ou juntar vários esquetes desconexos, que não dá certo, como se viu nos filmes do Casseta & Planeta. Estamos pensando nessas opções com calma“, afirma Gregorio, que tem equilibrado aplausos pela atuação surpreendente no musical Como Vencer na Vida, e encarado críticas à comédia Vai que Dá Certo, de Maurício Farias (que, apesar das resenhas negativas, faturou a décima maior abertura do cinema brasileiro pós-retomada).

Misturar amor e trabalho não desanda na receita da dupla, é o que dizem. Embora na fase do namoro — Clarice mora com os pais e Gregorio vive sozinho na Gávea — , os dois dizem que o relacionamento só bambeia quando ficam longe demais um do outro. “Quando a gente briga, e não briga muito, em geral é porque a gente não está trabalhando junto“, diz Clarice. É uma história que vem de longe: Gregorio conheceu Clarice pois ela era fazia jazz com a irmã — ela estava com 11 anos, ele com 14. Depois Gregorio trabalhou com o sogrão João Falcão, aos 17, e a amizade seguiu via MSN. Encontraram-se de novo na PUC, quando ela começava a estudar cinema e ele terminava letras (sua TCC rendeu o livro de poemas A Partir de Amanhã Eu Juro Que a Vida Vai Ser Agora, elogiado por Millôr Fernandes e Paulo Henriques Britto). O namoro só engatou depois de uma sessão do Confissões de Adolescente, que Clarice fazia com Matheus Souza: os dois ficaram e nunca mais desgrudaram.

O primeiro filme protagonizado por Gregorio, o elogiado Apenas o Fim, dirigido por Matheus, era para ter sido estrelado por Clarice — mas ela se recusou a refilmar uma cena e acabou cortada. Mas, no segundo longa de Matheus, Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo da Minha Vida, a ganhar as telas em maio, é Clarice a estrela, personificando uma garota que enquanto não decide se vai cursar medicina fica matando aula e conhece um rapaz interessante (não, não é o Gregorio; neste filme ele faz só uma ponta). O longa de Clarice, aliás, deve estrear na mesma época em que a talentosa garota sai em turnê de lançamento do primeiro álbum, reunindo as canções viralizadas pelo YouTube e mais uma meia dúzia de inéditas, sempre em seu estilo voz-e-violão temperado com muita fofura freak agridoce. “Fofura freak agridoce“: eis uma boa definição para este adorável casal.

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O homem que descobriu Marte


Você sabe que está ficando velho quando os perfis que escreveu vão aos poucos se transformando em obituários. Para lembrar do grande Ray Bradbury, que foi pro espaço sideral hoje, aos 91 anos, segue uma entrevista que fiz com ele há seis giros em volta do Sol, para a Trip: falamos sobre futuro, tecnologia e seu ódio por Michael Moore

É mais ou menos como se Rubem Braga tivesse descido no planeta vermelho. Não espere encontrar em As Crônicas Marcianas, clássico de 1950, apenas menções a invenções incríveis, alienígenas e viagens espaciais à Star Trek. Isso é coisa pra crianças ou nerds. O californiano Ray Bradbury, 85, é um dos precursores do que hoje se convenciona chamar de ficção especulativa – uma ficção-científica que, em vez de se apoiar em profecias tecnológicas, se ocupa em propor hipóteses de comportamentos psicológicos e situações sociais. Nessa laia inscreve-se Philip K. Dick, além de William Gibson e Margaret Atwood. Há mesmo quem encontre na filosofia de Matrix ecos do romantismo de Bradbury, hoje um dos três grandes autores de ficção científica vivos, ao lado do inglês Arthur C. Clarke [2001, Uma Odisséia no Espaço] e do polonês Stanislaw Lem [Solaris]. Bradbury ficou conhecido por relacionar terror, humor e suspense à ficção científica. Autor de quase uma centena de livros, escreveu ainda poesia, ensaios de filosofia e teoria literária – talvez por isso, aliás, ele deteste ser rotulado como um escritor de ficção científica.

Em As Crônicas Marcianas, que volta às prateleiras, estão histórias como a dos tripulantes que descem em Marte e, afirmando-se astronautas, são levados a um hospício marciano. Ou a narrativa de horror de homens que pensam, ao recém-pousar em Marte, ter feito uma viagem no tempo. Ou a de um panaca que quer montar uma barraca de cachorro-quente no planeta vermelho. Como em seu também clássico Fahrenheit 451, de 1953 [transformado em filme por François Truffaut em 1966], Bradbury prova que a boa ficção científica não se concentra em gadgets, robôs ou aliens – mas em algo bastante velho: a humanidade. Direto de sua mansão em Los Angeles, pedimos que Bradbury nos falasse do presente e do futuro. Se é que temos algum.

Em um ambiente que parece ser um escritório, um homem que parece ser Ray Bradbury

As recentes descobertas em Marte não o desencantam um pouco em relação ao que escreveu em As Crônicas Marcianas? Na época tínhamos só as fotos tiradas do observatório do Arizona, quse não havia informação sobre Marte. Já hoje temos dados fascinantes, mas sem nenhuma relação com meu livro. Daqui a cem anos, quando existir civilização em Marte, leremos o livro do mesmo modo.

O clássico completa este ano 55 anos. Como você era na época em que escreveu o livro?
Tinha 27 anos. Era pobre, não tinha carro nem telefone. Morava em Venice, Califórnia – não por questão de estilo, mas porque alugar um bangalô na praia era barato. Ganhava 14 dólares por semana! Usava uma máquina de escrever alugada em uma biblioteca. Foi lá que criei Fahrenheit 451 – aquele monte de livros me contaminou a imaginação.

Hoje você já trocou as máquinas de escrever por um laptop? Computadores são máquinas de escrever metidas a besta. Tenho cinco máquinas de escrever, me dou muito bem com elas há anos. Para que usar um computador?

E tem usado muito as máquinas de escrever? Sim, estou finalizando três novos romances. Tenho um livro de ensaios sobre filosofia que deve sair em breve. Concluo também mais um volume de poesia e preparo uma antologia de histórias curtas, com 101 contos. Escrevo ainda um roteiro para TV e planejo estrear nos próximos meses uma peça na Broadway. Também escrevo um roteiro para uma nova versão cinematográfica de Fahrenheit 451.

Algum desses romances é de ficção científica? Nenhum. Não sou um escritor de ficção científica. O único livro de ficção científica que escrevi foi Fahrenheit 451. As Crônicas Marcianas é um livro de fantasia.

H.G. Wells ou Júlio Verne? Cada vez mais Júlio Verne.

E ficção científica contemporânea, William Gibson, Bruce Sterling… você os lê? Como eu disse, não me interesso mais por ficção científica. Só na época de Fahrenheit 451.

Neste livro, você cria uma distopia em que os livros são proibidos. Não acha que hoje, com o excesso de informação que nos cerca, estamos perdendo contato com os livros que importam – do mesmo modo como, em Fahrenheit 451, os livros eram queimados? Sim! Temos informação demais! Hoje pensamos que somos mais espertos, mas não somos. TV e internet nos dão muita informação, mas não há cérebro ali, só falta de sentido. Você tem que saber escolher o que interessa e deixar de lado livros, artigos e filmes de que não precisa. Somos contaminados por factóides. Você não precisa dos resultados do futebol ou da vida dos atores e das celebridades… nada disso interessa. Você tem de se tornar um rigoroso censor desse tipo de coisa, para eliminar fatos indesejáveis e desfrutar da beleza da vida.

Com a revolução digital, há quem diga que já chegamos no futuro. O que acha disso? Não, não estamos vivendo no futuro. Vivemos numa lata de lixo, cercados de brinquedos e máquinas dos quais não temos a menor necessidade.

Ainda sobre Fahrenheit 451: o que achou do filme de Michael Moore que fez um trocadilho com seu livro, Fahrenheit 911? Moore é um bastardo estúpido! É um ladrão, um homem terrível! Um freaky vagabundo. Ele nunca ao menos me telefonou para avisar que usaria o título de meu livro… Sério, eu gostaria que ele queimasse no inferno!

Mas, e o filme, você viu? Por que veria? Você tá brincando? Ele roubou meu título! Aquele gorducho não passa de um bastardo débil mental, não me interessa.

Você gosta de assistir a filmes de ficção científica? Gosto de alguns. O melhor que vi até hoje é Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Viu? Se não, corra, vá ver!

Que conselho daria para os escritores do futuro? Quer escrever fantasia? Escreva fantasia. Quer histórias policiais? Escreva histórias policiais. Gosta de poesia, teatro? Faça o que quiser. Mas se você não amar escrever, por favor, não faça isso. Há escritores demais no mundo.

A última: assim como dizem que os EUA são a “terra das oportunidades”, há quem proponha que o Brasil é a “terra do futuro”, por conta de um romance do austríaco Stefan Zweig [de 1941]. Concorda? Olha, infelizmente nunca estive no Brasil, só na Argentina. Mas posso te garantir que nunca ouvi falar nisso de “país do futuro”…

O último cacique

Orlando, Leonardo e Cláudio Villas-Bôas

Acabei de ver Xingu, de Cao Hamburger, belo filme sobre a odisseia de três irmãos rumo ao Brasil Profundo. A produção tem alguns esquematismos, certa solenidade e peca um pouco nos diálogos, mas os atores são convincentes, a fotografia é excepcional e a narrativa emociona em vários momentos – como no primeiro contato dos Villas Bôas com os indígenas e na emblemática cena final. Pena que o filme esteja indo mal das bilheterias, porque é muito mais criativo – e necessário – que boa parte das produções em cartaz. À saída, lembrei que fiz, para a revista MIT, a última entrevista com o líder do trio, Orlando Villas Bôas, que aos 88 anos escrevia sua autobiografia. A história de um homem que viveu um dos últimos descobrimentos do Brasil: o do índio

Você tem 30 anos e um emprego bem mais ou menos numa multinacional. Divide um quarto de pensão com os irmãos que, como você, vindos do interior paulista, não se acostumaram a morar encaixotados na capital. A Segunda Guerra está quase no fim; a Europa, destruída, não sopra para você o menor glamour; os EUA se tornam a maior potência do Ocidente e voltam seus olhos gulosos para o mundo inteiro – inclusive para o Brasil, cheio de áreas ainda não exploradas. Por aqui, o país vive uma febre desenvolvimentista.

Mas você não está interessado em subir na vida, não quer saber de progresso, não está nem aí para a civilização, para mulheres, iates, automóveis. Procura o que, em 1943, ainda não era artigo raro: aventura. Fica sabendo que há uma expedição chamada Roncador-Xingu, que pretende conquistar o Brasil Central. Você sonhava em ser um herói. Mas não sabia ainda de que tipo.

Quando os jornais anunciaram que estava sendo organizada uma expedição ao Xingu, me apresentei ao coronel Vanique e disse que gostaria de participar”, conta Orlando Villas Bôas, 88, paulista de Santa Cruz do Rio Pardo, à Mitsubishi Revista. Lentamente, às vezes parando para ganhar fôlego – acaba de passar por delicada cirurgia –, ele relata: “O coronel disse que não queria gente da cidade. ‘Analfabeto tem mais resistência’, falou. Mesmo assim, deixamos nossos empregos: eu trabalhava na Esso; o Cláudio na telefônica e o Leonardo em uma importadora. Deixamos crescer também a barba, praticamos bastante falar errado e fomos para Barra do Garça, margens do Araguaia, Goiás, onde nos apresentamos como analfabetos. Fomos contratados na hora, como peões. Tudo estava numa bananosa, ninguém organizava nada. Um dia um piloto atolou o avião no campo e nos chamou para ajudar. Conversa vai, atola, desatola, viram que não éramos analfabetos. No dia seguinte virei secretário da base, Cláudio chefe do pessoal e Leonardo chefe do almoxarifado.Continuar lendo

Fora de lugar

Karen Blixen por Stephen Alcorn

A história de Karen Blixen, uma dinamarquesa que viveu aventuras na África que, quando voltou à terra natal, não se reconhecia mais como européia. Vivia entre a realidade e a fábula. Matéria de capa da revista MIT

Karen Blixen era uma mulher fora de lugar. Do começo ao fim de sua longa vida, a inadequação de existir foi sempre uma chave para a interpretação do mundo. Hoje é uma das senhas que permitem o entendimento de uma vida e uma obra tão fascinantes quanto enigmáticas.

Karen Dinesen Blixen nasceu em 1885 em Rungstedlund, Dinamarca, numa família de longas tradições aristocráticas porém já decaindo para a classe média. A mãe, a unitarianista Ingeborg Westenholz Dinesen, foi a primeira dinamarquesa eleita para uma câmara de vereadores. Quando Karen tinha 10 anos, seu pai, o militar, escritor e desportista Wilhelm Dinesen, suicidou-se – provavelmente movido por um ataque de nervos causado pela sífilis. Karen estudou em Copenhage, Zurique, Paris e Roma, e desde sempre o sangue ferveu na direção da literatura e da aventura. Começou a publicar cedo, aos 22, já usando um pseudônimo: Osceola, nome de um famoso líder indígena seminola (o pai de Karen havia vivido um ano entre os índios chippewa; outra hipótese para o suicídio teriam sido as saudades da vivência selvagem na América).

Karen levava uma juventude um tanto sufocante – e, enquanto publicava contos nos jornais locais e participava de modorrentos jogos de salão, sonhava com um título aristocrático e uma vida menos ordinária. A chance para fugir da doce porém chata existência burguesa veio através de um primo sueco, o barão Bror von Blixen-Finecke. Karen havia se apaixonado por seu irmão gêmeo Hans, que não queria nada com ela; Bror, mais focado em aventuras, tampouco pretendia levar uma vidinha de casado; assim, um arranjo entre os independentes jovens poderia ser interessante.

O pacote de casamento incluía uma fazenda no Quênia, no planalto ao norte de Nairóbi (na verdade, um sítio de 2 milhões de m2, mais tarde de 20 mi). A decisão de ir para a África foi determinante em toda a vida de Karen – e recebida com espécie na sociedade dinamarquesa; afinal, no início do século 20 não era nada natural que mocinhas da sociedade se metessem em um continente ainda desconhecido e selvagem. Continuar lendo

Wong Kar-Wai + John Cage

100 noção


Faz mais ou menos 22 anos que eu faço parte desses 100 anos. Uma das raras coisas de que realmente posso falar ‘faço parte’ é esse bando de loucos. Fiquem com dois modestos golzinhos para comemorar o centenário do Sport Club Corinthians Paulista.

O primeiro é o doc Só Quem É Sabe O Que É, co-dirigido com Phydia de Athayde e Artur Voltolini, co-produzido pela PorqueEu Filmes. É a história do Timão narrada a partir da descida à série B, exclusivamente do ângulo dos torcedores.

O segundo gol, mais individualista, foi uma contribuição para a Revista Nacional do JR Duran. Ele tinha umas fotos de torcedores do São Paulo e do Palmeiras e me perguntou se eu não teria algum texto sobre ‘torcidas’. Torcendo um pouco seu briefing, narrei a primeira vez que fui ver um jogo do Corinthians – justamente contra o Tricolor. Então o texto também serve pra festejar o tabu de 4 anos sem perder do pó-de-arroz… Bola rolando!

Majestoso

A primera vez que um corinthiano invadiu a pequena área são-paulina

– Inho, inho, inho! Eu já peguei nos peitinho! Inho, inho, inho! Eu já peguei nos peitinho!

Na arquibancada Mauro pulava feito debilóide: a TV Globo tinha focalizado a Vanessa, nossa musa de prédio, a dez metros de nós – mas do outro lado das cordas que nos separavam. Deus, que dupla de ataque a loura tinha.

– Ilho, inho, inho! Eu já peguei nos peitinho! – a gente ecoava o Mauro, e logo nosso grupo era parte de um corinho, depois um coro maior, e a palavra de ordem foi crescendo até ser tomada por umas cinqüenta pessoas à nossa volta, que cantavam e apontavam a menina, e o inho ia aumentando, aumentando até se metamorfosear em ão, de repente o cântico se tornou o grito da Gaviões da Fiel, e logo em seguida, tudo, tomou conta dos gogós nos nossos sete gomos do estádio do Morumbi:

– Ão, ão, ão, eu já peguei nos peitão!

E a linda e peituda Vanessa, a ex-namorada do Mauro, ainda sorrindo para a câmera, quando afinal se deu conta de que aquele refrão era todinho pra ela, trinta mil pessoas em religiosa louvação, ficou com o rosto na cor que diferenciava as duas torcidas. Mas nem deu tempo de a moça passar do vermelho pro roxo porque logo em seguida o time alvinegro entrou em campo e o Morumbi foi coberto pelo cheiro denso da pólvora… e por uma fumaça preta atiçada pela torcida e pelo hino inigualável em sua vocação à melancolia do pós-guerra, à marcha de quarta-feira de Cinzas em tom menor:

– Salve o Corinthians… o campeão dos campeões…

10 de julho de 1988, quartas-de-final do campeonato paulista. Era meu primeiro jogo como torcedor. Continuar lendo

Simpatia pelo demônio


A história de Uschi Obermaier, a primeira top model alemã, mulher mais sexy dos anos 60, namorada de ativistas políticos, de astros do rock’n'roll, de donos de cabarés – e de marinheiros de sorte incomum. Perfil para o número 1 da linda revista The President

Rudolf Liebzeit é um grande azarado. Ou um sortudo nascido virado pra Lua. Tudo depende do ângulo que você vê as coisas. Rudolf nasce numa cidade destruída. Munique, 1946. Os amigos vivem tirando sarro do seu sobrenome, que quer dizer “tempo de amor”. Quando faz 16 anos, Rudolf (vamos chamá-lo Rudi) alista-se para ser marinheiro num dos mais famosos navios de seu tempo, o Pamir. Todos os amigos já tinham feito a inscrição, seria uma aventura maior que a vida. Na véspera da partida, em Hamburgo, Rudi sente uma dor insuportável no ventre. Apendicite aguda. Vai para o hospital e perde o embarque. Ganha uma melancolia incurável. Já restabelecido, de volta a Munique, Rudi fica sabendo que o Pamir tinha sido afundado por um tufão nos Açores. Das 86 pessoas a bordo, seis se salvaram. Todos os amigos mortos. Rudi ganha um olhar ainda mais triste. Sua tristeza comove uma amiga da escola, a maravilhosa Chrissie Malberg. Tempo de amor.

Só que a melancolia de Rudi não passa. E Chrissie é linda demais para a morta Munique, até então só conhecida pela Oktoberfest e por ter presenciado a ascensão do nazismo. Chrissie tem vinte e um anos e muita pressa. “Naquele verão de 1967, em Paris os estudantes escreveram Poder Para a Imaginação nos muros. Em San Francisco o povo dançava na rua e lutava pelo que queria fazer na vida. Eu estava em casa em Sendling, subúrbio de Munique. Senti que ia morrer uma morte lenta e infinita daquele jeito. A única coisa que me mantinha viva era a música. E estava claro pra mim. Tudo o que eu precisava era de um homem. Quanto mais selvagem, melhor. ” O quase marujo não é selvagem o bastante. O tempo não está ao seu lado. Auf Wiedersehen, Rudi. Continuar lendo

Só quem é sabe o que é


Este sábado acontece a estréia mundial de Só quem é sabe o que é, dirigido por Phydia de Athayde, Artur Voltolini e este que vos tecla, com edição de imagem da PorqueEu, trilha do DJ Asma e produção da RT/Features.

É um documento muito particular da descida do Corinthians aos inferninhos da série B – pelo ângulo dos torcedores. Não rola jogador, nem time, nem treinador, nem diretoria, nem cartolagem: a cara aqui é a do povão.

O doc, que dura meio tempo de jogo, 45 minutos, vai passar na festa de terceiro aniversário da Rua São Jorge [facção da Gaviões da Fiel], às 13h, depois do DJ Tito ZS e antes do Xis. Na rua Tabatinguera, 192, Centrão, do lado da praça da Sé. Bora lá, bando de louco.

Major Tom to Ground Control


Filme maravilhoso. Um crime não passar nos cinemas brasileiros. Na Wired de junho [to meio atrasado] saiu boa matéria com o diretor, Duncan Jones. Para pesquisar: a cena da faca será mais uma referência carinhosa ao pai do diretor, David Bowie?

Bunda que pensa


>>> Rita Cadillac foi entrevistada pela elegante Carol Sganzerla e este que vos tecla para as Páginas Vermelhas da Tpm do mês (a primeira dupla Sganzerla-Bressane desde o cinema udigrudi). Segue meu abre integral do entrevistão com a musanfã…

Rita Cadillac em foto para revista Sexy – aos 50

Dançarina, atriz, cantora, chacrete, madrinha de escolas de samba e penitenciárias, estrela de chanchadas e pornôs, Rita Cadillac, 55, dona da traseira mais famosa do país, é estrela do documentário Lady do Povo: “Quando morrer, quero ser enterrada de bruços, pro povo me reconhecer

Rita Cadillac não sabe dirigir. Na única vez ao volante de um carango, capotou-o numa curva do Alto da Boa Vista, Rio de Janeiro, quebrou o braço e quatro costelas e perdeu a confiança para guiar. Rita não sabe nem dirigir a própria vida: “Tudo sempre aconteceu por acaso. Não acredito em sorte; em destino, sim“, afirmou à Tpm, dentro de um vestido azulzinho mais apertado que a justiça divina, ao mesmo tempo em que na TV rolava um Vale a Pena Ver de Novo. A culpa toda é da Verinha. Vai vendo que novelão. Continuar lendo

I’ve seen that picture



The Trip, de Roger Corman. Roteiro de Jack Nicholson. Com Peter Fonda, Susan Strasberg, Bruce Dern, Dennis Hopper.

Jogo duro

>> Resenhol pro Outlook de 6-2

Pais que procuram filhos, filhos que se perdem dos pais: no melhor romance de William Kennedy, trama de mistério no submundo faz cortina de fumaça para densos conflitos psicológicos

William Kennedy, alive and kicking aos 82

Cara, como escreve esse tal de William Kennedy. Ele faz a coisa toda parecer moleza – entenda-se recriar uma cidade, da mais alta aristocracia à mais rala ralé, minuciosamente detalhando os mecanismos que unem esta àquela, incluindo blefes, sacadas geniais e golpes abaixo da linha de cintura. A cidade é Albany, capital do estado de Nova York, onde Kennedy nasceu; ali ambientou os sete livros do chamado Ciclo de Albany, que o inscrevem numa linhagem literária que tem ninguém menos que James Joyce como padrinho (por conta da reinvenção de Dublin em Ulisses). Deste ciclo, o livro mais admirável é O grande jogo de Billy Phelan (Cosac Naify, 341 págs).

Na superfície, parece uma história sobre jogadores, encrenqueiros, vagabundos, arrivistas e mentirosos – as descrições vivazes dos ambientes de boliche, pôquer e sinuca lembram mesmo os cenários rememorados por João Antônio em Malagueta, Perus e Bacanaço. Como o escritor e jornalista paulistano, Kennedy frequentava os ambientes que desenha em sua prosa. Um desses malandros é Billy Phelan, um trintão irlandês que todos em Albany querem por perto: craque em todo esporte ou jogo em que se mete – futebol americano, boliche, palitinho –, sempre vestido na estica, fiel com as mulheres, leal com os amigos, liso para andar no meio-fio entre a lei e a pilantragem, independente até o último centavo, língua afiada feito faca: “Esse aí não abre a mão nem para dar um grampo de cabelo a uma puta doente“, diz de um parceiro de pilantragem mão-de-vaca. Na mesma noite em que consegue incríveis 299 pontos com a bola furada – literalmente matando de raiva seu adversário –, Billy fica sabendo que um amigo de infância, Charlie Boy McCall, foi sequestrado. É aí que a trama evolui para um jogo político e até metafísico, adensando a psicologia das personagens e demonstrando que o verdadeiro foco de Kennedy são as conflituosas relações entre pais e filhos.

Charlie Boy é filho do homem que controla a jogatina da cidade – como essas coisas nunca estão muito distantes, é também sobrinho dos políticos mais importantes da região. Albany é pequena: vieram da mesma vizinhança pobre tanto os McCall quanto os Phelan e a família de Martin Daugherty, jornalista que é uma espécie de protetor de Billy (e, de certa forma, alter ego moral de Kennedy). Para aliviar o peso e a angústia por ter um filho padre, que vive longe, e ser ele mesmo filho do principal escritor da cidade, com quem divide uma amante, o que o faz se sentir um fracassado, Daugherty joga nos cavalos – e fatura alto. Só que seu bookmaker é ninguém menos que Billy. O malandro está encrencado: enquanto precisa descolar o dinheiro de Daugherty, para confirmar no submundo de Albany sua ética irrepreensível, é pressionado pelos McCall a dedurar um amigo, suspeito de participar do rapto de Charlie Boy. Para tornar as coisas ainda mais nebulosas, o pai de Billy, desaparecido há 20 anos, regressa a Albany. É o jogo mais difícil em que o finório já se meteu.

Kennedy escreve como o jogador de sinuca que se faz de sonso, sem pressa para encaçapar todas as bolas: numa linguagem que equilibra a sabedoria das ruas com o olhar fino do literato, tudo sem alarde, com fluência e elegância (os relatos das jogadas de sinuca de Billy estão entre os grandes momentos do livro). A ótima tradução de Sergio Flaksman permite observar como Kennedy capta a atmosfera verbal do submundo sem maltratar gramática e concordância. O Ciclo de Albany se inscreve na grande tradição realista norte-americana, mas não perde de vista certa propensão “irlandesa” ao sobrenatural – como nos espíritos que Billy pressente no rio Houston ou nos presságios precisos de Daugherty. Kennedy foi jornalista a vida toda, escreveu o roteiro de Cotton Club, de Francis Ford Coppola, e entre seus grandes amigos estava o jornalista gonzo Hunter S. Thompson. Aos 82, ainda circula por Albany. O próximo lançamento da editora é um de seus livros mais famosos, Ironweed, adaptado por Hector Babenco, com Jack Nicholson e Meryl Streep. Esperamos que se publique todo o ciclo: os leitores – e jogadores – agradecem.

>> Aqui no blog da Cosac tem um texto muito legal do Flaksman, contando sua visita a Mr. Kennedy em Albany. E aqui uma excelente entrevista que o Fábio Victor fez com o veinho, em que ele revela concluir, aos 82, o oitavo romance do Ciclo.

The age of lust is giving birth



Doc da TV canadense com o gentleman Leonard Cohen, quando ele ainda era somente um poeta prodígio [além de sósia de Dustin Hoffmann]. 40 minutos de classe e leve desespero. Pra ir preparando sua vinda ao Brasil… ou, ao menos, o lançamento por aqui de seu primeiro romance, The favorite game.

Graffiti desastre



Deve ser foda esse filme do Banksy. O Guardian resenhou.

Seu monstro!


>> Resenhol de sábado pro Outlook no BrasilEconômico

Monstros Ilimitados

Clássico infantil de Maurice Sendak é finalmente lançado no Brasil, seguido por recriação de David Eggers e filme de Spike Jonze

Todo menino de oito anos é um monstro. Os dentes de leite estão caindo, a segunda infância mal chegou, a adolescência parece um lugar nojento e o universo adulto é detestável. De repente, o mundo administrado surge triturando todo indício de sonho. Qual a saída para este serzinho estranho? Fugir para onde vivem seus iguais – os monstros. Esta seria uma interpretação à clássica fábula moderna Onde vivem os monstros, de Maurice Sendak (finíssima edição da Cosac Naify), que, traduzido em 20 países e com 19 milhões de exemplares desde o lançamento em 1963, reúne entre seus fãs do presidente Barack Obama ao diretor John Lasseter (de, como você viu pelo vídeo acima, Monstros S/A – no AMC Movie Blog tem uma reveladora comparação entre as duas obras).

O livro não agradou de cara. “Só críticas negativas… Aí, dois anos depois, descobriram que nas bibliotecas as crianças estavam loucas por ele!“, recorda o escritor e desenhista Sendak, um ranzinza novaiorquino de 81 anos. Narrativa revolucionária para época, a história é narrada quase sem palavras. Max, um capeta em forma de guri que não desgruda da fantasia de lobo, um dia apronta tanto que a mãe o manda para o quarto sem jantar. Seu quarto vira uma floresta, e, ali perto, um barco o convida à aventura no oceano. Dias e dias velejando, Max aporta em uma ilha habitada por bichos gigantescos, que querem comê-lo. Max os domina com seu charme; e se torna O Rei dos Monstros. A ilha é uma festa. Porém, logo vem o tédio, a saudade… e o menino ouve de novo o chamado do mar. E retorna ao quarto – onde o jantar o espera, quentinho.

A idéia de que toda criança é um ser diferente que deseja governar um território selvagem (o título original é “Where the wild things are”) não surgiu assim tão clara a Sendak. Para desenhar os maravilhosos monstros, o autor se inspirou nos tios e avós, judeus que fugiam do Holocausto e foram acolhidos pelos pais. “Tudo neles era tão alienígena! Eu e minha irmã éramos americanos; não queríamos ser estrangeiros. E eles falavam iídiche; não os entendíamos… Não os queríamos por perto. Em seu jeito rude de demonstrar afeto, me assustavam. Achava que poderiam me comer!“, contou Sendak ao guia NYCGo. Outra inspiração veio da própria Nova York: Sendak é do Brooklyn, e a primeira visão dos iluminados edifícios de Manhattan imprimiu em sua imaginação uma cidade amedrontadora, povoada por seres fantásticos.

Na Newsweek, o genial e genioso Sendak mandou pro inferno os pais que reclamam do caráter assustador do livro. “Que as crianças molhem as calças, ora!“, chiou o autor de mais de 100 histórias infantis, cujo mítico mau humor distancia sua figura de duende da de um bom velhinho fabulista – como se nota nessa ótima conversa à National Public Radio .

Sendak me determinou que o filme deveria parecer perigoso; que respeitasse as crianças e não as tratasse como inferiores“, detalhou o cineasta Spike Jonze sobre as filmagens de Wild Things, realista adaptação roteirizada por ele e David Eggers – Sendak, que detesta Walt Disney, era contra o livro ser recriado como animação. O longa de Jonze (Quero ser John Malkovich) recém-estreou nos EUA, conquistando crítica e público; no Brasil, será lançado em janeiro de 2010. Enquanto isso, o leitor terá em breve o romance Os monstros (Companhia das Letras), que Eggers burilou sobre o roteiro – as 37 páginas do livro de Sendak foram amplificadas para mais de 300 no novo livro. Hábil na investigação da psique infantil, o jovem autor de O Que é o Quê renovou o argumento de Sendak: além dos seres bizarros, Max confronta-se com pai ausente, mãe namoradeira, irmã egoísta, escola chata, amigos cruéis. Monstros bem mais assustadores que um fofinho galo de quatro metros de altura resfolegando “Eu vou te comer“.