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Cadão grandão

Marsha Cottrell. Under the Illuminating Hydrogen 2012  (detail), iron oxide on mulberry paper, 62 x 105” (157 x 266.5 cm).

Marsha Cottrell. Under the Illuminating Hydrogen 2012 (detail), iron oxide on mulberry paper, 62 x 105” (157 x 266.5 cm).

Um dos artistas mais versáteis surgidos nos anos 80, o músico, jornalista, ilustrador e contista Cadão Volpato lança hoje, quarta-feira 15-5, seu primeiro romance. Perfil para o Valor Econômico

Rivoli é um arquiteto paulistano, mas mais parece um sueco que tivesse saído de um filme de Jacques Tati: altão, louro e de olhos azuis, tem uma aura permanente de bebê espantado. Seu escudeiro, Tortoni, é o oposto: baixinho, troncudo, o taxista portenho é solícito e esperto. Ambos se irmanam nesse ar distraído, de clochard, de quem está fora do lugar. E estão: perdidos no meio da Argentina, procuram um incerto “hotel do fim do mundo” na Patagônia. Mesmo antípodas, criam uma amizade que lhes será cara, mais tarde, quando as ditaduras de ambos os países começarem a pegar pesado. Estamos nos anos 70, no romance Pessoas Que Passam Pelos Sonhos, que mostra outra faceta da caleidoscópica obra de Cadão Volpato.

A trajetória do artista começa na cena independente do rock dos anos 80, liderando a banda mais cultuada do período, Fellini, que gravou seis álbuns pouco vendidos, mas inspirou dúzias de músicos — entre eles, Chico Science. Anos depois, aquele roqueiro meio nonsense notabilizou-se como apresentador de TV (Metrópolis) e colaborador de vários veículos (como este Valor). Talvez música e jornalismo tenham ocultado seu coté contista, que rendeu quatro livros, todos habitados por um embate entre leveza e peso: Dezembro de um verão maravilhoso, Ronda noturna, Questionário, Relógio sem sol. Os caminhos paralelos no realismo na reportagem e no surrealismo da arte cruzam-se neste primeiro livrão de Cadão, uma narrativa de 300 páginas.

Escrevi o livro em um mês“, conta Cadão, fatiando um filé à parmegiana no Ugue’s, lendário boteco de Santa Cecília, bairro onde tem um escritório em uma sala dividida em co-working com outros artistas. “É uma história de homens distraídos. Aliás, esta é uma característica bem masculina: já reparou como as mulheres sempre reclamam que nós homens somos distraídos?“, ri. Convidado pela editora Babel para publicar um livro, Cadão deu-se o deadline de quatro páginas por dia, até que, aos poucos, aquele artista feito nas formas breves do conto, da canção e do desenho viu sua narrativa capturada por um fôlego maior. E estruturou um romance em imagens e cenas, sutis como os desenhos de Sempé ou Saul Steinberg. Influências sentidas, aliás, nas ilustrações de seu infanto-juvenil Meu Filho Meu Besouro e nas imagens que em breve reunirá em uma exposição em São Paulo (algumas podem ser vistas em seu site).

Livro entregue, a editora Babel cumpriu o destino prefigurado em seu ambicioso nome e esfacelou-se. Felizmente o autor salvou o rebento da tragédia e o reencaminhou às mãos da Cosac Naify, que envelopou a história no belo projeto gráfico de Flávia Castanheira, usando as “constelações imaginadas” da artista Marsha Cottrell. Trata-se de “uma epopeia fantasmagórica” conforme o crítico de arte Rodrigo Naves etiqueta o livro na orelha: à força de descorporificar seus personagens, a narrativa os volatiliza no limite do traço, aparições, como “pessoas que passam pelos sonhos“.

Narrando na terceira pessoa, a câmera de Cadão acompanha os personagens com a estranheza de um Google Street View, perto e longe, a uma altura flutuante, mantendo seus rostos visíveis o suficiente para que com eles nos familiarizemos, mas borrados, para que não possam ser reconhecidos de bate-pronto. “A natureza dos fantasmas é muito fluida“, insinua o narrador. Apesar de inexistir tensão ou conflito evidentes, aos poucos nota-se que o embate na trama se dá entre leveza e peso. “Por delicadeza perdi minha vida“, diria Rimbaud, definindo estes personagens ligeiros demais para enfrentar o Leviatã: as ditaduras que estremeceram Argentina e Brasil nos anos 70. A violência é mais espessa por não ser vista. Para uma criança, militantes que apanham em um corredor polonês podem parecer como recém-casados que protegem a cabeça ao receber o arroz na saída da igreja. Assim, uma ternura mediterrânea, meio doida, meio tola, atravessa essas vidas sem pendão para o épico: de Lao, o estudante de arquitetura escalpelado pelos milicos; Gábi, a botticelliana adolescente que enlouquece uma cidadezinha paulista; Asia, a enigmática mulher do arquiteto peruano; Francesco, o carente craque canhoto; e…

Há um segredo no livro“, sugere Cadão. “Está escondido, não chamo a atenção pra ele. Vou te dizer, mas você não pode escrever sobre, hein?“, pede. O segredo de que fala é o que torna a narrativa tão angustiante — uma realidade assustadora que pode deixar sem chão o leitor, ao desvendá-la. Seu tom aproxima a escrita do terreno de Pedro Páramo, de Juan Rulfo, e Conversa na Sicília, de Elio Vittorini. E também distancia o livro de duas tendências arraigadas na literatura contemporânea: o realismo e a autoficção.

Talvez por ser jornalista, Cadão guarda alguma repulsa pela “vontade de exaurir a fisicalidade” de descrições e psicologia, como supõe o realismo, e a “mania de falar de si mesmo” presente na autoficção. “Gosto de deixar um espaço para a imaginação do leitor“, explica, já pedindo o segundo café. A despeito de sua viagem pelas ditaduras latino-americanas ter muito de verdade, não há no livro pontes imediatas com “fatos reais” nem com a experiência do autor. Sim, Cadão foi militante da Libelu, movimento estudantil trotskista. Mas é outra vertente de sua vida que atravessa as páginas de Pessoas Que Passam Pelos Sonhos: o surrealismo. O mesmo que o fez encarnar, em um seminário concorridíssimo na USP dos anos 1980, o cineasta suíço Jean-Luc Godard — que, estranhamente, só falava em português.

Ou quem sabe fosse mesmo Godard, de passagem por algum sonho de Cadão. Mas esta já é outra história.

Amor = Humor


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Estão juntos há 3 anos, se conhecem desde os 11 e não param de trabalhar juntos (e muito). O casal Clarice Falcão e Gregorio Duvivier são a coisa mais engraçada e graciosa do novo humor brasileiro. Perfil duplo para a revista Bravo! do mês de abril

Enquanto pesquisava vídeos e performances de Gregorio Duvivier na internet, o repórter recebeu uma chamada no celular. Coincidência: era Gregorio Duvivier. No entanto, após algumas tentativas de comunicação, o repórter notou que não era Gregorio Duvivier quem o havia chamado — e sim, o bolso dele. Sem querer o ator tinha resvalado em “ligações recentes” e o smartphone, smart demais, chamava o repórter (que pouco antes havia combinado uma entrevista para o dia seguinte). Mas, apesar de não se dirigir ao repórter, a voz de Gregorio Duvivier soava. Plena meia-noite de domingo, Gregorio Duvivier ensaiava para a peça que estrearia dali a uma semana, o musical Como Vencer na Vida Sem Fazer Força.

Teatro, internet, TV fechada, TV aberta, literatura — e até no celular alheio: Gregorio Duvivier está em todos os lugares. Claro que sua musa estaria à altura de tanta atividade: é Clarice Falcão, atriz, cantora, roteirista, parceira de vários esquetes no Porta dos Fundos, a produtora de vídeos de humor que já soma 72 milhões de visualizações em seu canal no YouTube. O casal ultrajovem (26 ele, 23 ela) é responsável por alguns dos esquetes mais nonsense do canal: “O homem que não sabia mentir“, em que Gregorio não consegue forjar desculpas esfarrapadas a Clarice e é traído por uma voz bizarra denunciando o que fazia de verdade; “Barata no banheiro“, em que Clarice pede para Gregorio matar uma barata no banheiro mas a tarefa se revela impossível; “Versão brasileira“, em que Gregorio assusta Clarice ao acordar com a voz dublada como em um seriado americano; “Setor de RH“, em que os Supergêmeos do desenho animado são despedidos da liga de super-heróis; e “Essa é pra você“, em que Clarice, cantando uma canção folk, revela para Gregorio que o engana com o porteiro.

Os esquetes da dupla consagram a química aprovada na minissérie O Fantástico Mundo de Gregorio, um falso reality show estrelado por ambos, e na peça Inbox, escrita pelos dois, sobre John e Clara, um casal que se apaixona via internet. “A gente queria entender como é esse lugar que ocupa na vida das pessoas o virtual, esse lugar que é verdade mas não é“, diz Gregorio, em conversa com Bravo! em um café do Leblon. “E existe um suspense porque um personagem pode ser uma mentira, e a personagem também, porque o virtual é cheio de máscaras, um mundo de fantasia e ficção“, emenda Clarice (sim, eles são o tipo de casal em que um começa uma frase e o outro termina). O processo de criação da peça, que ficou em cartaz em 2011, foi curioso: escreviam juntos a escaleta — enredo básico, descrevendo cenas — e depois cada um escrevia os diálogos separadamente; às vezes, Clarice escrevia as falas de John, e Gregorio, as de Clara.

Mundo comédia

Tanto o falso reality quanto os esquetes do Porta dos Fundos expõem a paixão do casal pelo humor feito através do documental, presente no sitcom Curb Your Enthusiasm de Larry David, no seriado The Office ou na literatura de Miranda July e no trabalho de Mike Berbiglia. “As comédias de antigamente tinham aqueles diálogos tão espertos que pareciam inventados, um tom farsesco. Mas a gente gosta desse tipo de situação em que os atores gaguejam, em tom realista“, diz Clarice. “No Brasil tem um problema: o ‘tom de comédia’, ‘música de comédia’, ‘direção de arte de comédia’, como se fosse só se pudesse rir em um outro universo, onde as pessoas reagem de uma maneira diferente“, diz Gregorio.

Estereótipos, música sublinhando a piada, sabe? Fo fo fo fonnnnn“, explica Clarice. “Nossa briga é juntar uma coisa de verdade, algo de improviso, com um texto forte por trás. Mas na TV você não pode contar com a cumplicidade da plateia como acontece em um show de improviso como no Zenas Emprovisadas“, diz Clarice, se referindo ao show de humor de que Gregorio participa há 10 anos, ao lado de nomes como Marcelo Adnet, Fernando Caruso e Rafael Queiroga.

Além de brigar contra estereótipos, os dois detestam tanto a correção política quanto a falsa incorreção política — aquela que, para demonstrar independência, se permite fazer piadas reforçando velhos clichês, algo muito presente no stand up. “Fazer stand up nunca foi minha praia“, conta Gregorio. “É chato porque nos EUA é feita pra boteco, e no Brasil ocupou espaço de teatro — e não vejo sentido dar um palco enorme pra um ator; como um cara que adora teatro, acho meio exagerado“, diz, criticando o excesso de stand ups que invadiu o teatro brasileiro. “Aqui no Rio parecia igreja evangélica: ‘Caralho, perdemos mais um teatro pro stand up!’“, ri — relevando que a importância do stand up foi revelar novos autores.

Falso politicamente correto

Mas tem críticas ao formato. “Me irrita ver as pessoas falando o mesmo texto: ‘Ah, sabe uma coisa que eu não entendo? Estava vindo pra cá e…’ É tipo mesa-redonda de futebol: você quer que o sujeito lá em cima fale o que você acha. Vejo o público ir ao stand up para verem seus estereótipos serem confirmados pelo cara ali em cima. Vira comício, palanque; não é humor. E os comediantes acabam escravos da plateia que querem agradar e dão coisas fáceis, tipo ‘a Preta Gil é gorda’, ‘gaúcho é viado’…“, analisa Gregorio. Clarice atalha: “E as piadas politicamente incorretas que pretendem demonstrar independência em relação ao politicamente correto usam coisas tipo ‘preto é igual macaco’, que, poxa, são totalmente reacionárias, fazem há mil anos“, afirma.

Porém, o politicamente incorretíssimo é a praia do Porta dos Fundos. Em “Confessionário“, um padre confessava a um colega que abusava de um menor que já era abusado pelo primeiro, só para lhe provocar ciúme; em “KKKKKK“, um desastrado membro da Ku Klux Klan convidava negros para participar de uma manifestação. “Acho importante que o riso recaia sobre o mais forte. Nesse esquete o riso está sobre os padres pedófilos. No ‘KKKKKK’, ridículos não são os negros, e sim os racistas“, diz Clarice. “A gente tenta fazer piadas que ainda não fizeram“, afirma Gregorio. “Se tiver um esquete com um português, ele não vai ser burro. No Mundo do Gregório, havia uma situação em que um anão ganhava de mim em um teste. Queremos o humor de inversão“, conclui.

Para um casal de criadores tão autoconscientes do que fazem, parece estranho ouvi-los criticar um procedimento por excelência do humor sofisticado: a ironia. “A gente está no processo de se livrar da ironia, do blasé“, diz Clarice. Gregorio rebate: “O YouTube gerou essa indústria de pessoas rindo dos outros: é a indústria do schadenfreude, da videocassetada, de zoar a pessoa se fodendo“, diz. Clarice defende: “Pega supermal aparentar ser ingênuo, e criou-se essa bancada do Twitter, do Facebook, de comentadores de sites, de gente que não produz nada e só ridiculariza. Esses ‘haters’ são juízes. Fico agoniada com a internet porque às vezes você percebe uma energia ruim em coisas que lê“, confessa Clarice, que sempre tromba com os “haters” por conta da megaexposição de seu canal no YouTube: ali, o curta “Laços“, escrito por sua mãe, a dramaturga Adriana Falcão, foi um dos mais vistos em todos os tempos — e a canção “Monomania“, dedicada à sua obsessão por Gregorio, já alcançou mais de dois milhões de visualizações.

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Por falar em laços, o casal, além de super enturmado em uma enorme trupe de talentos que inclui o cineasta-prodígio Matheus Souza, e os outros membros do Porta dos Fundos, como Fábio Porchat e Antônio Tabet, está cercada de artistas na própria família. Clarice é filha dos roteiristas Adriana e João Falcão; Gregorio, do músico e escultor Edgar Duvivier e da compositora Olívia Byington, e enteado do diretor e produtor Daniel Filho. Ajudam ou atrapalham?

Na verdade, a gente adora trabalhar em família“, diz Clarice. “Mas, por meus pais seram tão criativos na escrita, fui por caminhos diferentes, tentei a música, por exemplo.” Gregório concorda: “Meu pai toca 15 instrumentos, esculpe e pinta, minha mãe tem o ouvido absoluto… é uma concorrência desleal. Mas é uma coisa meio circense… a gente vem de estruturas que também são familiares profissionalmente, então é natural todo mundo trabalhar junto“, diz.

TV pra quê?

Cinema está nos planos da dupla dinâmica. Querem tanto escrever uma comédia romântica quanto fazer um longa-metragem para o Porta dos Fundos — que também tem sido assediado pela Globo. Gregorio hesita a respeito de entregar o capital somado pelo coletivo de humor na internet à televisão ou ao cinema. “Na TV aberta a gente não vai poder fazer uma série de coisas: tem que domar palavrões, não pode brincar com marcas, por exemplo“, diz. “E no cinema corre-se o risco de fazer uma longa piada sem graça ou juntar vários esquetes desconexos, que não dá certo, como se viu nos filmes do Casseta & Planeta. Estamos pensando nessas opções com calma“, afirma Gregorio, que tem equilibrado aplausos pela atuação surpreendente no musical Como Vencer na Vida, e encarado críticas à comédia Vai que Dá Certo, de Maurício Farias (que, apesar das resenhas negativas, faturou a décima maior abertura do cinema brasileiro pós-retomada).

Misturar amor e trabalho não desanda na receita da dupla, é o que dizem. Embora na fase do namoro — Clarice mora com os pais e Gregorio vive sozinho na Gávea — , os dois dizem que o relacionamento só bambeia quando ficam longe demais um do outro. “Quando a gente briga, e não briga muito, em geral é porque a gente não está trabalhando junto“, diz Clarice. É uma história que vem de longe: Gregorio conheceu Clarice pois ela era fazia jazz com a irmã — ela estava com 11 anos, ele com 14. Depois Gregorio trabalhou com o sogrão João Falcão, aos 17, e a amizade seguiu via MSN. Encontraram-se de novo na PUC, quando ela começava a estudar cinema e ele terminava letras (sua TCC rendeu o livro de poemas A Partir de Amanhã Eu Juro Que a Vida Vai Ser Agora, elogiado por Millôr Fernandes e Paulo Henriques Britto). O namoro só engatou depois de uma sessão do Confissões de Adolescente, que Clarice fazia com Matheus Souza: os dois ficaram e nunca mais desgrudaram.

O primeiro filme protagonizado por Gregorio, o elogiado Apenas o Fim, dirigido por Matheus, era para ter sido estrelado por Clarice — mas ela se recusou a refilmar uma cena e acabou cortada. Mas, no segundo longa de Matheus, Eu Não Faço a Menor Ideia do Que Eu Tô Fazendo da Minha Vida, a ganhar as telas em maio, é Clarice a estrela, personificando uma garota que enquanto não decide se vai cursar medicina fica matando aula e conhece um rapaz interessante (não, não é o Gregorio; neste filme ele faz só uma ponta). O longa de Clarice, aliás, deve estrear na mesma época em que a talentosa garota sai em turnê de lançamento do primeiro álbum, reunindo as canções viralizadas pelo YouTube e mais uma meia dúzia de inéditas, sempre em seu estilo voz-e-violão temperado com muita fofura freak agridoce. “Fofura freak agridoce“: eis uma boa definição para este adorável casal.

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100 dias de Haddad

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Tae kwon do, violão clássico, marxismo moderno e política olho no olho: alguns dos temas articulados por Fernando Haddad, o prefeito mais surpreendente produzido por São Paulo. Perfil de capa da revista Poder de março

Seu Fernando abre a porta com a cara amassada, cabelo revolto, camisa amarrotada, olhos vermelhos. Sorri, jeitão despachado: “Que coisa, gente… capotei numa soneca, desculpem. Entrem, querem uma água, um café?“, oferece. Um cão velho, meio labrador, meio golden retriever, vem sorrindo com o rabo e senta-se aos pés de Seu Fernando, que parece atordoado no sofá da sala de seu apartamento. “Sentem, por favor. Começamos pela foto ou pela conversa?” O fotógrafo sussurra que, como a imagem de Seu Fernando vai parar na capa da revista, talvez fosse interessante trocar de camisa. Dois minutos depois e Seu Fernando volta numa camisa listrada clara, para fora da calça, o jeitão ainda despachado —porém os olhos agora estão alertas e o cabelo, impecável. “Podemos começar?

Seu Fernando é assim chamado pelo porteiro do prédio onde vive, no Paraíso — um desses edifícios dos anos 70 de pé-direito alto e arquitetura tão despretensiosa que passam batidos; sua vista é para outros edifícios de classe média, sem céu, skyline tipicamente paulistano. A reportagem de PODER fica intrigada: cadê a segurança da prefeitura? “Não tem segurança“, afirma Fernando Haddad, 49, mandatário da sexta mais populosa cidade do mundo, que concentra o décimo PIB entre as cidades do planeta e 13% de todo o PIB brasileiro. “A segurança da prefeitura se queixa, mas não quero guarda-costas pra passear com o cachorro e andar de bicicleta com minha filha no Ibirapuera. O prefeito tem que sair na rua, explicar às pessoas o que acontece. A segurança diz que é perigoso: a gente compra briga, demite, corta contrato de empresa poderosa… deve ter gente que não gosta de mim. Mas prefiro assim.

De fato, embora Haddad seja elegante no trato com o prefeito anterior — afinal, o PSD de Gilberto Kassab pertence à base aliada do governo federal —, seus atos em seus primeiros cem dias não deixam dúvida para com a impressionante mudança no estilo de governar. Uma das brigas que comprou é com a empresa Controlar, responsável pela inspeção veicular em São Paulo. Segundo Haddad, por conta dessa taxa a cidade perde cerca de R$ 250 milhões anuais em IPVA — os motoristas preferem emplacar o carro nas cidades vizinhas para fugir da taxa —, e além disso, a Controlar é uma “empresa ficha-suja“. O prefeito também afastou 400 pessoas em pleno Carnaval: todos funcionários ligados à gestão Kassab, a quem o prefeito evita criticar diretamente — mas, para bom entendedor, os recados são claros.

No mesmo dia da entrevista, um sábado, Haddad tinha dado o pontapé inicial em uma gigantesca obra na região sul, na avenida M’Boi Mirim, que combina piscinões e novas avenidas que custarão cerca de R$ 400 milhões. Na inauguração, destacou: “Em menos de 60 dias, conseguimos uma licença ambiental que estava parada há mais de ano”. Só nos primeiros 50 dias de governo o prefeito participou muito mais de reuniões com o secretariado e circulou muito menos do que Kassab, que ia a um evento por dia: foi a 25 eventos públicos, passou o boné em visita à presidenta Dilma Rousseff e fez 82 reuniões.

Ele adora reunião“, diz um funcionário da prefeitura que prefere não se identificar. “Costuma até fazer reunião enquanto almoça no gabinete.” Outro funcionário diz que Haddad é uma mistura de Lula com Dilma. “Tem a capacidade de negociar do primeiro, mas é durão como a presidenta. Só que ele tem um diferencial: cobra direto, não delega. E tem boa memória. Cobra uma tarefa, duas, três vezes, mas se na quarta o cara não fez, ele mesmo manda ver. Não chega a ser ríspido, mas é severo.” Haddad comprou brigas em seu próprio partido ao nomear funcionários de escalões inferiores identificados com Serra e Kassab: seguindo sua gestão à frente do MEC, o prefeito afirma contratar de acordo com o currículo.

O jeitão Haddad é o mesmo envergado à época do MEC, onde esteve à frente por oito anos: irrita-se com atrasos, tem horror a seguranças, nunca se senta à cabeceira de mesas — e volta e meia incorre em termos inusuais, ora de jargão técnico ora acadêmicos, que intimidam os interlocutores. “Ele tem uma mania de falar em ‘clivagem‘, ninguém entende…“, brinca um outro funcionário da prefeitura. Traços de uma formação inusual também na política. Nunca houve um prefeito de São Paulo com formação acadêmica tão extensa quanto a de Haddad, autor de cinco livros de filosofia política.

Conciliando os estudos com o trabalho ao lado do pai, o libanês Khalil Haddad, dono da Mercantil Paulista, loja de tecidos na rua 25 de Março (onde, diz, pegaria o gosto por falar olhando no olho e desenvolveria a intuição para adivinhar bons pagadores e caloteiros), Haddad formou-se em direito no Largo de São Francisco, depois mestrou-se em economia e doutorou-se em filosofia, sempre na USP. No começo dessa trajetória foi presidente do diretório acadêmico, sucedendo um de seus melhores amigos, Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobrás. “Fernando era estudioso e tinha um ativismo acentuado: militava forte, mas tinha um tino de administrador impressionante.”

Fernando Haddad é a grande incógnita da política brasileira“, afirma o editor e historiador Milton Ohata. “Sua vitória usou o emblema do ‘novo’ e tanto a composição de parte de seu secretariado quanto seus atos de governo sugerem que ele busca confirmar esta marca. Mas, praticando até agora uma hábil política de coalizão, Haddad fez concessões ao ‘velho’“, pondera Ohata, mencionando a célebre imagem do então candidato do PT entre risos e abraços com Lula e Maluf. Chocante à primeira vista — um antigo inimigo do PT oferecia dois minutos na campanha de TV em troca de cargos —, a imagem deve ser vista em perspectiva hoje.

Pragmático, Haddad repete uma velha justificativa — “o PP é um partido da base aliada” —, mas, na prática, deu um golpe de mestre. A secretaria de Habitação, um dos principais focos de suspeitas de corrupção na gestão de Kassab, foi uma exigência de Maluf para fechar o apoio a Haddad, descontentando setores do PT ligados a movimentos pela moradia. Só que, antes de ceder a Maluf, Haddad desidratou a secretaria, transferindo a atribuição pela aprovação de empreendimentos, alvo de muitas suspeitas, para a secretaria de Controle Urbano; além disso, 98% do orçamento da secretaria do PP, cerca de R$ 1 bilhão, foram congelados — manobra astuta que recebeu críticas da oposição tucana.

Da várzea ao Municipal

Fernando Haddad cresceu no Planalto Paulista, zona sul, onde costumava jogar bola em campos de várzea — é são-paulino. Conhecido como “Dandão” quando jovem — tem 1,83m e calça 45 —, fez o ensino médio no Colégio Bandeirantes. No terceiro ano da faculdade de direito iniciou sua atuação na militância estudantil: presidente do centro acadêmico, participou do movimento Diretas Já. Casado com a dentista Ana Estela Haddad desde 1988, é pai de Frederico e Ana Carolina. Professor de ciência política na USP, como consultor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) criou a tabela Fipe, principal regulador dos preços de veículos no mercado nacional — embora deteste dirigir. Começou na política como chefe de gabinete da Secretaria de Finanças, de 2001 a 2003, na gestão Marta Suplicy — onde criou os CEUs —, e em 2003, passou a integrar a equipe do Ministério do Planejamento, como assessor especial, onde inventou as PPPs, parcerias público-privadas. Na época em que foi ministro da Educação de Lula e Dilma Rousseff, entre 2005 e 2012, aprendeu a lutar tae kwon do.

A arte marcial tem sido cada vez mais trocada pelo xadrez político, onde o prefeito vem se esforçando por unir o discurso socialista à ação direta. “A ‘novidade’ de Haddad talvez esteja na tentativa de unir a teoria e a prática, algo que nos últimos anos andou esquecido pela esquerda“, analisa Ohata. Esquerda, sim: o termo, que a alguns parece ter perdido o sentido e a outros ainda atemoriza, a Haddad é cara — passada a campanha, em que todo radicalismo poderia assustar o eleitor, ele se declara socialista sem o menor medo.

O filósofo prefeito ainda crê que o socialismo é o horizonte a não perder de vista. Mas a filosofia, ao menos por enquanto, tem se dado no plano prático; o excesso de trabalho faz com que o prefeito tenha menos tempo para reler seus filósofos de predileção, Habermas e Adorno, e restrinja as horas livres ao cinema (gostou de Argo e Lincoln) e aos prazeres da mesa (bate ponto no Rubayat, Gero e Pomodori, e se confessa chocólatra). Workaholic, Haddad tenta manter o estilo de vida de professor — o que inclui o ócio criativo, reservando à prefeitura apenas o horário das oito às oito. Na sala, um violão acompanha o songbook de Chico Buarque e a partitura de um rondó de música clássica. Uma hora depois da entrevista, este fanático por Beatles compareceria à abertura da temporada do Teatro Municipal, em cujo programa constava Tristão e Isolda, de Wagner, sob a batuta de John Neschling.

Se, no mesmo dia, presencia-se um prefeito conjugar no mesmo discurso os termos M’Boi Mirim, Habermas, Paul McCartney, Wagner e soneca — sem contar alguns palavrões dirigidos ao pastor-psicólogo pentecostal Silas Malafaia, que o atacou duramente na campanha —, pode-se afirmar que a cidade vive ares bem diferentes. “Nosso prefeito nasceu sob o signo dos idealistas aquarianos, seres sociáveis abertos a novas ideias“, afirma a horoscopista da Folha de S.Paulo, Barbara Abramo. “E, embora tenha de lidar com grupos econômicos e políticos poderosos, poderá vir a ser governador de SP por sua obra durante a prefeitura“: assim estaria escrito no mapa astral de um prefeito nascido aos dois minutos do dia de aniversário de São Paulo, 25 de janeiro. No momento, ele afasta essa possibilidade. Mas não nega. Como filósofo e político, o sério porém afável Seu Fernando entende que dialética é a arte de dizer nem sim nem não, muito antes pelo contrário — e ainda assim, fazer sentido. Continuar lendo

Metamorfoses de Siba


Siba guitarreando no Carnaval recifense deste ano

Com Avante, Siba, ex-líder da Fuloresta do Samba e do Mestre Ambrósio deixa o universo do maracatu rural pernambucano para reinventar a carreira, em um disco que mistura sua lírica sofisticada com rock, ciranda e congotronics. Perfil para a Bravo! de março

A brisa, por ser carinhosa, é quem mais tem castigado.” A frase, por ser capciosa, é das que mais tem chamado a atenção no novo álbum de Siba, Avante. O repórter leu no verso da canção “Brisa” uma metáfora da condição de todo artista inquieto: de como o conforto pode colocar em risco a evolução do criador. Siba ri: “Rapaz… tu já vivesse o pior dentro do melhor? Era só isso…“, sugere o recifense de 44 anos, dando a entender que a frase somente reflete os paradoxos do amor.

Mas Siba não excluiu esta leitura cabeça, afinal, o disco todo é uma auto-análise da (des)construção de sua identidade. A história de seu aperreio como artista – que o arrancou de um lugar estável para jogá-lo no rodamoinho da página em branco. A história de um artista que já passou por duas metamorfoses.

Faz seis anos que Siba gravou o aplaudido Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar, indicado ao Grammy. À frente da Fuloresta do Samba, banda formada por músicos de Nazaré da Mata, norte da Zona da Mata pernambucana, Siba chegava ao ápice de seu projeto de experenciar a fonte das tradições: maracatu rural, coco, ciranda, samba, frevo. “Descobri que aquela cena cultural era mais inovadora que o mundo mainstream, de show e disco, em que a música é separada do dia-a-dia do homem“, afirma Siba enquanto toma um suco de tangerina num restaurante da Vila Madalena, São Paulo, cidade em que acaba de ancorar. Ele havia se fixado em Nazaré em 2002, logo após o fim do Mestre Ambrósio – grupo que foi, no tratamento rock’n'roll de forró, maracatu e cavalo-marinho, um dos pilares do manguebeat, ao lado do mundo livre s/a de Fred Zero Quatro e da Nação Zumbi de Chico Science.

Cabelo e barba crescidos, roupas urbanas e chapéu sumido, no visual Siba também parece mudado. Se no Mestre Ambrósio, surgido em 1992, ele se destacava por mixar na mesma magra figura um guitarrista, um rabequeiro e um cantador, na Fuloresta seu projeto havia se radicalizado – e o ex-metaleiro fã de Motörhead incorporava a persona de um tiozinho elegante e ladino, de chapéu e bigodinho, rápido feito o diabo na arte de improvisar rimas. Viveu dez anos nas sambadas da mata, privando da amizade de lendas como Biu Roque. Nesse tempo, dividia-se em quatro: vivia em Nazaré, mas o escritório ficava na casa da mãe, no Recife, muitos parceiros musicais estavam em São Paulo – onde morou na época do Mestre Ambrósio – e, há cinco anos, o filho Vicente nascia em São Luís (MA), onde até hoje mora com a mãe. Então bateu a crise dos quarenta. E o bloqueio.

Não vejo nada que não tenha desabado/ nem mesmo entendo como estou de pé/ olhando um outro num espelho pendurado/ que reconheço mas não sei quem é“, eis a estrofe da canção de abertura, “Preparando o salto”. Ao tratar da crise, Siba alterna alexandrinos e decassílabos de rimas ricas e ecos internos, coisa rara de se topar na música pop brasileira. A sofisticada letra passeia sobre um rock suave, cujo arranjo intrinca o vibrafone com ares de jazz, a tuba típica das orquestras de frevo fazendo papel de baixo e a guitarra de fraseado limpo, suja por leve efeito, que remete à música do Congo. Parece complicado, mas soa bem simples.

Quando saí de Nazaré, me questionei: que tipo de artista sou eu? Que tipo de música eu quero?“, Siba recorda. Dar conta de um grupo de dez integrantes como a Fuloresta era inviável e o projeto parecia ter chegado no limite. Precisava de uma banda enxuta e de uma música que atendesse a outras sedes, como a descoberta da música congolesa – em especial o congotronics, som dos subúrbios de Kinshasa, e a discografia de um nome importante da África: Franco. “Ele me iluminou, me tirou do bloqueio. Porque pega a música cubana, desconstrói e transforma numa coisa rude, tocando uma guitarra inusual“, conta.

Siba tinha largado a guitarra há 20 anos para abraçar a rabeca, despezada neste Avante – e ele é autor da tese A rabeca na zona da mata norte de Pernambuco, escrita quando estudava música na Universidade Federal, além de ter tocado com o mitológico rabequeiro Mestre Salu. Abandonar totalmente um instrumento em que é PhD foi tão radical quanto ter abraçado a rabeca no início dos anos 90, época em que dedilhava uma Gibson SG, a favorita de Angus Young, do AC/DC. “Amigos roqueiros e colegas de universidade gozavam de meu interesse por música regional: pra eles, era o lixo do lixo. Em 1990, montar banda com rabeca e cantar maracatu na mata foi uma atitude punk“, afirma.

O interesse pela música tradicional vinha de longe: fã de cantoria, o pai, egresso de Olho d’Água de Dentro, agreste, levava Sibinha a tiracolo nas rodas e vivia assoviando as canções que não sabia tocar na viola. O instrumento está em outro experimento de Siba, o álbum Violas de Bronze, de 2009, em que toca rabeca com o violeiro mineiro Roberto Corrêa. O culpado por fazer Siba empunhar de novo uma Fender foi o guitar hero Fernando Catatau, o cearense líder da Cidadão Instigado e produtor de Iê Iê Iê, de Arnaldo Antunes. “Catatau me ensinou que falar de si é como falar de todo mundo“, diz, sobre o impacto do “Barão”, como o chama, em sua música. O guitarrista é responsável por dar liga aos elementos tão díspares de Avante, que conta com o tubista pernambucano Léo Gervázio e o baterista paulista Samuca Fraga, além de vibrafone e teclados do talentoso mineiro Antônio Loureiro.

Impressiona como a infinidade de referências não descose o resultado. “Qasida”, por exemplo, deve o nome a um tema clássico da lírica árabe: o poeta que retorna ao acampamento e o encontra destruído – tópico pescado nos Poemas Suspensos, de Alberto Mussa. A letra, porém, baseia-se no martelo nordestino, estrofes de dez linhas de decassílabos, e a canção finaliza psicodélica na guitarra de Catatau. Apesar do que pode sugerir a fina figura de Siba, nem tudo é sério em sua obra. Há passeios pelo rock brega, como em “Ariana”, que trata de amores excusos, e pelo frevo de cabaré, como na engraçadísima “A bagaceira”, sobre um sujeito perdido no Carnaval.

Tratando de monstros e fantasias infantis, o álbum finaliza com a doce “Bravura e brilho”, dedicada à sua razão de ser (ou não ser): o filho Vicente, presente na capa. Siba diz que nina o filho lendo trechos da Odisséia. “Ulisses foi o primeiro herói dele“, orgulha-se Sérgio Roberto Veloso de Oliveira. Siba é apelido de apelido: vem de “sibito baleado”, gíria pernambucana para um cabra magro, parecido a um sibito – passarinho que solta um pio ossudo, tipo um assovio de vento. Lembrando o assovio do pai, que lhe presenteou a guitarra que também está na capa do disco. Como as idas e voltas em sua vida comprovam, na obra deste artista múltiplo até as metamorfoses fazem sentido.

O intelectual é um urubu

Padre Daniel Lima, no traço de Andrés Sandoval


Um bolo de rolo com o premiado padre-poeta Daniel Lima, morto em abril depois de passar 95 anos zombando da glória e da Moça Caetana. Esquina publicada na Piauí de maio

O que faço é uma bosta“, diz o velhinho, arregalando os olhos, erguendo de leve o pescoço ao tentar se elevar da poltrona verde onde afunda, pés descalços estendidos no pufe, em um simpático apartamento no bairro da Torre, Recife. Sua voz é trêmula, baixa e suave: ele acaba de retornar do hospital, onde se recuperava de pneumonia. “Logo de manhã você não sente a própria bosta? É a vida! Fiz muita bosta nessa vida. E não ria, não: porque fiz foi bosta da boa. Olhe, você tem a minha bênção pra escrever bosta, sabe?” O velhinho veste uma camisa listrada clara e óculos de lentes fundo-de-garrafa; o perpétuo olhar espantado e o sorriso aberto lhe dão um ar de tartaruga ninja bebê. A bosta a que se refere é seu livro Poemas, editado no fim de 2011, premiado pela Biblioteca Nacional. Era o primeiro livro que publicava em 95 anos.

Tem bolo de rolo lá em São Paulo?“, pergunta Daniel Lima, padre, professor de teologia, latim e filosofia, oferecendo uma finíssima fatia do mais famoso quitute pernambucano (depois das empadinhas de Garanhuns). Seu olhar arregalado é intenso, mas sua voz é fraca, escavada por uma longa tosse. Assim, ele mais escrutina o repórter do que desfia histórias – quem o faz são as fiéis companheiras, a escritora Luzilá Gonçalves e a bibliotecária Célia Veloso. Foram elas as responsáveis pela publicação de Poemas, espécie de contrabando: até seus noventa anos, Lima era notório por fazer livros cujo único exemplar emprestava a um amigo, pedindo-o de volta depois de um ano. Nunca quis publicá-los, por achar que era vaidade de intelectual, coisa que o horroriza.

O intelectual é um urubu/ que se julga vestido/ mas que está nu/ com uma pena de pavão/ enfiada/ no cu“, diz um de seus mais famosos poemas, conhecido de cor pelas centenas de alunos que passaram pelas anárquicas aulas na Universidade Federal. Célia datilografou os livros – 13 de filosofia, 14 de poesia, títulos como O cocô de Herodes, Deus de anarquia, Cordel quase modernoso, Instruções para Dom Quixote, Da teologia ao rol de roupa, Peregrinação divertida.

Luzilá publicou a seleta em edição caprichada, sem avisar o padre. A consistência de sua poesia metafísica, de linguagem direta, despida de pompa, alimentada por humor leve e exaltação à vida, impressionou o júri, formado por medalhões como Ivo Barroso e Alexei Bueno. O prêmio não impressionou Daniel Lima: ele chamou Luzilá de “traidora” e, no dia do lançamento, fechou a cara pra todo jornalista que o procurava. Contudo, agora olha o livro como um menino mira o brinquedo favorito: “Está cheio de erros. Não deviam ter publicado“, chia.

Fora os escritos datilografados zelosamente por Célia, na casa humilde que ainda mantém há dezenas de outros inéditos. Neles, onipresente são o tema do repúdio à vaidade e o flerte com a escatologia: “Deixa, Senhor, que eu blasfeme/ na danação desta hora./ Preciso ser maldito/ para sentir-me salvo.” Ou pequenas epifanias surrealistas: “Engarrafar o luar e sair por aí viajando/ de camisa listrada, sossega leão, sandálias japonesas,/ ai! meu louco sonho!/ A vida é essa mistura de flores e toucinho./ Estou bêbado de tanta leitura./ Quando voltarei de novo a ser gente?/ Queria ser agora apenas daniel (assim do com d pequeno, bem pequeno).

O miúdo padre é uma lenda. Educou gerações de pernambucanos ilustres; sua turma de amigos contava com Ariano Suassuna, Jommard Muniz de Brito, Paulo Freire, João Alexandre Barbosa e dom Hélder Câmara, que o chamava de “meu padre meio doido e meio gênio“. Genioso, Daniel Lima nunca teve paróquia, odiava freiras e beatas e era notório por ter soltado os pássaros raros do viveiro do padre Sidrônio, em Olinda, um escândalo. Tinha fundado um jornal aliado das Ligas Camponesas na região da zona da mata, onde nasceu (era natural de Timbaúba); virou padre numa “bunda-canástica“, explica, em pernambuquês – assim, de repente, sem explicação. Perguntado se praticava “socialismo cristão“, revidava: “Socialismo é socialismo; socialismo cristão é safadeza de padre“.

Tinha hábitos incomuns, como telefonar aos amigos de madrugada para discorrer sobre molho inglês, usar peruca para sair incógnito na rua, fritar ovo com óleo de peroba e cozinhar bife no ferro de passar. Jogava giz nos alunos indisciplinados, fingia-se de doente para pegar carona com ambulância e, certa vez, para provar que estava à beira da morte para conseguir uma licença da universidade, pediu emprestadas as fezes e a urina de um mendigo para forjar os exames. “Eu fazia isso?”, ri e tosse o padre, ante mais uma anedota contada por Célia e Luzilá.

Tinha também costumes perigosos, como soltar bolinha de gude na rua pra fazer derrapar os cavalos dos soldados do exército, esconder estudantes perseguidos pela ditadura e criticar abertamente os militares em suas aulas na Federal. Detido para interrogatório, passou um dia todo dando aulas de estética a um sargento. Abusava da amizade com o general Antonio Carlos Muricy, cujo casamento havia oficiado, e lhe pedia que soltasse este ou aquele militante. Porém, suas atividades incomodavam – e não se tratava só da defesa apaixonada que fazia da teoria da evolução das espécies na aula de teologia. Um amigo próximo, o padre Antonio Henrique Pereira Neto, foi mutilado, castrado e assassinado pelo Comando de Caça aos Comunistas, em 28 de maio de 1969. No bolso de Neto havia uma lista de nomes: o primeiro era o de Daniel Lima. “Me disseram: fuja!“, ele lembra. “Armei na cama um corpo feito de travesseiro, pus uma cabeça de coco, viajei para Natal. Uma semana depois, voltei, o telhado estava quebrado e a cama toda atravessada por balas. Não sobrou nada do coco“, ri e tosse Daniel Lima.

Quando o cabra começa a falar muito nele mesmo, fede. Quase todos os intelectuais são assim: me dá abuso. E tem gente que veste casaca de escritor e até fede que nem escritor, mas não é escritor“, denuncia o padre, explicando por que tenta convencer Luzilá a não publicar mais um livro seu. O aplicado leitor de Drummond, Thomas Mann e Cervantes acredita que não publicar seus próprios poemas foi “um ato enviesado de vaidade” – diz, depois de uma comprida sessão de tosse. “Ocultar a própria obra é um ato de vaidade. Se não fosse, eu não teria escrito nada. Foi o meu jeito de brilhar sem dar na vista“, arregala-se. Mesmo assim, logo deve sair a sua seleta de poemas fúnebres, o Sonetos quase sidos, com forte influência de Augusto dos Anjos: “Quando morreres ou te matares,/ come-te a ti mesmo com batatas/ e ervilhas (e um pouco de molho inglês)./ Comemora-te, ó imortal mortal:/ a tua morte bem merece/ o que a tua vida não valeu.

O flerte com o tema da morte o tornaria imortal? Se sim, o truque durou até o último 14 de abril, quando a Moça Caetana levou para sempre a verve diabólica e o sorriso infantil do religioso anarquista. Para lembrar aquela tarde pontuada a café, risadas e bolo de rolo, ocorrida somente um mês antes, busquei meu exemplar do Poemas e achei a dedicatória do padre: “Este livro era meu, agora é seu, depois será da lixaria. Com a amizade eterna do amigo Daniel Lima“. Amém.

O homem que descobriu Marte


Você sabe que está ficando velho quando os perfis que escreveu vão aos poucos se transformando em obituários. Para lembrar do grande Ray Bradbury, que foi pro espaço sideral hoje, aos 91 anos, segue uma entrevista que fiz com ele há seis giros em volta do Sol, para a Trip: falamos sobre futuro, tecnologia e seu ódio por Michael Moore

É mais ou menos como se Rubem Braga tivesse descido no planeta vermelho. Não espere encontrar em As Crônicas Marcianas, clássico de 1950, apenas menções a invenções incríveis, alienígenas e viagens espaciais à Star Trek. Isso é coisa pra crianças ou nerds. O californiano Ray Bradbury, 85, é um dos precursores do que hoje se convenciona chamar de ficção especulativa – uma ficção-científica que, em vez de se apoiar em profecias tecnológicas, se ocupa em propor hipóteses de comportamentos psicológicos e situações sociais. Nessa laia inscreve-se Philip K. Dick, além de William Gibson e Margaret Atwood. Há mesmo quem encontre na filosofia de Matrix ecos do romantismo de Bradbury, hoje um dos três grandes autores de ficção científica vivos, ao lado do inglês Arthur C. Clarke [2001, Uma Odisséia no Espaço] e do polonês Stanislaw Lem [Solaris]. Bradbury ficou conhecido por relacionar terror, humor e suspense à ficção científica. Autor de quase uma centena de livros, escreveu ainda poesia, ensaios de filosofia e teoria literária – talvez por isso, aliás, ele deteste ser rotulado como um escritor de ficção científica.

Em As Crônicas Marcianas, que volta às prateleiras, estão histórias como a dos tripulantes que descem em Marte e, afirmando-se astronautas, são levados a um hospício marciano. Ou a narrativa de horror de homens que pensam, ao recém-pousar em Marte, ter feito uma viagem no tempo. Ou a de um panaca que quer montar uma barraca de cachorro-quente no planeta vermelho. Como em seu também clássico Fahrenheit 451, de 1953 [transformado em filme por François Truffaut em 1966], Bradbury prova que a boa ficção científica não se concentra em gadgets, robôs ou aliens – mas em algo bastante velho: a humanidade. Direto de sua mansão em Los Angeles, pedimos que Bradbury nos falasse do presente e do futuro. Se é que temos algum.

Em um ambiente que parece ser um escritório, um homem que parece ser Ray Bradbury

As recentes descobertas em Marte não o desencantam um pouco em relação ao que escreveu em As Crônicas Marcianas? Na época tínhamos só as fotos tiradas do observatório do Arizona, quse não havia informação sobre Marte. Já hoje temos dados fascinantes, mas sem nenhuma relação com meu livro. Daqui a cem anos, quando existir civilização em Marte, leremos o livro do mesmo modo.

O clássico completa este ano 55 anos. Como você era na época em que escreveu o livro?
Tinha 27 anos. Era pobre, não tinha carro nem telefone. Morava em Venice, Califórnia – não por questão de estilo, mas porque alugar um bangalô na praia era barato. Ganhava 14 dólares por semana! Usava uma máquina de escrever alugada em uma biblioteca. Foi lá que criei Fahrenheit 451 – aquele monte de livros me contaminou a imaginação.

Hoje você já trocou as máquinas de escrever por um laptop? Computadores são máquinas de escrever metidas a besta. Tenho cinco máquinas de escrever, me dou muito bem com elas há anos. Para que usar um computador?

E tem usado muito as máquinas de escrever? Sim, estou finalizando três novos romances. Tenho um livro de ensaios sobre filosofia que deve sair em breve. Concluo também mais um volume de poesia e preparo uma antologia de histórias curtas, com 101 contos. Escrevo ainda um roteiro para TV e planejo estrear nos próximos meses uma peça na Broadway. Também escrevo um roteiro para uma nova versão cinematográfica de Fahrenheit 451.

Algum desses romances é de ficção científica? Nenhum. Não sou um escritor de ficção científica. O único livro de ficção científica que escrevi foi Fahrenheit 451. As Crônicas Marcianas é um livro de fantasia.

H.G. Wells ou Júlio Verne? Cada vez mais Júlio Verne.

E ficção científica contemporânea, William Gibson, Bruce Sterling… você os lê? Como eu disse, não me interesso mais por ficção científica. Só na época de Fahrenheit 451.

Neste livro, você cria uma distopia em que os livros são proibidos. Não acha que hoje, com o excesso de informação que nos cerca, estamos perdendo contato com os livros que importam – do mesmo modo como, em Fahrenheit 451, os livros eram queimados? Sim! Temos informação demais! Hoje pensamos que somos mais espertos, mas não somos. TV e internet nos dão muita informação, mas não há cérebro ali, só falta de sentido. Você tem que saber escolher o que interessa e deixar de lado livros, artigos e filmes de que não precisa. Somos contaminados por factóides. Você não precisa dos resultados do futebol ou da vida dos atores e das celebridades… nada disso interessa. Você tem de se tornar um rigoroso censor desse tipo de coisa, para eliminar fatos indesejáveis e desfrutar da beleza da vida.

Com a revolução digital, há quem diga que já chegamos no futuro. O que acha disso? Não, não estamos vivendo no futuro. Vivemos numa lata de lixo, cercados de brinquedos e máquinas dos quais não temos a menor necessidade.

Ainda sobre Fahrenheit 451: o que achou do filme de Michael Moore que fez um trocadilho com seu livro, Fahrenheit 911? Moore é um bastardo estúpido! É um ladrão, um homem terrível! Um freaky vagabundo. Ele nunca ao menos me telefonou para avisar que usaria o título de meu livro… Sério, eu gostaria que ele queimasse no inferno!

Mas, e o filme, você viu? Por que veria? Você tá brincando? Ele roubou meu título! Aquele gorducho não passa de um bastardo débil mental, não me interessa.

Você gosta de assistir a filmes de ficção científica? Gosto de alguns. O melhor que vi até hoje é Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Viu? Se não, corra, vá ver!

Que conselho daria para os escritores do futuro? Quer escrever fantasia? Escreva fantasia. Quer histórias policiais? Escreva histórias policiais. Gosta de poesia, teatro? Faça o que quiser. Mas se você não amar escrever, por favor, não faça isso. Há escritores demais no mundo.

A última: assim como dizem que os EUA são a “terra das oportunidades”, há quem proponha que o Brasil é a “terra do futuro”, por conta de um romance do austríaco Stefan Zweig [de 1941]. Concorda? Olha, infelizmente nunca estive no Brasil, só na Argentina. Mas posso te garantir que nunca ouvi falar nisso de “país do futuro”…

O poderoso chefinho

Mauricio de Sousa em seu escritório, sob o Rei Cebolinha

De volta à ordem do dia com o sucesso de Turma da Mônica Jovem, Mauricio de Sousa comemora 50 anos de carreira planejando um museu, inaugurando parques temáticos, criando desenhos animados, invadindo a China com seus personagens – e, aos 75, já prepara os dez herdeiros para sucedê-lo no comando da mais bem-sucedida franquia cultural do país. Um perfil escrito há um par de anos para a revista paraense Living

“Você é um desenhista ou um empresário?” Silêncio. Mais silêncio. Silêncio que se arrasta por uns dez segundos. “Boa pergunta”, responde afinal Mauricio de Sousa, um pouco estupefato, como se em lugar disso o repórter tivesse perguntado, à Cebolinha: “Você é um homem ou um lato?”. Foi das raras vezes em que o vaidoso baixinho denunciou alguma insegurança em sua autoconfiante pose. “Boa pergunta…”, refletia.

Antes de conversar com a Living, o pai da Turma da Mônica havia passado algumas horas com um grupo de estudantes – ele é tema de inúmeras teses de mestrado e doutorado – em seu amplo escritório sem janelas no edifício da Mauricio de Sousa Produções, onde outrora funcionava a editora Abril, na Lapa paulistana. Como não vai todo dia ao estúdio, o paulista da pequena Santa Isabel, um workaholic que dorme no máximo 5 horas por dia, maximiza o tempo com múltiplos afazeres.

Sempre equipado de um sorriso infantil (e quando deixa de sorrir o desenhista dá lugar a um empresário de semblante quase mafioso), concede todas as entrevistas que consegue, revisa capas de suas revistas, confere esculturas de seus personagens que habitarão um futuro museu e dá bronca num funcionário que havia pendurado um quadro sem simetria (“Pode uma coisa dessas, no estúdio de um desenhista um quadro torto?”, brincava, mas sinceramente contrariado). Ora ou outra interrompia o papo para assinar contratos intermináveis – aliás, aviso aos falsários: sua rubrica não tem nada a ver com a assinatura imortalizada ao fim de tantas HQs criadas ao longo de 50 anos.

no escritório de Mauricio

Isso mesmo, meio século. Bidu, Cascão, Cebolinha e mais “300 ou 400 personagens”, como ele contabiliza, estão aí há tanto tempo que parecem acidentes geográficos na paisagem cultural brasileira – há até críticos que colocam a Mônica no mesmo patamar de Gabriela, Capitu e Iracema como nossos mitos fundadores. Em 2008, essa família apareceu de cara nova: o resultado estremeceu o mercado editorial e devolveu a marca Mauricio de Sousa à ordem do dia. Prevista para uma tiragem inicial de 50 mil exemplares, a Turma da Mônica Jovem, que “adolesceu” o universo de personagens em uma ambiente visual de mangá, chegou à circulação de 405 mil. É a segunda revista mais vendida no país. Continuar lendo

Fominha

Com mais de cem filmes no currículo, Dunia Montenegro, carioca, mulata, atriz, diretora, mãe, bissexual e ninfomaníaca, é a maior estrela pornô da Espanha. Insaciável, ela promete agora abocanhar o mercado brasileiro

La Montenegro em momento bem-comportado

            Tem que ter muita disciplina pra encarar uma suruba de nove horas. Mas foi graças à educação linha-dura imposta pelo avô militar que Dunia Montenegro, 33, imprimiu seu jeitinho disciplinado às artes pornográficas e se tornou uma impressionante sex machine. Até os 18, Dunia era uma virginal cabrocha de Padre Miguel a ajoelhar mais na igreja que no baile funk – mas, sempre que escapulia da sisudez dos avós, dava suas requebradinhas na quadra da escola de samba. Órfã de pai desde pequena, aos 17 perdeu a mãe, vítima da Aids. Foi obrigada a aparafusar a buzanfa num trampo mala de informática, das nove às seis sentadinha, ó desperdício. Convidada a desvendar sua ginga em uma companhia de samba & capoeira, saiu do Rio de Janeiro aos 19 para viver na Espanha. Lá, dançou, namorou, apaixonou-se, casou-se, se tornou mãe, foi traída pelo marido, emputeceu-se – e, no que quis se vingar do ex, acabou viciada em nheco-nheco.

            Já trabalhando como stripper, transava com o primeiro que aparecesse; e com o segundo, a terceira, o quarto e a quinta também, de segunda a segunda, antes, durante e depois do expediente. Alucinada por uma putariazinha, após um perrengue financeiro sacou que podia juntar o útero ao agradável – ganharia bem mais aplicando sua expertise no mercado pornô espanhol, terceiro maior da Europa. Com sua exótica mulatice, frisson por sessões de sexo extremo, e, lembremos, severa disciplina, a mignonette (1,65m e 62 kg) não demorou a virar a rainha da tripla penetração, adicta em anoxia, maníaca do fist fucking e malabarista no squirt.

            Simpática, esperta e sempre disposta a uma farra, Dunia se tornou figura querida tanto na TV espanhola quanto nos festivais eróticos europeus, sem falar no blog superacessado, nos DVDs e nas cenas vendidas para celulares – atuou em cerca de 100 filmes e fez mais de 200 cenas (não sabe precisar, do mesmo modo que mal contabiliza quantos homens e mulheres zanzaram por suas curvas).

            Direto de seu apê no bacana bairro de Pedralves, Barcelona, a musa conversou com o repórter por três deliciosas horas. A seguir, você acompanha as aventuras de Dunia no mundo do sexo hardcore, descobre como a pirataria está de sacanagem com o pornô, aprende as mumunhas de um belo squirt e entende por que os atores do cinema adulto são a vanguarda do desbravamento do corpo.

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Um fax de JG Ballard


Mr. Ballard não usava computadores – embora fosse um dos grandes escritores de ficção científica da segunda metade do século 20. Que falta ele faz hoje! Fico pensando o que diria ele dos protestos dos habitantes de Alphaville – algo bem parecido com a rebelião de classe média de Terroristas do Milênio.

Segue um fax que ele me mandou com as respostas à minha entrevista sobre sua reedição de Crash, que encontrei fazendo uma limpa na minha estante. Por pouco não encontro um papel em branco. Pra quem não entender a ‘grafia’ de Ballard, o papo está aqui.

Reality is the greatest imaginable fiction


Tsunami prateado

Retrato de Amis quando angry young man

Para o romancista inglês Martin Amis, o avanço da medicina e o aumento da expectativa de vida não contemplam a difícil questão da senilidade. Ferrenho defensor da eutanásia, ele acaba de lançar o livro A Viúva Grávida, em que um homem de 60 anos observa seu passado durante a revolução sexual. Falando à ALFA #11, Amis afirma: “Não consigo pensar em nenhuma razão para prolongar a vida depois que a mente se foi”

Tão logo completou 61 anos, Martin Amis mal punha o pé para fora de casa que já escutava xingamentos e gozações dos vizinhos. Satirista brilhante, um dos grandes romancistas ingleses vivos, perdeu totalmente o respeito dos sexa, septa ou octogenários de seu bairro quando, há dois meses, fez um exercício de futurologia no jornal The Guardian em que evocava a imagem do “tsunami prateado”.

“Daqui a alguns anos haverá uma população de velhos muito senis, como uma invasão de imigrantes horríveis, fedendo pelos cafés e restaurantes”, disse. E o que fazer com os velhotes? Simples: Amis sugere “haver um estande de eutanásia em cada esquina, onde você pode pegar seu martíni e sua medalha”. Hoje existem cerca de 900 mil links relacionando “Amis + Eutanásia” no Google. À ALFA, falando por telefone de sua casa em Londres, mastigando vorazmente um chiclete, seu tique característico, Amis admite ter tirado onda. “As pessoas extraem a frase do contexto. Mas, sinceramente, não quero pisar com cuidado neste tema, nem editar a mim mesmo. Não foi um ataque aos velhos: eu estava fazendo uma digressão sobre as complexidades legais. Mantenho meu ponto de vista: você precisa ter meios de dar um termo à sua própria vida.”

Mas e a transcendência? Além das tragédias já ocorridas em sua vida – morte da irmã, do pai, de amigos –, ele vive de perto uma fatalidade em curso: o câncer no esôfago de um seus parceiro de longa data, Christopher Hitchens. “Em matéria de transcendência, eu estou à direita de Hitchens”, brinca ele – Hitchens é conhecido por sua controvertida profissão de fé no ateísmo. Não é na religião que Amis busca transcendência, e sim na arte em si – em sua voraz entrega ao trabalho: mal entregou as caudalosas 600 páginas de A Viúva Grávida (Companhia das Letras), já está imerso em outro romance.

Parece uma contradição, mas mesmo a defesa que este sexagenário faz do direito à eutanásia é vitalista – e ele não se coloca fora do assunto. Quando se comenta que seus comentários sobre o “tsunami prateado” tenham ofendido idosos, Amis – que já é avô – rebate, ironicamente: “Bem, eu mesmo não estou a milhões de milhas longe disso”. Ele lembra o quanto é pessoal esse drama ao citar a filósofa irlandesa Iris Murdoch, uma amiga que estava desesperadamente doente e tentou ir à Suíça para procurar a organização Dignitas, que oferece cuidados paliativos.

“No fim, ela não conseguiu; acabou sendo vencida pela burocracia. É muito terrível sentir que a vida pode ser algo de que você não consegue escapar, como uma prisão. Iris era uma amiga que eu amava. Ela era maravilhosa. Lembro de conversar com ela quando soube de sua doença e ela disse: ‘Entrei num lugar escuro’. Até mesmo a consciência da perda se vai, entende. Você não sabe mais que desperdiçou um dia assistindo Teletubbies. A coisa simplesmente desaparece.” Continuar lendo

Botei Botox

Na ALFA # 5, injeto toxina botulínica, faço preenchimento de ácido hialurônico, 3 sessões de luz intensa pulsada e peeling, torro R$ 5 mil – tudo isso pra isso?

Pelo jornalismo até injeção na testa

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— Bem… Eu mexeria na sua… na sua glabela!
— Perdão?
— Sua glabela…
— Que é isso?
— Esse vinco entre as sobrancelhas — e ela me aponta o centro da testa.
— Ah, o cenho! Que tem?
— É muito profunda! Seus músculos corrugadores, esses em cima das sobrancelhas, e o prócero, no meio da testa, eles, humm, são… são muito potentes!
— Puxa, obrigado. Nunca ninguém me falou isso antes.
— Essa ruga te dá um aspecto muito sério. Cansado… Deprimido… Fica parecendo que você está de mau humor!
— Verdade?
— É, dá a impressão de que você está sempre bravo! Isso envelhece a pessoa…
— Então, o que devo fazer?
Ela pigarreia, muda o tom, sussurra:
— Recomendo… o uso da toxina botulínica — sorri a dermatologista, sutil, quase sem mover os músculos da face.

Minha glabela passou do meio da testa ao centro das atenções desde que comecei a investigar os efeitos do envelhecimento. Escutava cada vez mais boatos de homens usando botox, mas não imagina a coisa tão séria: segundo pesquisa de 2009 da International Survey on Aesthetic/Cosmetic Procedures Performed, o Brasil está em 2º lugar no uso do produto, com 447 mil tratamentos, 15,6% do total mundial. A pesquisa afirma que os homens são 6% dos pacientes que tentam rejuvenescer aplicando a toxina originária de uma bactéria. Mas o número pode ser maior. Para Omar Lupi, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia, “os homens estão entre 10 e 15% dos pacientes que usam botox, a maioria por motivos estéticos”. 72 mil botocados, o suficiente para lotar dois Pacaembus. Ou seja, não são só personagens como Ronnie Von, Amaury Jr. e Otávio Mesquita que paralisam a testa: no seu trabalho, no seu clube ou no seu condomínio algum homem certamente já botou botox.

Para investigar o fenômeno, este repórter virou cobaia de três tratamentos diferentes e cinco sessões de beleza que consumiram cerca de R$ 5 000 reais na tentativa de reformar a fachada. Comecei a pesquisa em outubro, assuntando a dermatologista: “Quero parecer mais jovem”, disse. Ela não demonstrou surpresa. Mas eu não esperava que me oferecesse o botox tão rápido. Embora a doutora tivesse a voz tão lisa quanto as rugas de seu rosto cinquentão, eu imaginava que o uso de botox fosse algo misterioso, quase esotérico, só escolhido após muitas consultas. Nada disso: poderia aplicar o botox naquela hora mesmo para “suavizar minha glabela” (o termo “suave” é amado tanto pelos manos do Capão Redondo quanto pelas dermatologistas dos Jardins). Porém, não poderia me entregar tão fácil à sanha dermatológica. Pela mente circulavam ícones do macho-alfa dedurando meu metrossexualismo. E agora, Clint? Que fazer?

Se você quer segurança” – diria o ator de Dirty Harry, meu superego –, “compre uma torradeira”. É isso aí. Tinha de arriscar a pele, colocar a glabela a prêmio e tomar injeção na testa. Tudo pelo jornalismo. Telefonei para uma segunda dermatologista, que me confirmou o que a primeira havia falado – com o necessário toque de empolgação. A doutora Aurea Lopes me contou que o uso cosmético da toxina foi descoberto por acaso, quando o casal de canadenses Alaistair e Jean Carruthers, ele oftalmologista, ela dermatologista, tratava um paciente com blefaroespasmo (piscar incontrolável das pálpebras) e percebeu que as rugas diminuíam progressivamente. O veneno está na bactéria Clostridium botulinum, causadora do botulismo – doença que mata por paralisia muscular. Botox é um dos nomes comerciais da toxina (há também Dysport, Prosigne e Xeomim, todos importados), mas popularizou-se tal como gilete virou sinônimo de lâmina de barbear. “Vamos fazer?”, convida a doutora. Continuar lendo

Cadê os anos 60 que tavam aqui?


Lançamentos simultâneos, Ponto Final, de Mikal Gilmore, e A Turma Que Não Escrevia Direito, de Marc Weingarten, demonstram como a ousadia daqueles tempos loucos não deixou descendentes. Pro Outlook de 25-9

Garcia: If I knew the way, I would take you home

“Há muito mais aspectos sombrios na aventura dos anos 60 do que a maioria das pessoas reconhece – e não estou me referindo apenas às vítimas das drogas, à ruína política e à violência do período. Havia também um desejo de explorar o arriscado terreno psíquico, uma percepção de que as melhores esperanças podem também custar perdas terríveis“, escreve Mikal Gilmore em Ponto Final: Crônicas Sobre os Anos 60 e Suas Desilusões (Companhia das Letras, trad. Oscar Pilagallo). O trecho é retirado de um perfil de Jerry Garcia, líder do Grateful Dead, a banda de rock mais identificada com o idealismo flower power e com os atalhos e descaminhos do psicodelismo, a ponto de inspirar legiões de fãs, os dead heads, a criarem comunidades alternativas.

Agora, leia este trecho: “Thompson finalmente encontra o sonho americano, mas este havia sido tão corrompido que não podia ser reconhecido. O Destino Manifesto agora é apenas ganhar dinheiro – turistas bêbados em Vegas se divertindo até morrer, jogando dinheiro num buraco de coelho, onde ele é recuperado por gulosos proprietários de cassinos. Quanto à contracultura, tem sido castigada e ficado submissa a uma dose pesada de drogas: ‘Todos aqueles malucos de ácido pateticamente ansiosos que achavam que poderia comprar Paz e Compreensão por três dólares a dose. Mas a perda e o fracasso deles são nossos também.’ O sonho acabara, e agora não havia volta“, escreve Marc Weingarten a respeito de Hunter S. Thompson em A Turma Que Não Escrevia Direito (Record, trad. Bruno Casotti).

Em comum, ambos os livros focalizam a cultura pop dos anos 60. Mas, enquanto Gilmore perfila ícones da música e literatura, Weingarten escreve a sobre o jornalismo, mais especificamente o new journalism. Nos dois livros, porém, existe, como se nota nos trechos acima, uma consciência de que os sujeitos mais ligados no zeitgeist, como Jerry Garcia e Hunter S. Thompson, já percebiam que aquela festa não duraria muito – que o sonho já trazia em si, embutido, o seu alarme. Nas 438 páginas de Ponto Final, Gilmore, jornalista da revista Rolling Stone desde os anos 1970, elenca Allen Ginsberg, Timothy Leary, Grateful Dead, Ken Kesey, Beatles, Johnny Cash, Bob Marley, Phil Ochs, HST, Jim Morrison, Allman Brothers, Led Zeppelin, Pink Floyd, Bob Dylan e Leonard Cohen.

A escolha do formato perfil dá ao livro o efeito de um caleidoscópio. Gilmore, com seu olhar apaixonado e compassivo, mas com escrita informativa e direta, usa cada um dos perfilados como ângulo para observar o paraíso e o inferno dos anos 60. Exemplo é o modo como narra a fábula dos Beatles: ora sob a vida de George Harrison, o caçula espiritual, o contraditório e talentoso guitarrista que ficou apartado do centro nervoso da maior banda pop da história por conta de sua personalidade introvertida; ora sob a biografia de John Lennon, o genial líder do grupo, o homem que detonou o sonho e foi por ele detonado ao ser assassinado em 1980. O livro é dividido entre sobreviventes e mortos – com ligeira vantagem para estes.

Quase não há página sem menção a drogas, algo que espanta o autor no prefácio: “A busca por liberdade levou várias pessoas neste livro a um declínio terrível. A liberdade de fazer cagadas podia ser maravilhosa, mas também significou uma viagem sem volta“. No mesmo prefácio, Gilmore especula sobre como a obsessiva recusa às convenções e ideologias dominantes nos anos 60 redundou no pragmático neoconservadorismo do século 21, em que “mecanismos culturais, comerciais e da mídia estão mais aptos a assimilar ou desacreditar as ameaças da cultura pop ou caracterizá-las como simples afronta ao pudor e às boas maneiras“. Mas ele ainda sonha: “Não vivo no passado, nem desejo vê-lo reencenado; só quero saber o que será possível amanhã, o que poderá ser feito de maneira nova“. Continuar lendo

Nem aí

Geoff Dyer: “Falar mal do turismo é o mesmo que reclamar do trânsito sentado no carro

Geoff Dyer no Big Chill Festival

Geoff Dyer, o escritor inglês que mistura relatos de viagem, memórias, ficção e ensaísmo em uma prosa deliciosamente inclassificável, tem seu primeiro romance lançado no Brasil. No Outlook de 6-8

Sabe quando você termina um livro e pensa “aí está um cara com quem eu gostaria de tomar uma cerveja”? Essa sensação relativamente rara (nem sempre a gente quer ser amigo de quem admira) é obtida a cada mergulho na prosa do inglês Geoff Dyer, 59. Autor dos inclassificáveis Ioga para quem não está nem aí e Instante contínuo – Uma história particular da fotografia (Companhia das Letras), que emendam lembranças de viagem, digressões sobre arte, literatura, música ou fotografia, iluminações estritamente pessoais – tudo com muito humor e aquela palavra que só existe na língua inglesa: wit, algo como charme, classe –, Dyer comparece agora em um romance de ficção, Jeff em Veneza / Morte em Varanasi (Intrínseca, trad. José Rubens Siqueira).

Se em Ioga Geoff afirmava que “tudo realmente aconteceu, mas algumas das coisas que aconteceram só aconteceram na minha cabeça; da mesma forma, todas as coisas que não aconteceram também não aconteceram lá“, neste romance a máxima pode ser invertida, mantendo o mesmo prazer na leitura. São duas narrativas que conversam por rimas, coincidências, paralelismos sutis e surpreendentes. O jornalista picareta Jeff Atman vai a Veneza cobrir a Bienal de artes. Geoff, ops, Jeff é um everyman do nosso tempo: o jornalista freelance, sofisticado, com belo texto e cheio de curiosidade sobre o mundo, cuja erudição aleatória o faz especialista em qualquer assunto cultural, mas sem foco suficiente para criar uma obra ou se levar a sério – ele prefere ir atrás de uma festa ou de um par de pernas do que lutar pelo jornalismo. A missão de Jeff em Veneza é simples: entrevistar a velha musa de um grande artista, fotografá-la e comprar o retrato que o artista fez da coroa para publicar em um perfil numa revista classuda de Londres. Mas não consegue nada disso: aceita um baseado da velha dama, atrapalha-se com o gravador e perde as melhores frases, não consegue convencê-la a vender o retrato e ainda por cima se esquece de fotografá-la. Só que Jeff é um sortudo e sua ligação sobrenatural com a serendipity faz com que conheça a misteriosa Laura, uma californiana sensacional, que, como ele, não tem celular, e sua viagem vira do avesso.

Em outro momento, menos erótico e mais espiritual, Jeff vai às margens do Ganges, onde, entre os cadáveres que bóiam no rio sagrado e a multidão que clama por oitocentos deuses, tem uma epifania suja e irreparável. É um livro de viagem, mas não é um livro de turismo. Autor também de ensaios literários e pelo menos um volume essencial sobre música, But Beautiful (segundo o pianista Keith Jarret, o melhor texto sobre jazz jamais escrito), Geoff vive em Londres, “mas sonha em um dia se mudar para a Califórnia“. A seguir, a entrevista com este viajante insatisfeito – Dyer mandou suas respostas por e-mail diretamente de um parque em Utah, EUA. Continuar lendo

Por mares nunca dantes

A primeira aparição do cetáceo no traço de Rafa Coutinho

Rara parceria no Brasil entre escritor e artista plástico, chega à praia Cachalote, impressionante graphic novel de quase 300 páginas. Resenha para o Outlook de 3-7

A graphic novel brasileira vive seu melhor momento. Provas do crime são álbuns autorais como os recentes de Allan Sieber (É Tudo Mais ou Menos Verdade), Marcelo Quintanilha (Sábado dos Meus Amores), André Kitagawa (Chapa Quente), Rafael Grampá (Mesmo Delivery), Fabio Lyra (Menina Infinito) e os diversificados trabalhos dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, entre uma longa lista de etc. Mais próxima da literatura que do cartum ou da tira, modalidades em que a arte sequencial já demostrou vários craques, o romance gráfico teve pontos culminantes com Luiz Gê (Fragmentos Completos), Marcatti (Mariposa) e Lourenço Mutarelli (O Dobro de Cinco) – e agora atinge um ousado patamar com Cachalote (Companhia das Letras, 280 págs.).

A obra guarda ineditismo em vários aspectos, além do porte cetáceo. É a primeira graphic novel assinada pelo artista paulistano Rafael Coutinho, o “filho de Deus” (a/ka/ Laerte Coutinho, que atravessa fase bem-aventurada no blog Manual do Minotauro). Seu parceiro é o escritor gaúcho Daniel Galera (do romance Até o Dia em que o Cão Morreu, base do filme Cão Sem Dono, de Beto Brant). Além disso, Cachalote vadeia em águas profundas: em vez de uma única história linear, o livro cruza cinco histórias curtas + prefácio e epílogo misteriosos, em três arcos narrativos. Editadas concisamente, sem começo nem fim, as histórias retratam pontos de inflexão nas vidas de pessoas que parecem bem esquisitas – mas estão bem aí, à vista de todos, preto no branco.

Xu, genial e genioso ator chinês perdido em São Paulo, é acusado da morte de seu melhor amigo. Hermes, escultor que vive insulado em uma floresta, aceita participar em um filme de um insistente diretor, escancarando sua própria vida. Vitório, atendente de uma loja de ferragens, fanático por bondage, se apaixona por Princesa, garota linda com pulsões masoquistas, cujo rosto nunca vemos. O playboy Rique é expulso da casa do tio por pegar a namorada dele e vai encalhar a solidão vazia na Europa. Túlio e Vita, triste casal recém-separado, une-se pela filha, as pílulas dela e o bloqueio criativo dele. Há ainda uma mulher grávida que topa com uma baleia numa piscina. Cada narrativa suspende-se na lâmina, ou seja, pouco antes de um momento marcante, e nunca se justifica, se explica nem mesmo se resolve. Muitas vezes, o silêncio – tanto nos balões quanto na ação descrita – é oferecido ao leitor como única solução ao impasse narrativo: como se a idéia de viagem residisse na própria sugestão, na contemplação. Uma descrição possivel para cada história seria a de paisagem interior.

O atrito dessas histórias encrencadas produz impactos emocionais – para insistir na metáfora aquática – de tirar o fôlego. E aos diálogos existencialistas de Galera, pontuados com humor esparso e espessa melancolia, somam-se as sequências magistrais de Coutinho – um virtuose do incompleto, aproximando violentamente figura de fundo, num ritmo que imprime intimismo e ação ágil em doses venenosas. Parece fácil definir o livro usando arpões verbais como “obra-prima pop“, mas é preciso reconhecer uma quando aparece. Como quando se avista uma baleia no horizonte. A seguir, a conversa com o escritor Daniel Galera – que, durante os dois anos que passou escrevendo o roteiro em Garopaba (SC), costumava nadar com baleias-francas –, e com o artista Rafael Coutinho, que dividiu o mesmo período entre extenuantes sessões de nanquim no estúdio Salão de Beleza e calibragens de trigo e lúpulo no pompeiano bar Aníbal. Continuar lendo

João Carlos sai do armário


JRT visto por Renato Parada

Escritor identificado com a literatura de invenção, Joca Reiners Terron publica primeiro romance “convencional” por uma grande editora: a história de um ex-gêmeo que vira transexual no Egito. Resenha amiga pro Outlook de 29-5

Do Fundo do Poço Se Vê a Lua (Companhia das Letras, 279 págs.) conta a longa luta do lírico Wilson para se livrar da sombra do irmão gêmeo, o violento William, e da identidade masculina: seu sonho é se metamorfosear em ninguém menos que a Cleópatra vivida por Elizabeth Taylor – no Cairo, claro. A voz mezzo gay mezzo grossa de Wilson/Cléo narra o romance, primeiro livro “convencional” escrito por Joca Reiners Terron. Espanhol nascido em Cuiabá, cuja atual residência paulistana sucede um périplo por dez cidades brasileiras, Terron escreveu o livro após um mês hospedado num hotel mequetrefe do Cairo, participando do projeto Amores Expressos idealizado pela produtora RT/Features – que já enviou ao exterior nomes como Bernardo Carvalho, Luiz Ruffato e Daniel Galera. A vivência desterrada talvez justifique parte das bizarrices da história, narrada em tom ora melancólico ora hilário, tendo sempre a frase perfeita como norte. A busca pela linguagem apurada é constante na obra do escritor, raro exemplar de sua estirpe que conjuga sob as longas barbas as figuras do poeta, contista, editor, jornalista, tradutor, professor, quadrinista e designer gráfico – espécie de camisa 10 da literatura contemporânea. Identificado com a escrita de invenção publicada por editoras independentes, Terron distanciou-se de experimentalismos de livros como Curva de Rio Sujo (a ser transformado em filme dirigido por Felipe Bragança) e o resultado é uma narrativa segura, porém não livre de surpresas – como trocas de sexo, crimes, perda de memória e jogos com o tema do duplo na arte. Em tempo: apesar da coleção de excentricidades sob sua rubrica, Terron é um quarentão meio careta, pai de Júlia e casado com a editora Isabel Santana, a “Egípcia do Crato” a quem dedica o romance. A seguir, a entrevista. Continuar lendo