Entrevista/Não-ficção/Perfil

Poderoso chefinho

Mauricio de Sousa em seu escritório, sob o Rei Cebolinha

Mauricio de Sousa comemora 50 anos de carreira planejando um museu, inaugurando parques temáticos, criando desenhos animados, invadindo a China com seus personagens – e, aos 75, já prepara os dez herdeiros para sucedê-lo no comando da mais bem-sucedida franquia cultural do país. Um perfil escrito há um par de anos para a revista paraense Living

“Você é um desenhista ou um empresário?” Silêncio. Mais silêncio. Silêncio que se arrasta por uns dez segundos. “Boa pergunta”, responde afinal Mauricio de Sousa, um pouco estupefato, como se em lugar disso o repórter tivesse perguntado, à Cebolinha: “Você é um homem ou um lato?”. Foi das raras vezes em que o vaidoso baixinho denunciou alguma insegurança em sua autoconfiante pose. “Boa pergunta…”, refletia.

Antes de conversar com a Living, o pai da Turma da Mônica havia passado algumas horas com um grupo de estudantes – ele é tema de inúmeras teses de mestrado e doutorado – em seu amplo escritório sem janelas no edifício da Mauricio de Sousa Produções, onde outrora funcionava a editora Abril, na Lapa paulistana. Como não vai todo dia ao estúdio, o paulista da pequena Santa Isabel, um workaholic que dorme no máximo 5 horas por dia, maximiza o tempo com múltiplos afazeres.

Sempre equipado de um sorriso infantil (e quando deixa de sorrir o desenhista dá lugar a um empresário de semblante quase mafioso), concede todas as entrevistas que consegue, revisa capas de suas revistas, confere esculturas de seus personagens que habitarão um futuro museu e dá bronca num funcionário que havia pendurado um quadro sem simetria (“Pode uma coisa dessas, no estúdio de um desenhista um quadro torto?”, brincava, mas sinceramente contrariado). Ora ou outra interrompia o papo para assinar contratos intermináveis – aliás, aviso aos falsários: sua rubrica não tem nada a ver com a assinatura imortalizada ao fim de tantas HQs criadas ao longo de 50 anos.

no escritório de Mauricio

Isso mesmo, meio século. Bidu, Cascão, Cebolinha e mais “300 ou 400 personagens”, como ele contabiliza, estão aí há tanto tempo que parecem acidentes geográficos na paisagem cultural brasileira – há até críticos que colocam a Mônica no mesmo patamar de Gabriela, Capitu e Iracema como nossos mitos fundadores. Em 2008, essa família apareceu de cara nova: o resultado estremeceu o mercado editorial e devolveu a marca Mauricio de Sousa à ordem do dia. Prevista para uma tiragem inicial de 50 mil exemplares, a Turma da Mônica Jovem, que “adolesceu” o universo de personagens em uma ambiente visual de mangá, chegou à circulação de 405 mil. É a segunda revista mais vendida no país.

Os puristas criticam o redesign da Turma (que continua a ser publicada exatamente como há 50 anos, desenhada pelos mesmos artistas, vendendo em média 200 mil exemplares). Estranham que Cebolinha, agora Cebola, tenha passado por uma fonoaudióloga e não cometa os mesmos elos, ops, erros, que Cascão se transforme em skatista radical e até conceda tomar banho de vez em quando, que Magali seja adepta da malhação…

Há ainda quem reclame que as belas meninas da Turma Jovem sejam sensuais, ou que as histórias abordem temas pouco infantis. “As meninas apenas têm um corpo bonito; eu nunca ia deixar que parecesse algo erótico. E hoje sexo, drogas e violência fazem parte de qualquer conversa familiar. É preciso parar de tratar as crianças como seres inferiores, sem senso crítico”, refuta Mauricio. Sobre o sucesso, diz que pode ter surpreendido o mercado; ele, não. “Podemos vender 700 mil e bater a Veja!”, desafia Mauricio, com as sobrancelhas eretas de sempre.

na mesa de Mauricio

Sete horas autografando

O fenômeno amparou as novas aventuras do maior estúdio de cartum infanto-juvenil do país – mundialmente, uma franquia só comparada aos universos Disney, Asterix ou os mangás japoneses. E duas novidades têm a ver com o Pará. Ao lado dos Parques da Mônica de Luanda e Lisboa, em plena construção, o desenhista irá lançar um Parque da Mônica em Belém em 2010 [update: pois é, não rolou]. “A entrada da Amazônia é estratégica para nossos planos. Além disso, eu gosto demais da cidade…”, afirma Mauricio, que aproveita para contar uma passagem inusitada por Belém.

Uma vez teve um probleminha com a organização da sessão de autógrafos em uma Feira do Livro… Resultado: fiquei desenhando 7 horas seguidas para a criançada, sem me levantar da cadeira. Meu recorde. Só que, lá pelas tantas, de tão cansado eu comecei a trocar a cabeça da Mônica pelo corpo do Cebolinha… Aí o pessoal arranjou um negócio para eu levantar: um guaraná chamado Garoto. Dali a pouco não queria parar: o público vinha e eu já desenhava 3 personagens de uma vez. Saí, fui para o porto, me trouxeram um peixe delicioso, chamado filhote, um peixinho de uns 100 quilos… depois do jantar eu continuava tão aceso que passei a madrugada conhecendo a cidade!”, lembra. A outra aventura é uma história da Turma da Mônica Jovem a ser ambientada no Pará. “Vai ser a primeira edição internacional da nossa revista. Só não posso detalhar o projeto, se não cai o mundo…”, segreda o marqueteiro desenhista.

O sucesso do “mangá mestiço”, como Mauricio define a Turma Jovem, se tornou plataforma de lançamento para inúmeros projetos – como um centro cultural onde funcionará seu museu, séries de desenhos animados e uma parceria educacional com o governo chinês. Quando Mauricio começa a enumerar suas proezas à frente de uma linha de montagem que engrena 500 profissionais diretos e 30 mil indiretos, cujos produtos licenciados geram US$ 2 bilhões por ano, até nos esquecemos do artista de carne e osso que recentemente sofreu com o seqüestro da mulher e do filho caçula. Ou do senhor de 73 anos, pai de dez filhos com quatro mulheres, avô de onze netos e um bisneto, que se recusa a crescer e sequer se interessa por qualquer tipo de arte que não seja infanto-juvenil.

Como é que eu quero ser visto, desenhista ou empresário? Sabe, eu fui repórter, e o jornalismo tem uma face prática que me abriu a cabeça para sentir que a gente precisa criar e também saber fazer marketing, para não esconder na gaveta uma coisa maravilhosa. Sempre segui o conselho do meu pai: ‘Desenhe de manhã e à tarde gerencie o seu produto’. Então eu acho que sou apenas um desenhista que soube administrar o próprio trabalho”, responde, afinal. A seguir, o leitor tem acesso à conversa da Living com o criador dos personagens infantis brasileiros mais populares em todos os tempos.

Superconectado

Recebo cerca de 300 e-mails por dia, não saio de casa sem o Blackberry, nem desgrudo do computador. Meu trabalho hoje é cada vez mais de consultor dos meus criadores. Leio roteiros, indico caminhos, peço mudanças nos desenhos, confiro se a filosofia do nosso trabalho está toda lá. Nunca criamos um código de ética: não existem ‘policies’ na Turma da Mônica. Mas a nossa filosofia é uma espécie de constituição não-escrita. [Nesse momento, entra na sala um desenhista para aprovar uma capa da Mônica Jovem – um tema que mistura futebol e ficção-científica. “E aí, mestre, tudo certo?” É o primeiro funcionário que percebo chamá-lo por “mestre”. Mauricio aprova e elogia o trabalho do arte-finalista, mas pede que um dos braços do robô não fique tão perto do logotipo da Mônica.] Antes eu pegava na mão do pessoal e ensinava: agora, você vê, eles já chegam sabendo. Todos os estúdios no mundo têm um código. Mas se eu fizer um manual aqui, vou engessar a criação do pessoal. Prefiro deixá-los soltos e aí vou corrigindo aqui e ali. Aliás, eles não vêm mais ao estúdio – trabalham em Porto Alegre, Ribeirão Preto, Florianópolis, uma vez por mês é que nos reunimos para conversar.

Planejamento por décadas

Desde o começo tive um planejamento estratégico para a Turma da Mônica. Eu gosto do que faço e quero continuar fazendo. Desde quando era repórter policial já fazia isso – e trabalhei como repórter por 6 anos. Em 1959, quando saiu a primeira tira, eu já pensava a distribuidora de tiras: no fim da década de 60, republicava minhas tiras em 300 jornais. Nos anos 70, lancei a primeira revista. Nos anos 80, comecei a fazer desenho animado, mas precisei parar por conta da crise. Nos anos 90, fiz os primeiros parques temáticos. Nos anos 00, iniciei os desenhos animados para TV – temos seis horas inéditas –, voltados à internacionalização: desenhos para Turma da Mônica, Penadinho, Astronauta, um longo-metragem da Turma da Mônica, Romeu & Julieta, e ainda o Horácio e o Chico Bento em computação gráfica. E também vamos fazer o Ronaldinho Gaúcho, que é republicado em 32 idiomas, enquanto a Turma sai em 20 idiomas pelo mundo. Já a década de 10 vai ser da educação. Os anos 20 provavelmente serão do boom tecnológico, vamos inventar umas coisas que não existem, estão na minha cabeça, tem uns protótipos… vão demorar um tempo pra sair, não posso falar. Nosso marketing é estilo escada, um degrau depois do outro. Nossa atividade tem possibilidades ilimitadas.

Quero a China

Nossa mensagem ligada a ética, comportamento e valores chamou a atenção do governo chinês, que nos convidou a participar de um projeto a atingir 180 milhões de crianças. É preciso investir mais em educação: se fizerem isso, o Brasil explode. Já tentei bastante entrar no governo para fazer um projeto grande como esse da China, mas parece que não tenho a chave certa [risos]… Na China não serão usados cadernos e livros, senão acabariam com uma floresta todo dia [risos]: é tudo via web. Alguns nomes eu tive de fazer adaptações: o Cebolinha, por exemplo, virou Cinco-Fios…

Desenho mestiço

Há muito tempo queria fazer uma história com o pessoal adolescente. Foi durante o centenário da imigração japonesa que acabei percebendo como o mangá domina o mundo da HQ e da comunicação. E o meu leitor, aquele de uns 10, 11 anos, muito por conta do encolhimento da infância – não existe mais pré-adolescência, eles já migram direto! – olhava meu desenho e dizia: “Isso é coisa de criança”. Aí percebi que gostavam de mangá e resolvi juntar as duas coisas num desenho mestiço. Foi uma coisa planejada, não foi um insight. No gênero, é a revista mais vendida do mundo. A partir do ano que vem, vai ter uma segunda revista no mesmo gênero: o Chico Bento Jovem. Talvez nem seja do jeito mangá, e sim em um novo estilo, sempre falando mais de meio-ambiente. Os chineses adoram ele…

Museu ou aposentadoria?

Estou fazendo um livro com as páginas policiais que eu transformava em HQ na Folha de S.Paulo dos anos 50. Vamos buscar coisas inéditas. E tenho uma biblioteca com todos os originais de todos os tempos, tudo o que foi publicado eu guardo a sete chaves. O museu Mauricio de Sousa vai fazer parte de um complexo cultural com escola de artes, cinema, teatro, sala de espetáculos. Como estou com a corda toda, ainda trabalho bastante. Mas vai ter uma época que a gente vai deixar de trabalhar… já estou começando a delegar. Minha filha Marina vê roteiro comigo, o Mauro entrou para expandir a área de teatros, o Maurício vai mexer com produção de músicas, Vanda e Valéria trabalham na área de eventos internacionais e projetos especiais, a Mônica é diretora comercial, a Alice Takeda, minha mulher, é a diretora do estúdio, o meu irmão Márcio, o criador do Louco, que já compôs mais de mil canções, cuida da música, netos já estão começando… onde tiver um Sousa no expediente pode crer que é da família [risos]. E também há funcionários com mulheres, filhos, nepotismo não é proibido. Isso dá uma fidelização da turma. Temos funcionários com 40 anos de casa. Difícil é entrar…

Fora do ar

O seqüestro do Marcelinho, meu filho de 10 anos, foi uma coisa muito difícil. Nunca tinha sofrido nenhuma violência, assalto, furto, nada. Durante uns dois ou três dias fiquei meio solto no ar. Não sabia para que lado ia. Depois assentei a cabeça e o coração e resolvi seguir meu temperamento – que é de achar que tudo vai dar certo e vai terminar bem, vamos resolver e nada vai acontecer de mal. Me vesti com essa sensação de confiança e atravessei mais ou menos inteiro os 20 dias de seqüestro. O seqüestro foi em São José dos Campos, quando eles estavam visitando o avô dele. Foi tudo planejado. Alguns foram presos, outros sumiram. Nunca negociei com eles: desde o começo falei com a polícia. Tinha um negociador, um amigo advogado. Eram criminosos que não tinham trabalhado nisso antes. Felizmente o Marcelinho não ficou com nenhum trauma – até por ter ido com a mãe, se sentiu protegido. Hoje, tenho mais dois seguranças. E quando as crianças vão para algum lugar desconhecido eu mando segurança também. É um dos crimes mais doloridos que existem: você fica no ar e não sabe o que fazer.

Emo, eu?

Tudo o que é best-seller eu leio. Agora vou ler o Crepúsculo, da Stephanie Meyer. Vou com o Marcelo a lançamentos de todos os filmes, vejo tudo, me interessa ver como ele reage. Mas nunca tive uma vontade de fazer um personagem emo. Não acredito nisso! O instinto de sobrevivência é o mais forte que existe. Aquele cara desanimado, o universo brigando para enterrá-lo, triste… só pode ser um momento de fraqueza; no interior, ninguém é assim. Essa tribo de emos é moda. Não acredito em ninguém normal que queira se destruir e não queira viver um momento feliz.

Adultos, tô fora

Nunca quis fazer literatura adulta porque não sei. Pra isso, você tem que entrar nos escaninhos meio danificados da mente humana. E eu não quero mexer nisso. Saí da reportagem policial porque para ser um bom jornalista teria que baixar a bola e entrar no submundo – ter contato com bandido, traficante, desordeiro. Não era isso o que eu queria. Prefiro falar para a criançada, que é onde existe esperança. O adulto já está danificado. Eu teria que falar de assuntos sórdidos e desagradáveis numa literatura adulta, fazer um Nelson Rodrigues… não é a minha. Prefiro ficar do lado de de quem está escolhendo caminhos.

Sorte

O universo nos criou com livre arbítrio para usar ou não. Fazer metas para alcançar a felicidade e espalhar alguma coisa de bom faz parte da natureza humana. Se eu fosse vendedor de livro de auto-ajuda, ganhava um dinheirinho [risos]… Nas histórias eu jogo um pouco disso: os personagens sempre resolvem seus problemas, não ficam preocupados. O ser humano deveria ser assim: tem um problema insolúvel? Deixa pro dia seguinte, que você vai observar de outro ângulo. Não acredito em sorte; acredito em oportunidade. Estar no lugar certo, na hora certa, passa algo e você aproveita, é um acidente feliz. Sò não acredito em nada acidental. Acho que tem toda uma armação por trás… mas não é destino. Não creio em nada que vem do céu. Sou um católico brasileiro, porque na minha família tinha kardecista, budista, evangélico, tinha tudo, ia à sessão espírita, coral da igreja batista… Essa filosofia acabou passando para o Horácio, o dinossaurinho que quer ajudar o próximo e até tem compaixão pelo dinossauro que quer devorá-lo. É por isso que é o único personagem que até hoje só eu pode escrevê-lo. Aliás, estou devendo umas histórias dele…

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