Ensaio/Não-ficção

O dedo médio das divas*

Gisele mostra o pussy power a Bob Wolfenson


– Cabelos longos, ideias curtas, dizia Schopenhauer – o chefe citou, malemolente, envenenando uma ideia nonsense sugerida por uma colega durante a reunião de pauta. A moça, além de linda, foi rápida na língua:

Schopenhauer tinha pinto pequeno! – jogou o antídoto a bela. Tóin! Soltando uma risadinha, o chefe levou as mãos à pelve, em gesto subliminar de autodefesa. Certa da vitória, a repórter sorria enquanto fazia um rabo de cavalo – e voltava a insistir na ideia nonsense. Era a história do mundo se desenrolando numa redação de revista, ambiente dos mais machistas, apesar do falso glamour da profissão às vezes fazer parecer o contrário: ao se sentir ameaçado, homem no poder manda mulher bonita calar a boca; mulher bonita reage endereçando um chute certeiro no centro de poder do homem.

A velha história teve novo capítulo esta semana, logo após o Super Bowl – a final do campeonato de futebol americano, aquele empurra-empurra metido a besta a que os ianques chamam esporte, maior evento midiático do ano. Logo de cara houve uma demonstração inequívoca de power pussy quando, no meio da xaropada patrioteira que rola em toda abertura de Super Bowl, assistimos ao show de Madonna, que convidou ao palco M.I.A. A primeira diva não ganhou cachê nenhum com seus cafoníssimos doze minutos – mas faturou US$ 84 milhões só com a participação na publicidade veiculada no evento.

Já M.I.A. encerrou sua perfomance incendiária mostrando o dedo do meio à América. A organização careta multou a cingalesa em 72 mil dólares – o que para a diva é dinheiro de pinga, perto do bafafá gerado pela travessura (a carreira de Janet Jackson ressuscitou após seu mamilo “inadvertidamente” despontar em um show no Super Bowl, anos atrás).

Aí veio aquela pegação de meninos se fazendo de fortões etc. Fim do jogo, os Giants ganham de 21 a 17 dos Patriots – o time do quarterback Tom Brady, símbolo sexual e marido da não menos símbolo sexual Gisele Bündchen. Após o jogo, respondendo às gozações dos torcedores dos Giants, a gaúcha não deixou por menos e condenou os colegas de Brady: “Eles não pegaram a bola na hora que deviam pegar a bola” (é um jogo muito sofisticado, amigos). E acelerou: “Meu marido não pode ficar jogando a porra da bola e pegando a bola ao mesmo tempo. Não acredito que eles [seus colegas de Patriots] deixaram a bola cair tantas vezes!“.

Talvez o próprio Brady tenha pensado a mesma coisa, bem como uma legião de fãs dos Patriots. Era uma perfeita leitura do jogo: a defesa não pode fazer o trabalho do ataque, o ataque falhou, por isso perdemos. Mas a gritaria da mídia foi geral: quem pensa Gisele que é, para comentar um jogo de futebol americano? Uma supermodelo brasileira rica, famosa e linda?

Em demonstração explícita de corporativismo, um rival de Brady, o running back Brandon Jacobs, dos Giants, disse que “Gisele fica mais bonita se calar a boca“. (Mais tarde ele se desculpou.) Curiosamente, ninguém refutou o comentário de Gisele em si, e sim o mero fato de ela ter comentado. Talvez as pessoas tenham se sentido ameaçadas por Gisele ter ido direto ao pinto pequeno de Schopenhauer. Quem sabe não esteja aí um futuro para Gisele: comentarista de futebol americano. Pode invadir esse clube do Bolinha com falas precisas e marretadas de beleza.

Um pouco como já faz a também gaúcha Renata Fan ao tratar de futebol no programa de TV Jogo Aberto, cutucando tanto os boleiros burros quanto os assanhados (seu colega Neto, ex-10 do Corinthians, certa vez pediu que a ex-modelo “levantasse o decote“, pois ele estava “desconcertado“. Natural, para quem passou a vida no meio da macharia fedida, se magoar com uma beleza tão tranquilamente próxima).

O sexismo já havia pego no pé de Gisele por conta de uma propaganda em que aparecia de sutiã e calcinha para convencer o marido a almoçar com a sogra ou consertar o carro. Diziam que, num país que tem uma mulher presidente, as fêmeas devem vencer pela inteligência, nunca via charme ou beleza. Chatice de gente mal-humorada: numa época de baixa criatividade da propaganda brasileira, o comercial se destacou justo por transitar nessa tênue linha entre ironia e sedução. Claro que Gisele é uma mulher inteligente, tanto que pode brincar com o estereótipo – do mesmo jeito que pode falar o que quiser para, poxa, defender o marido, o que afinal de contas foi o que fez.

Gisele pode, aliás, mostrar o dedo médio quando quiser. A revista Forbes apontou a dona de uns R$ 400 milhões como a primeira top model no caminho para ser bilionária. Se isso não for sinal de inteligência, então esse pobre jornalista aqui não sabe o que é. Em tempo: aquela colega de cabelos longos é hoje respeitada colunista de uma revista, enquanto que o ex-chefe, dizem, acaba de afinal sair do armário – e nunca pareceu tão feliz. Mas isso já é tema para outro artigo.

______
*Este artigo, aliás, foi rejeitado por certo caderno cultural paulista por tocar em outro tema tabu: o assédio moral e sexista em redações jornalísticas. “Não se fala de coleguinhas”, atalhou a editora – sim, uma editora mulher. “Não quer mexer no seu texto?”, sugeriu. Não, obrigado, bela: de onde eu venho a gente não tem medo de meter o dedo médio em vespeiro.

4 pensamentos sobre “O dedo médio das divas*

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