Crítica/Não-ficção

Um guia para o mundo das aparências


Houellebecq fede, mas menos do que um cadáver

Resenha para o Guia da Folha Livros Discos Filmes de junho

O mapa e o território é puro Michel Houellebecq: aquele texto cinzento, dois comprimidos de Rivotril abaixo do resto da humanidade. Jed Martin é um artista abúlico. Seu pai, ex-arquiteto que ficou milionário construindo resorts cafonas para novos ricos, é seu único elo: a mãe se suicidou quando Jed era criança. À parte o interesse em pintar flores na adolescência, Jed só vira artista quando usa a câmera do avô para fazer com amor de entomologista “a fotografia sistemática de objetos manufaturados de todo o mundo“. Sua primeira exposição, Trezentas fotos de ferramentas, é um sucesso. Prosseguindo no “realismo serial”, depois de uma densa depressão Jed é “iluminado” pelo registro obsessivo de mapas da Michelin, em mostra aplaudida por público e crítica. Nesse ponto, a linguagem distanciada de Houellebecq, iluminada por mordacidade a frio, torna-se semelhante ao jargão metido da crítica de arte – e não poucas vezes o autor recorre à própria Wikipedia para pastichar o texto com parágrafos vazios e empolados. Já a descrição do circuito cultural é mais corrosiva.

Jed não precisava ser brilhante, o melhor quase sempre era não falar nada, mas era indispensável escutar seu interlocutor, escutá-lo com gravidade e empatia, às vezes reanimando a conversa com ‘Sério?’, destinado a denotar interesse e surpresa, ou um ‘Sem dúvida’ (…), uma neutralidade cortês que lhe dava a impressão de artista sério“.

A sorte sorri para Jed quando a Michelin patrocina seu site, através de uma diretora russa, Olga – uma Maria Sharapova do mundo das comunicações, com quem ele emenda um caso; o sucesso desperta a irritação de notáveis como o escritor Frédéric Beigbeder (amigo de Michel Houellebecq na “vida real”). Após longa depressão, Jed tem nova epifania: volta à pintura e cria 42 quadros gigantes retratando profissionais, de açougueiros e prostitutas ao próprio pai-engenheiro até culminar em Bill Gates e Steve Jobs discutem o futuro da informática – e os conceitos de acumulação, de escala e de flerte com a fama fornecem ao autor de Plataforma elementos para brincar com o status da arte e suas relações espúrias com o vil metal (Damien Hirst e Jeff Koons surgem como extras). Então a narrativa dá um nó, pois, para escrever o catálogo da exposição, Jed convida ninguém menos que… o escritor francês Michel Houellebecq.

A descrição que o narrador faz do escritor é comicamente inspirada na persona midiática de Houellebecq, misantropo, bêbado, chato: “Fedia um pouco, embora menos do que um cadáver“. Engenhosa, essa construção mise-en-abîme será revestida com um evento altamente inverossímil que inspira ao milionário artista Jed nova revelação estética – quando cria uma obra que entrelaça produtos industrializados e a natureza. “A superfície gigante e enrugada do mar, como a pele de um velho em fase terminal“: essa rara descrição lírica exibe a moral de Houellebecq – em que tudo o que é humano está morto e contamina irreversivelmente o belo e o verdadeiro.

Nada se parece tanto com O estrangeiro de Camus quanto a escrita convencional e sem brilho do autor francês, quase kafkiana em sua assepsia – o que o avizinha de JG Ballard, notório também por demonstrar com ironia gelada a caducidade do indivíduo da era digital, soterrado pelo avanço tecnológico, que torna trabalho, afeto, arte e mercado a mesma e tediosa coisa. No mundo em que o amor se tornou mera mediação dos desejos via máquinas, Houellebecq é, senão profeta, um satírico, leal e monótono guia.

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