Não-ficção/Perfil

Um estrangeiro na legião


Hugo Pratt, na Argentina, em 1950

Criador do mítico personagem Corto Maltese, o italiano Hugo Pratt é homenageado com exposição em Paris que trata de suas obscuras ligações com… a maçonaria. Conheça esse verdadeiro herói dos quadrinhos, que viajou pelo mundo todo e deixou profundas marcas no Brasil. Um perfil escrito para a revista The President com o auxílio luxuoso do bróder Fabio Cobiaco – que desenhou uma HQ inédita protagonizando Pratt

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Quando você pensa em um desenhista de quadrinhos, imagina um sujeito que permanece horas ancorado à prancheta. A imagem é correta em 99% dos casos: grandes artistas da HQ levam um dia para desenhar apenas uma página, e pavimentam a existência com essa rotina. O 1% responde por nomes como Hugo Pratt – um globetrotter italiano que levou uma vida tão extraordinária quanto as aventuras que desenhou. Um ano após ser tema de grande exposição em Paris, a mesma cidade vê outra surpreendente mostra de seus trabalhos. Aberta de 15 de fevereiro a 15 de julho, Corto Maltese et les secrets de l’initiation: imaginaires et Franc-Maçonnerie à Venise autour d’Hugo Pratt apresenta peças inéditas e parte de seu fabuloso tesouro de mapas, objetos e livros de inspiração maçom.

Nascido em 1927 em Rímini, mesma cidade-natal de Fellini, Hugo Pratt herdou o misticismo da mãe, que tinha origem judaica e turca: Evelina Genero era estudiosa de ciências esotéricas, da cabala à cartomancia. Diversamente, o pai, Roland Pratt, um fascista de ascendência inglesa, era um homem prático, que, ao ser convocado em 1936 para lutar pela Itália na Etiópia (então Abissínia), largou mulher e filho em sua cosmopolita casa em Veneza. Hugo só foi morar na África no ano seguinte, e em 1941 o pai o forçou a se alistar nas hostes colonialistas.

O evento marcou sua vida, pois o jovem Pratt tomou contato não só com militares italianos como ingleses, etíopes, senegaleses e franceses – verdadeira legião estrangeira: o charme daqueles uniformes, quepes, cores e rostos diferentes está presente em toda sua obra. No entanto, desde cedo o fascínio pelas liturgias militares era sombreado pela tendência à deserção e ao individualismo. Nessa época começava a ler histórias de aventura e quadrinhos – em especial Terry e os Piratas, de Milton Caniff, hit da Era de Ouro dos gibis americanos.

Pratt pulou fora das forças coloniais em 1941, enquanto o pai se inscrevia na legião que combatia os independentistas. No fim daquele ano, Hugo e a mãe foram internados em um campo de prisioneiros civis, sob administração francesa; já o pai havia sido preso pelos ingleses e estava detido em um campo de concentração. No fim de 1942, no mesmo instante em que Hugo e a mãe eram levados à Itália em um navio da Cruz Vermelha, o pai de Pratt morria na cadeia, de um tumor no fígado.

De volta a Veneza, Hugo matriculou-se no colégio militar Città di Castello; em 1943, sentiu o chamado da aventura e, contaminado pela época confusa, se alistou na brigada Lupo, da efêmera República de Salò (nome do governo de Mussolini no território não conquistado pelos Aliados). Revoltada, a mãe foi puxar as orelhas do filho na caserna: após uma cena memorável, com direito a guardachuvada na testa do descerebrado adolescente, pressionou Hugo a voltar a Veneza.

Em 1944, tentando ganhar uma garota, Pratt se fazia passar por um piloto sul-africano quando foi preso por oficiais alemães, que o alistaram na Polícia Marítima – da qual escapou um mês depois. Numa reviravolta espetacular, em fevereiro de 1945 Pratt alcançava as forças aliadas. Bateu continência na 28a Brigada Garibaldina Ítalo-Iugoslava, depois no 8o regimento britânico e enfim, graças ao inglês fluente, na 5a Armada Americana. Em 24 de abril entrava em Veneza à frente das tropas aliadas – para as quais organizou um belo de um carnaval.

O fascistinha Pratt em Veneza; e com o papai na Etiópia

No armistício, Pratt editou com os artistas Mario Faustinelli e Dino Battaglia a revista Asso di Picche (Ás de Espadas), onde já desenhava profissionalmente. Em 1946 Pratt trabalhava no porto de Veneza e se divertia jogando na primeira divisão de rugby quando resolveu viajar para Roma com o vago propósito de se alistar na Legião Estrangeira – projeto que caiu no vazio. Em 1947 vagou por Áustria, Inglaterra e França; em Trieste, tentou embarcar clandestino para os EUA, mas a polícia o impediu e o devolveu a Veneza. Afinal, seu talento foi pescado pelo renomado editor Cesare Civita, da Editorial Abril argentina, e em 1949 Pratt partia para Buenos Aires, onde iria viver por treze anos.

A vida cisplatina foi determinante para a formação cultural de Pratt. Ali conheceu cartunistas como Hector Osterheld e os irmãos Del Castillo, além dos escritores Jorge Luis Borges, Rodolfo Walsh e Roberto Arlt, e músicos de tango e jazz, como Dizzy Gillespie, com quem terá longa amizade. O período portenho seria marcado por inúmeras confusões amorosas que redundaram em muitos trabalhos – e filhos. A primeira mulher foi Gucky Wogerer, iugoslava com que casou em Veneza em 1953 e teve os filhos Lucas e Marina. Gucky foi trocada pela assistente de Pratt, a alemã Gisela Dester – e esta, pela musa de Ann of the Jungle, a belga Anna Frogner, mãe de Silvina e Jonas.

Para pagar pensões e contas do lar e do bar, Pratt produzia alucinadamente. Ao acelerar o trabalho, seu traço vagou da precisão rigorosa do nanquim ao impressionismo gestual da aquarela, estilo iniciado com os Junglemen e os personagens Sgt. Kirk e Ernie Pike. Ao lado do também gigante dos quadrinhos Alberto Breccia, Pratt começou a dar aulas na Escuela Panamericana de Arte de Buenos Aires. Naquela atribulada década, sob desvarios amorosos, golpes militares e pesos desvalorizados, o desenho se tornou o único eixo da vida de Pratt. Quando a EPA abriu filial em São Paulo, Pratt veio passar vários meses no Brasil – onde geraria mais descendentes.

O Sgt. Kirk, um dos primeiros personagens de Pratt

Pressionado pela crise econômica, em 1959 Pratt foi viver em Londres, contratado pela editora Fleetway para escrever contos de guerra. Ali conheceu Patricia Frawley, uma americana de Wheeling, Virginia – a relação frutificará em uma de suas melhores obras, Wheeling. Em seguida, partiu em longa viagem pela Irlanda. Afinal juntos em Veneza, Pratt se casaria com Anne no religioso (ele ainda era civilmente casado com Gecky). Colaborou um tempo no Corriere dei Piccoli, mas, em 1963, decidiu voltar à Argentina. Em 1964, Pratt fez extensa jornada pelo Brasil – Mato Grosso, Bahia, Amazonas – seguindo a rota de Percy Harrison Fawcett, o explorador britânico que morreu em 1925 em busca de uma mítica cidade perdida no Amazonas.

Acabou vivendo um mês numa tribo de xavantes e, sortudo, o gringo descolou uma índia para chamar de sua – que lhe dará um filho, Tebocua, do qual só virá a saber tempos mais tarde. Na autobiografia autorizada O desejo de ser inútil, Pratt discorre sobre este curioso descendente.

Me comunicava com os xavantes através dos desenhos. Ficavam fascinados com minha mão, me faziam desenhar sem parar. Para compreendê-los, organizei um pequeno dicionário xavante. E até fiz parte de suas sociedades secretas! Os homens se reuniam e era suposto se ocuparem de magia – mas na verdade só ficavam sentados fumando. Quando perguntei que magia havia afinal naquilo, me explicaram que os ritos mágicos eram mero pretexto para ficarem sossegados, entre homens, longe das mulheres e das suas histórias. No fundo, era o mesmo princípio dos clubes da alta sociedade britânica: não havia tanta diferença entre um guerreiro xavante e um coronel do exército das Índias! Depois de um tempo, me integraram numa família. Havia tantas famílias quanto mulheres; os homens eram mais numerosos e, assim, praticavam a poliandria – uma mulher para quatro maridos. Foi assim que na Amazônia tive um filho. Hoje, Tebocua é um belo jovem cor de capuccino, olhos verdes. Quando ri, põe a mão na boca: entre os xavantes mostrar os dentes é sinal de agressividade. Uma vez lhe levei uma lata de anzóis, e seu negócio hoje vai tão bem que ficou rico: é um dos homens mais importantes da tribo.

Em 1964 Pratt reconheceu a paternidade de outras cinco crianças: Victoriana Aureliana Gloriana dos Santos, fruto de um caso com Doroteia dos Santos – uma filha-de-santo baiana –, e seus quatro primos. É por isso que em Salvador, além da professora de dança Gloriana dos Santos Pratt, você pode encontrar um Lincoln Pratt, um Wilson Pratt, um Washington Pratt…

Capa de L'Uomo del Sertao, em que Pratt detalha o ciclo de Lampião

Na Inglaterra, Pratt aprimorou a técnica de confrontar a rusticidade do nanquim à delicadeza da aquarela – malícia que levará à perfeição nos anos 80, na série Périples Imaginaires. Nos anos 60, seu estilo ainda transitava entre força e leveza – de um lado, a violência dos contrastes de preto e branco, os gráficos eficientes em ângulos agudos do nanquim; de outro, as formas evanescentes, os cenários transparentes e as cores fugidias da aquarela. Mas, ao lado da extraordinária habilidade no desenho, Pratt tinha um inusual talento em escrever argumentos originais, roteiros fluidos e diálogos espirituosos, bem-humorados. Em 1967, ao voltar à Itália, Pratt conheceu Florenzo Ivaldi, um editor genovês fissurado em fumetti (como se chamam os quadrinhos em italiano), que lhe deu carta branca para criar o que quisesse na revista Sgt. Kirk. Assim, na história A balada do Mar Salgado, Pratt deu à luz Corto Maltese.

Corto Maltese em Una Ballata del Mare Salato

Marinheiro nascido em La Valette, em Malta, 1887, filho de oficial inglês e cigana sevilhana, Corto mora em Antígua, nas Antilhas, mas sua residência oficial é Hong Kong. Estrangeiro na legião, Corto veste-se com apuro, usando referências navais de jeito casual: se o cigarro permanente lhe dá ar de dândi, o enorme brinco na orelha esquerda passa a pecha de pirata. Em aventuras densas de referências históricas, Corto cruza com personagens reais como os escritores Joseph Conrad, Jack London, James Joyce, Ernest Hemingway e Herman Hesse, o jornalista John Reed, o pistoleiro Butch Cassidy, o piloto alemão Barão Vermelho, o padre tarado russo Rasputin etc.

Lacônico, leal, simpático com os desfavorecidos, elegante e nada violento, Corto viveu a infância no bairro judeu de Córdoba, onde descobriu ter nascido sem a linha da vida; por isso, riscou com gilete uma linha na palma, significando determinar o próprio destino. Em Fábula de Veneza, Pratt pela primeira vez faz seu personagem navegar pelo imaginário franco-maçom – uma das muitas menções ao ocultismo, que aponta sua obra como uma das mais intrigantes da arte serial. Desde o início, Corto Maltese é um sucesso; superpremiada, a série teve suas 29 histórias traduzidas em dezenas de línguas e vendeu milhões de cópias pelo mundo, fazendo de Pratt um homem rico – ele foi um dos primeiros cartunistas a deter controle exclusivo dos direitos autorais.

Corto em aquarela, técnica dominada magistralmente por Pratt

Em fevereiro de 1969 Pratt viajou à Etiópia em busca do túmulo do pai, que achou em um pequeno cemitério próximo a Dire Dawa: mesmo lugar onde morreu o poeta francês Arthur Rimbaud. Prosseguiu viagem por Tanzânia e Quênia e, ao voltar à Europa, no fim de 1969, resolveu morar em Paris – onde colaborou na semanal Pif Gadget e desenhou os 21 episódios seguintes de Corto Maltese. Mas o cartunista beatnik não cedeu aos encantos da Cidade-Luz e, em 1970, foi ao Marrocos com o amigo desenhista Antonio de Rosa; em 1971, fez longa viagem pela Irlanda.

Em 1974 viajou para Wheeling, Virginia, EUA, a fim de receber a chave da cidade das mãos do prefeito, em homenagem à série homônima. Em 1976, viajou ao Canadá e em seguida à América Central. Dois anos depois, fez importante viagem à Angola: neste ano saem L’Uomo dei Caraibi, L’Uomo del Sertao e L’Uomo della Somalia, série encerrada em 1991 com L’Uomo del Grande Nord, mais tarde adaptada no cult movie Jesuit Joe.

Os anos seguintes foram de grande produção das séries Corto Maltese e Gli Scorpioni del Deserto, muitas ilustrações e diversas incursões por publicidade, rádio e TV – desenhou sobre carros de Fórmula 1, cartões de telefone, suas histórias foram cantadas por gente como Sergio Endrigo e Paolo Conte… Enfocado por inúmeros documentários na TV e no cinema, Hugo Pratt virou estrela pop, e até foi retratado pelo amigo Milo Manara na série HP e Giuseppe Bergman.

Corto em Uma Fábula de Veneza

Nos anos 1980 o bon vivant viajou por Irlanda, EUA e Canadá e, já estabelecido como um dos maiores mestres de HQ da história, deu-se ao luxo de apenas escrever o roteiro de Verão índio para a arte de Manara. Em 1984, após receber a Legião de Honra do governo francês, deixou Paris para se estabelecer na Suíça, em uma grande casa de Grandvaux, perto de Lausanne, onde afinal pôde alinhar os 35 mil livros de sua mítica biblioteca. Entre 1985 e 1995, fez inúmeras viagens por Somália, Patagônia, Djibouti, Canadá, ilha de Páscoa, Espanha, Samoa, ilha Cook, Nova Guiné, Austrália e Singapura: todos lugares em que ambientou aventuras em gibis e livros como Vento di terre lontane e Le pulci prenetanti.

O ocultismo, coadjuvante nas primeiras histórias, nas últimas se revelou tema central. A obra de Pratt fervilha de referências literárias, artísticas, cinematográficas, históricas e… maçônicas. Se a sociedade secreta está no fundo de Fábula de Veneza, a intriga de El Gaucho conta uma briga entre lojas maçônicas, e vemos em As Célticas uma cerimônia de iniciação maçom. Em 1994, na edição final de Wheeling, seu testamento maçônico, Pratt defende o humanismo e a superação de conflitos culturais, ilustradas pelo ritual iniciático de um indiano, baseado em um personagem histórico: trata-se de um iroquês chamado Thayendanegea que foi recebido entre os maçons londrinos em 1776. Vista em conjunto, a obra de Pratt é irrigada por choques e encontros com povos diversos e seus rituais: guaranis e xavantes sul-americanos, apaches e cherokees norte-americanos, sociedades pré-colombianas, tribos africanas, da Melanésia e de Nova Guiné.

Página de Wheeling

Na exposição ora em cartaz em Paris, os franco-maçons apresentam Pratt como irmão de Voltaire, Mozart, Goethe, Kipling e Casanova. A mostra tem pranchas originais de vários álbuns, entre eles Fábula de Veneza, aquarelas, e também o cordão de Pratt e dois de seus aventais maçônicos – entre eles o de grau de mestre secreto, ornado com um Z. Também podem ser vistas as máscaras africanas que o inspiraram em As Etíopes (Corto Maltese na África) e ainda uma espada maçônica imantada de história: havia sido roubada em 1924, durante o saque da Loja de Veneza pelas milícias de Mussolini… lideradas pelo próprio pai de Pratt.

Em 1994 se manifestaram os primeiros sinais do câncer no intestino e em 1995 Hugo Pratt escrevia sua última história, Morgan – uma aventura romântica durante a Segunda Guerra na Itália. O artista morreu em 20 de agosto de 1995, repousando agora no pequeno cemitério de Grandvaux. Após longo tempo mal publicadas no Brasil, as obras de Hugo Pratt passaram a ser editadas pela Nemo, que no final de 2011 lançou o enigmático episódio Juventude – em que Corto Maltese discute o conceito de honra com Jack London, Rasputin e um general japonês durante a guerra russo-japonesa.

Apesar de a editora prometer mais dois episódios para 2012, torcemos para que seja republicado um clássico do nosso ciclo do cangaço, Sob o Signo de Capricórnio, em que Corto encontra bandidos reais como Corisco de São Jorge e fictícios como Tiro Certeiro – curiosamente, esta história se transformou numa canção de Jorge Dü Peixe gravada pela Chico Science & Nação Zumbi. Aliás, para quem acompanhou as aventuras de Hugo Pratt, não seria surpresa nenhuma se, dia desses, o próprio Lampião fosse revelado como mestre maçom: conforme ensinou o criador de Corto Maltese, uma vida só é muito pouco.

Fiquem agora com a fina arte de Fabio Cobiaco.

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