Ensaio/Não-ficção/Reportagem

Clico ou não clico?


Novo livro do escritor Nicholas Carr afirma que o mergulho intenso na rede muda crucialmente o funcionamento do nosso cérebro. Pensata-playground para a revista V, novamente com a parceria do jovem Fabio Cobiaco

A internet me deixou burro muito burro demais, cantaria Arnaldo Antunes se transpusesse para hoje o clássico titânico “Televisão”. É a leitura proposta pelo impactante A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros (Agir, 311 págs.). Escritor especializado em tecnologia e ciência, Carr colabora no jornal The New York Times e no blog Rough Type, entre várias publicações. Mas, para escrever seu livro, um dos best-sellers nos EUA em 2011 e finalista do Pulitzer, Carr desconectou-se. Cancelou a conta no Twitter, deixou em suspenso a página no Facebook, fechou o leitor RSS, restringiu o Skype e as mensagens instantâneas, e – o mais dolorido de tudo – desligou o e-mail durante o dia inteiro.

Por meses minhas sinapses clamavam pela sua dose de net“, ele contou, em entrevista à V (por e-mail). “Às vezes eu caía numa farra na web um dia todo, mas com o tempo a fissura cedeu.” Alguns velhos circuitos neurais pareciam ressuscitar, enquanto os mais novos, ligados à web, se acalmaram. “Comecei a me sentir menos como um rato apertando uma alavanca e mais como um ser humano; meu cérebro respirava de novo“, lembra o escritor.

Carr contemporiza que, como autônomo, pode se dar ao luxo de passar um tempo desconectado – mas a maioria das pessoas não tem esse privilégio em sua profissão. “Nos últimos anos a rede se tornou instrumento fundamental na vida social, acadêmica e profissional das pessoas. Entretanto, seu uso sadio e adaptativo pode dar lugar ao excesso e à falta de controle, gerando severos impactos na vida cotidiana de alguns usuários“, analisa o psiquiatra Daniel Spritzer, que intega o Grupo de Estudos de Adições Tecnológicas em Porto Alegre.

Pioneiro na pesquisa brasileira de DI – dependência em internet –, Spritzer explica que determinados comportamentos são potencialmente aditivos; bom exemplo é o envolvimento com jogos de azar. “Estas dependências comportamentais afetam áreas específicas do cérebro também afetadas no uso de drogas“, afirma. “Como numa dependência química, o dependente de internet ou jogos eletrônicos, por ter a necessidade de passar cada vez mais tempo em contato com o objeto do seu desejo, apresenta sintomas de abstinência emocionais e físicos se ficar privado dele. Vai hipervalorizar este comportamento em detrimento de outras situações e relacionamentos, antes considerados muito importantes na sua vida“, aponta Spritzer.

A análise do psiquiatra gaúcho reflete cabalmente o livro do escritor norte-americano. Carr descreve pesquisas que provam como os hyperlinks, que nos levam de página a outra na internet, acabam por condicionar determinados circuitos neurais em “escolhas” – clico ou não clico? Se clico, ganho uma “recompensa“: mais informação. E mais, e mais.

Esse tipo de “escolha” inexiste em um texto escrito em papel. Como ratos, nos condicionamos em ler textos com hyperlinks – e nos reformatamos para ter nossa atenção continuamente interrompida. Isso, em paradoxo, nos faz ficar ainda mais famintos por novas informações. Seres humanos têm o instinto primitivo de caçar o máximo de informações ao redor que conseguimos: esse instinto fez com que nossos ancestrais sobrevivessem. O problema é que trocamos o importante pelo novo. “Com nossas conexões constantes em fluxos de informação e mídia digital, o instinto primitivo nos torna consumidores compulsivos de pequenos bits de informação“, diz Carr. “Entramos em um perpétuo estado de distração e interrupção, perdemos a habilidade de voltar atrás da barragem de dados e nos engajar em mais calmos e atentos modos de pensar – como a contemplação, a reflexão, a leitura profunda, e por aí vai. Nos tornamos escravos dos nossos aparelhinhos, em vez de sermos seus mestres“, alerta o escritor.

Há quem entenda esse comportamento como típico de uma era de transição entre tecnologias. É o caso de Alexandre Matias, editor do caderno Link, d’O Estado de S.Paulo. Matias acha que são vários tipos de compulsão que ataca os audazes navegantes da rede. “Para uns, é a compulsão pelo que está acontecendo agora; para outros é a forma como as pessoas veem a própria imagem; para terceiro, a necessidade de armazenar tudo que consegue. Estar sempre conectado tende a cutucar essas compulsões, mas isso apenas reflete uma fase de transição de comportamentos“, acredita.

Spritzer contrapõe: “Uma característica da internet é oferecer recompensas, por menor que seja o esforço que se faz, e toda a atitude é gratificada“, diz ele, lembrando dos “curtir” do Facebook e dos retuítes do Twitter. “Isso aumenta o contraste com (e diminui a vontade de realizar) tarefas extensas, complexas, que exigem dedicação maior, nas quais muitas vezes não existe um ‘prêmio’ tão freqüente (mas que são de extrema importância à nossa vida).” Viciado nesses prêmios da rede, o navegante se torna um distraído contumaz.

Carr acredita que a cultura da distração está matando nossa capacidade de criar raciocínios originais. “É quase impossível pensar critica e conceitualmente sobre qualquer coisa se você é sempre distraído“, diz o escritor. “Profundidade requer a habilidade de focar em grande concentração. Meu medo é que trocamos a habilidade de ir fundo em um tema pela habilidade de roçar a superfície das coisas.” Proprietário do Trabalho Sujo, premiado blog de cultura pop onde chega a postar dezenas de temas num único dia, Matias crê na capacidade de saber filtrar o que necessitamos. Mas, como hard user, sente que mudou alguma coisa em seu cérebro? “Estoco só as informações que me ajudam a raciocinar, e não dados brutos“, diz. “De que adianta saber a capital de todos os países do mundo ou a filmografia completa de certos diretores? Ao contrário do que o discurso antiinternet provoca, me sinto livre ao saber de que não preciso decorar toda informação do mundo para me sentir informado.”

RESSACA DE SUPERINFORMAÇÃO?

O raciocínio de Matias nos leva a um novo tópico em nosso excesso internético: a perda de memória. Em seu livro, Carr explica que nossa “memória de trabalho” – fundamental, por exemplo, para armazenar números de telefone – tem sido seguidamente corroída pelas facilidades da rede. Ao contrário da memória de longo prazo, virtualmente ilimitada, a memória de trabalho, ou de curto prazo, precisa de complexos processos biológicos para ser fortalecida e se tornar memória de longo prazo. O uso continuado da rede, que implica em contínuo esquecimento, faz com que agilizemos nossa capacidade multitarefa e desempenhemos uma atenção dispersa com muito mais velocidade e eficiência.

Terceirizada para a rede, a memória de curto prazo se transforma em um índicenão sei o que é, mas sei onde está. Porém, pelo fato de o processo da memória de trabalho em si não ter nenhum valor afetivo, este não se solidifica e logo cai no vazio, à espera da próxima tarefa. “Quando promovemos a terceirização de nossa memória a uma máquina, também fazemos a terceirização de uma parte importante de nosso intelecto e de nossa identidade“, escreve Carr.

O psiquiatra Spritzer, no entanto, acredita que a mudança pela qual o cérebro contemporâneo está passando não é exatamente algo ruim – é natural à nossa sociedade. “Fazer muitas coisas ao mesmo tempo hoje em dia é a regra, e a tecnologia facilita muito isso“, diz. “Assim, a tendência de buscar o conhecimento de modo mais exploratório que profundo decorre da quantidade cada vez maior de informações necessárias à vida contemporânea. Se acrescentamos a isso o ritmo acelerado da sociedade e a intensa exigência de produtividade do mundo competitivo, temos um cenário que favorece esse novo jeito de pensar.”

Mudamos nossa mente, é certo. Isso não tem mais volta? E se rolar uma “ressaca” de tanta informação e conexão? O editor do Link já percebe um movimento nessa direção – apontando para o revente movimento Slow Reading, por exemplo. “Deve acontecer em breve, como a slow food se impôs ao fast food como opção radical“, vê Matias, que, entretanto, desdenha de fugas em massa da internet. “Isso é neo-romantismo: como os românticos criaram uma utopia pré-industrial que nunca existiu, veremos cada vez mais gente com saudade de um tempo em que nem tudo era tão conectado, criando uma sensação de que talvez fosse melhor do que como as coisas são hoje. Mas não: as coisas não eram melhores antes da internet…“, brinca o jornalista brasiliense. Apesar de lidar com dezenas de casos de dependentes da rede, o psiquiatra Spritzer também crê que temos de aprender a lidar com a compulsão por estar conectados – e que, no fundo, isso não é assim tão ruim.

A vida agitada que levamos não é culpa da internet; se não tivéssemos as redes sociais, não estaríamos tendo uma vida pacata, supertranqüila, com todo o tempo do mundo pra conversar cara a cara“, entende o gaúcho. “Hoje as pessoas estão cada vez mais conectadas umas com as outras – e essa conexão é real. A necessidade do ser humano de ter contato íntimo e profundo com os outros é característica forte da espécie – que, em determinado momento, acabará regulando alguns comportamentos que hoje geram desconforto.

Carr também é cético em relação a um saudosismo pré-digital. “Ainda estamos nos adaptando à tecnologia, redesenhando as normas sociais e as expectativas em torno disso – assim como fizemos com os automóveis e a eletricidade“, contemporiza o pesquisador. “Depois de um tempo, acharemos normal ter a atenção dividida o tempo todo, estar o tempo todo olhando numa tela. Aliás, este é o tema do meu próximo trabalho: o que acontece quando as pessoas trabalham mais olhando para telas do que lidando diretamente com o mundo?

Se você chegou até o final das 1600 palavras deste texto, caro leitor, parabéns: ainda há salvação para seu nada distraído cérebro. Próximo passo? Terminada a leitura, desconecte-se, caia fora da rede. Se daqui a alguns dias você ainda lembrar do que leu, boa notícia para você e outra ainda melhor para nós: sua memória de longo prazo funciona.

8 pensamentos sobre “Clico ou não clico?

  1. Isso me lembra uma história (não sei se verdadeira) de que Sócrates não acreditava na escrita e era militante do analfabetismo por acreditar que ter palavras em outro lugar que não a mente e a fala emburreciam. Ou seja, a mesma preocupação com a transferência de memória.

    Toda tecnologia trás, em si, um grupo Hamish ou neo-luddita.

    [P.S.: Esse Nicolas Carr é o mesmo daquela história trágica dos Beats? O retratado em “E os Hipopótamos Foram Cozidos em seus Tanques”?]

  2. Cheguei até aqui numa pesquisa sobre internet e cognição contemporânea, tema da minha tese de mestrado. Gostei muito da matéria e pretendo passá-la como leitura aos meus alunos do estágio em docência. :)

  3. Muito bom texto!

    Agora sobre o desafio de desconectar-se por algus dias e ver se ainda lembrarei, proponho um desafio maior (e que creio que nnao seria capaz) Lembrar do nome do escritor Nicholas Carr e do editor Alexandre Matias… Mas como ele, Matias, disse, pode ser que eu tenha entendido que esses nomes a Rede decora pra mim e meu cérebro armazenará os questionamentos e provocações aqui escritos!

    parabéns mais uma vez pelo texto!

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